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O dia em que comi Ângela Rô Rô
Para ler ouvindo qualquer música dela por Nathalia Duprat
Encosta aqui no meu peito. Sente? Nem eu. Há tempos não consigo ouvir som algum. Parada no meio da multidão, esperando o carro-de-boi passar. Escravos? Não, escravidão nenhuma. Joguei todas naquela curva lá atrás, sabe? Exatamente quando você me falou que era, mas no fundo não era, e eu quis mesmo acreditar porque ouvir o melhor é sempre mais agradável. Não, minto, minto. Acreditei de verdade. A velha mania de esperar sempre o que é bom, mesmo que no fundo não haja nada de realmente satisfatório ao paladar. Talvez esse não seja o meu sentido mais aguçado. Talvez se você tivesse pegado minha mão, talvez assim eu saberia. Mas não. Escuta. Pode ouvir isso? É Ângela Rô Rô. E não me venha dizer que ela canta dores de cotovelo, aquelas que dão choque fino quando a gente bate numa quina da estante. Gosto da rouquidão dela; quase obscena de tão entregue, cantando a vida como quem vai à esquina e volta com dez pãezinhos num papel pardo, amarrado com um cordão qualquer. Lembro quando era criança, que esperava meu pai chegar com os embrulhos da padaria. Sabe, eu era dessas crianças. Eu era?, eu disse eu era? Bem, eu era daquelas de olhos brilhantes fixos em qualquer volume estranho chegando numa sacola. Queria ver, abrir, descobrir, matar a vontade de ser inédita em qualquer coisa da vida, nem que fosse uma lata de óleo, um perfume novo, caquis que acabaram de chegar maduros da feira. Você deveria ter me conhecido quando eu não tinha medos de ser ousada, de não tecer tantos limites o tempo inteiro. Vivia como o poeta: duas doses sempre acima. Correias, para que as quero?, se não sou escrava de ninguém. Mas então, quando meu pai chegava com o papel pardo dos pãezinhos, eu roubava o cordão e brincava a noite inteira de entrelaçar os meus dedos e fazer formas, flores, labirintos imaginários onde minotauro algum tinha mais força que eu. Criança tem uma graça, não é? Agora pára. Olha só. Às vezes, em momentos assim, sinto que quase posso ver o movimento do som. Voz tem cor, já percebeu isso? A sua, por exemplo, é lilás esmaecido, quase como os olhos de Liz Taylor depois de cheirar uma carreira de pó. Porque você fala sempre pouco e sua voz parece ter vergonha da vida. Logo você, que é tão grande e parece não ter medo algum. Acho que por isso gostei dos seus braços. De novo, mais uma e outra mania; dessa vez, de enxergar proteção onde o abraço é bom, ainda que tímido. Mas o som que eu queria falar, lembra que eu falava sobre tocar nas ondas sonoras? Pois é. Eu queria falar disso, escuta bem. "Dói em mim saber que a solidão existe, insiste, no teu coração. Dói em mim saber que a luz que me guia não te guia, não". Isso entra na gente, remexe as coisas lá dentro e sai como um escorregão, percebe? Quase posso me sentir exposta. Fico aqui pensando quando eu morrer. Vão abrir minhas gavetas, meus livros, minhas caixinhas escondidas, meus versos. Vão abrir meu caderno de folhas verdes e descobrir os meus segredos. Todas as minhas entranhas serão analisadas e julgadas. Será que saberão de verdade quem eu fui? Será que alguém sabe quem eu sou? Será que você sabe? Preciso que me prometa, agora é sério, uma coisa. Todos os dias, pegue aquele livro, aquele que fica sempre ao meu lado, leia qualquer coisa e pense em mim. Tenha raiva, saudade, carinho, desejo ou qualquer coisa que se sinta, mas leia em voz alta e diga, "ela amou". Você promete? Não, não estou te fazendo medo, nem dizendo que quero morrer. Isso não é uma despedida. Você acha mesmo que alguém que tem uma pata chamada Daisy Cristina pensa em se matar? E tenho tanto a falar, a querer, a errar ainda. A vida ainda me surpreende, sabe? Outro dia um amigo me falou: olha, querida, quando um homem quer te comer, ele faz de tudo, ele vende até a mãe. Fiquei pensando nisso agora. Não que isso tenha me causado qualquer surpresa, obviamente, mas é que é estranho pensar em gente comendo gente como quem come carne. Nessas horas só consigo lembrar de Clarice. "Eu sou o horror diante das coisas". Acho que vou desligar Ângela Ro Rô e sua voz vermelho-rebu. Quero um pouco de sono agora. Quero a espontaneidade de tirar uma pitanga do pé e esmagar na língua, um doce-azedo escorrendo por dentro. Ainda que não saiba de nada; ainda que tenha medo de nunca aprender o limite que divide todas as coisas e errar a dose; ainda que a minha vida também seja uma sucessão de ontem não resolvidos. Porque hoje é hoje. E amanhã, meu bem, amanhã, ninguém sabe.
Van - Recife/PE - 17/06/2004 ~ 13:40
cabeção - 17/06/2004 ~ 14:31
Ana - 18/06/2004 ~ 08:34
Maria Angélica - Juiz de Fora - 18/06/2004 ~ 11:03
Carol - Joao Pessoa - 18/06/2004 ~ 22:05
Mary* - Salvador - 21/06/2004 ~ 09:30
Nataly - Recife - 30/09/2004 ~ 10:48
Roberta - São Paulo - 24/04/2006 ~ 10:41
Luana - Dourados - 16/10/2008 ~ 11:49
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