Em 2000, Zygmunt Bauman lançou Modernidade Líquida, obra que colocava a fluidez dos líquidos como a principal metáfora para a presente fase da modernidade ao tomar emprestado o manifesto de Marx e Engels de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”. Nem o velho comunista, nem o afogado sociólogo polonês poderiam imaginar que, um ano depois, a década começaria de fato marcada pelo símbolo de imponência e solidez do Império Americano indo abaixo pelo ar, no ar e ao vivo.
Ainda que sob fumaça, o 11 de Setembro inundou o mundo inteiro, que acompanhava cada instante incrédulo. Pouco importava o que as imagens mostravam, os aviões se chocando às torres, pessoas confusas correndo ou simplesmente poeira... as pessoas pararam diante das televisões para vê-las: sejam elas importantes ou não, críveis ou fantásticas.
Do evento, surgiram questões e clichês da “nova ordem mundial”: problemas do multiculturalismo, urgência das relações, política de vigilância, temas bastante debatidos e esmiuçados. Para mim, a data seja, talvez não a gênese, mas a consolidação de duas características essenciais do nosso tempo: a [re]valorização do presente, do instante e a necessária e inevitável confusão ontológica de realidade/ficção.
A razão da modernidade abre espaço para percepções múltiplas. O caminho da racionalidade não abarca mais as inúmeras possibilidades. A verdade é contada: para narrar, precisamos ter em conta o tempo, e os estados líquidos são instantâneos. Da produção cultural contemporânea ao Twitter, é apresentada uma duração compacta [o instante é a menor unidade de tempo possível] e distendida [uma realidade que é percebida muito mais pela sensibilidade e afetividade]. O presente se configura como a única possibilidade de percepção do real, comprimido entre dois ‘nadas’: o passado [sempre revisitado e ressignificado] e o futuro [impossível de ser imaginado].
_verde é o novo preto
Memória deixou de ser mero registro de uma história cartesiana para abarcar imaginação, subjetividade e devaneio. Mesmo com o consumo instantâneo e descartável, o ideal yuppie saiu de moda. Penthouses e modelos conversíveis dão lugar a gadgets minimalistas ou 48 polegadas. A sustentabilidade é tendência e o verde, o novo preto. E por falar em tendência e "the new black", esses foram anos de consolidação para a moda nacional, que estabeleceu um calendário nacional de respeito e conseguiu o respeito da cena fashion mundial.
“Sorria, você está sendo filmado” passou a ser “Sorria, os outros foram filmados”. O videotape deu lugar à imagem digital. E desta vez, com muito mais sexo e mentiras. Da sex-tape rocambole de Paris Hilton aos panetones de Arruda. O fluxo das nuvens marcou a Internet. Sai o Napster, entre o streaming do site-mais-famoso-do-momento. Um retrocesso das possibilidades de trocas estéticas e criativas que o poder do download oferece, mas um monumental avanço na concepção de cultura não como produto, mas sim como serviço.
Em contraste à compressão tempo/espaço dos anos 1990, ao ciberespaço e à estética videoclipe, vimos uma valorização do poder afetivo e sensível do corpo e sua relação com a espacialidade e a mudança de temporalidade, num tempo formado por eternos presentes. Das instalações site-specific ao cinema de geração da estética do fluxo: Gus Van Sant, os orientais e os portugueses. O docuficção, ao lado da autoficção literária e os realitys televisivos, bagunçaram os campos antes diametralmente opostos. Não é difícil imaginar Bolaño e Pedro Costa falando mal de Dan Brown e Ron Howard enquanto dão um tapa na pantera.
Ainda no cinema, Hollywood se rendeu ao politicamente correto. Da Terra-Média às favelas cariocas, entre hobbits, bruxinhos e vampiros: o Oscar negro, os milionários indianos, a América independente e trans: Diablo Cody levou o seu, Felicity Huffman ficou em casa desesperada e os cowboys continuaram deixando suas esporas no armário.
_macgyver reloaded
E na televisão, a mudança de temporalidade, mais uma vez. Jack Bauer não foi só o MacGyver da nossa década, mas carregou cada segundo dos seus dias uma forte carga trágica shakespeariana. Ao seu lado, os sobreviventes do voo 815 não só estavam perdidos no espaço, mas principalmente no tempo. Uma família de mafiosos, outra de agentes funerários completamente adorável e disfuncional, um serial killer e uma dona-de-casa traficante completam o retrato e exploram melhor as contradições de um multiculturalismo domesticado.
Já na música, a década começou com o rock indie dos Strokes [impossível não citar Casablancas e cia.] e seguiu com a melancolia indie e emo. Deixaram de sofrer apenas no quarto ou de braços cruzados, o pezinho shoegaze batendo e o bloco do eu sozinho ganhou a dancefloor. Arcade Fire, Interpol, Franz Ferdinand, Hot Chip, Yeah Yeah Yeahs, Animal Collective e River Cuomo em processo de Bono Voxilização. E mesmo com os quadris não mentindo, os esquisitos dançaram: a década termina com a superestimada Lady Gaga como a nova diva pop. Será?!
Para encerrar esses primeiros 10 anos dos anos 2000, a Paradoxo faz listas com a certeza de que são - aliás como toda boa lista deve ser - essencialmente arbitrárias. Os momentos mais ricos da História sempre foram os de incerteza, transição e busca pelo desconhecido. E talvez a lista mais importante seja a relação daquilo que nos falta. Aquela procura sem fim...
PS: a lista do que falta começa por esse texto. De Obama a Lula, de Susan Boyle às sandálias Crocs, são inúmeras as ausências aqui.