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Alegorias ou adereços?

Por que escrever um e-mail para um programa de TV?

por Egídio La Pasta Jr.
do Rio

[31/03/2010]

Essa semana a Betty Lago, em um rompante de irritação com as leituras dos e-mails que o programa Saia Justa recebeu - a maioria de mulheres reclamando infinitamente sobre tudo e todos - disse que esses e-mails estão chatos ou são chatos demais, não lembro exatamante. A Márcia Tilburi, quase em apelo, disse que não, que aqueles e-mails eram importantes porque representavam uma questão importante da mulher e a Betty invalidou o discurso dela dizendo que as mulheres estão muito chatas, chatas demais. Tiíburi insistiu. Betty não quis saber, virou para a produção do programa, firme na sua posição e pediu um whisky.

- Me dá um whisky? - ela pediu.

Maitê Proença sorriu alguma brincadeira, Mônica Waldvogel chamou os comerciais e uma questão me chamou a atenção. Eu compreendo a Betty Lago porque hoje em dia é tendência a gente escrever um e-mail para um programa de televisão para reclamar o quanto a vida é difícil e cheia de problemas. Pedir alguma opinião. Mas é chato. É chato demais. Quem quer saber? Por isso pedir um whisky é uma forma de sublimar, de amenizar ou aniquilar uma questão alheia. Chata. Chata para aquelas mulheres incríveis. Chata demais.

- Me dá um whisky - ela pediu provavelmente para cortar o clima, para brincar com a chatice alheia ou simplesmente para beber. E sob efeito de alguma coisa forte, a gente aguenta. Não aguenta?

Então eu lembrei da Virginia Woolf que a Nicole Kidman fez em As Horas e lembro do cigarro recorrente em boa parte das cenas. Lembro da Elizabeth Taylor bêbada no filme que cita a escritora inglesa no título - Quem tem medo de Virginia Woolf? - e da bebida e do cigarro como artifícios para a catarse. Inevitável.

Fiz uma seleção rápida - e quase leviana - na memória, desses personagens que bebem,fumam e se drogam para suavizar a pressão/a urgência/ o peso dos fatos. A Nurse Jackie da Eddie Falco, que todo dia antes de entrar na emergência do hospital, toma um vicodin. Verlaine e Rimbaud. Sylvia Plath. A dona de casa de Ellen Burstyn viciada em seus comprimidos em Réquiem para um Sonho ('roxo de manhã, azul à tarde, laranja à noite'). Marisa Paredes dizendo que 'fumar foi tudo o que conseguiu na vida, já que o sucesso não tem gosto nem cheiro' em Tudo sobre minha mãe. E Casablanca, Conrad Veidt e Humprey Bogart no memorável diálogo: - 'Qual a sua nacionalidade? - Eu sou um bêbado'. Sem falar nos músicos, cantores, astros do rockn'roll.

Atores incríveis. Artistas que eu conheço e convivo.

O quanto essas drogas ajudam a enfrentar a grande chatice alheia? Ou a nossa própria chatice? O quanto esses adereços nos facilitam as vias obrigatórias?Os embates inadiáveis? Os confrontos protelados? O que é alegoria? O que é adereço?

Não sou - por pura chatice - fumante e o álcool me suspende a segurança. Sou visitante raso desses signos. Normalmente enfrento a ladeira abaixo são e boa parte das vezes, salvo. Fiquei escravo da minha própria chatice? E pior, sem um whisky para brindar com a Betty Lago.

Teste sua memória e nos diga quais as personagens que você pensa imediatamente, que fazem parte desse universo abordado no texto.



Jaqueline  -  São Paulo  -  09/04/2010 ~ 01:07
Egídio, Adorei o texto e a reflexão. Sou fã das garotas do SJ e da boêmia como lubrificante social e como escape para a angústia, tão comum nos nossos tempos. Um sociólogo do Séc. XIX disse que ser blasé é conseqüência da economia de mercado. E a contemporâneidade é chata, puritana e blasé. Talvez seja isso, a economia de mercado cria o problema para vender a solução. Mas às vezes é preciso se render. rss Um abraço.

 
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