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Pedais pra que te quero

A união da prática esportiva, desafios para o corpo e a mente e o prazer da liberdade são o tripé do cicloturismo

por Glau Gasparetto
[23/08/2004]

Fazer turismo, conhecer lugares, costumes e pessoas diferentes, é uma descoberta nova a cada instante, certo? Imagine então fazer tudo isso viajando por várias cidades - e até países - com uma bicicleta? Sim! Você leu certo! Viajar de bike não é coisa de malucos ou super-heróis. Muita gente já descobriu o cicloturismo, nome dado à prática de cumprir pequenas e grandes distâncias sobre duas rodas. Basta um certo preparo físico, uma bicicleta com algumas especificações e muita disposição. Pronto! De olho na estrada, a aventura é certa e a sensação de liberdade, indescritível.

Engana-se quem pensa ser difícil tal façanha. Em pouco tempo é possível estar apto a enfrentar grandes pedais. Um bom ponto de partida para quem se interessa é o Clube de Cicloturismo do Brasil, que dá dicas para iniciantes. Primeiro, nunca é demais lembrar que se deve dar um passo - ou uma pedalada! - de cada vez, começando com trechos pequenos, adquirindo o equipamento adequado e obtendo muitas informações.

Na hora de comprar a "magrela", verifique se é adequada para sua altura, já que existem diferentes tamanhos de quadros. Viajar com a bicicleta no tamanho errado pode acarretar dores e até lesões. Depois, comece com pequenas distâncias, no seu bairro e na sua cidade. Com o tempo, aumente a quilometragem. "Na primeira viagem, escolha um caminho já conhecido e que esteja de acordo com o seu condicionamento físico. Nos primeiros dias, pedale menos e vá aumentando aos poucos para descobrir seu próprio ritmo", ensinam Eliana Garcia e Rodrigo Telles, que presidem o Clube e são cicloturistas há 15 e 7 anos, respectivamente.

Para definir uma quilometragem diária de viagem, não esqueça que geralmente a bicicleta estará carregada com bastante peso (de 15 a 30 quilos) e por isso a distância percorrida deverá ser menor. "Se num passeio de um dia você pedala 70 quilômetros, então numa viagem essa média deverá baixar para 35 ou 40", exemplifica Rodrigo. Ele e a companheira usam a bike como meio de transporte no dia-a-dia, e nas férias costumam pedalar em torno de mil quilômetros.

Meu Brasil brasileiro
Os dois já realizaram muitas cicloviagens e consideram o Brasil como melhor lugar para a prática. "Temos uma riqueza natural e cultural enorme e muitas estradinhas de terra levando a lugares fantásticos. Preferimos, geralmente, as áreas naturais, como as regiões de parques estaduais ou nacionais", revelam. Alguns locais recomendados são Serra da Canastra (MG), Chapada dos Veadeiros (GO) e Lagamar (litoral sul de São Paulo).

Cada aventura é única e resulta numa experiência intensa. Para Elaine e Rodrigo, uma das mais marcantes foi a volta ao redor do Lago Titicaca (Peru e Bolívia). "Pedalamos durante um mês, numa altitude de quase 4 mil metros e com bastante vento contra. Tivemos contatos com culturas muito antigas, anteriores ainda aos incas. Conhecemos dezenas de sítios arqueológicos, ainda não descobertos pelo turismo", lembram.

Volta ao mundo
Se já não é pouca coisa enfrentar 500, mil ou 2 mil quilômetros, que dizer então de 46 mil? Pois foi esse o resultado de apenas uma das muitas aventuras do paulista Antonio Olinto Ferreira, que deu a volta ao mundo em bicicleta entre maio de 1993 e outubro de 1996. "O vigor, a disposição e a saúde que o cicloturista adquire, o sentimento de ânimo a cada manhã, é como se tudo tivesse sido renovado durante aquela noite bem dormida. Isso sem falar na receptividade das pessoas que só a bike pode dar", depõe o entusiasta. (Veja entrevista completa)

Além da realização pessoal, a prática permite ações sociais e ambientais. Foi o que fez o paulista André Pasqualini, que junto de um amigo, em duas ocasiões (em 1997 e em abril passado), percorreu toda a extensão do rio Tietê, no Projeto 2000 pelo Tietê. Foram 1.126 quilômetros pedalados em 15 dias, margeando o rio que nasce em Salesópolis (SP) e deságua no Rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul. A idéia era preparar um documentário e uma exposição itinerante sobre a bacia. "Foram dias de muitas aventuras, contratempos, alegrias, tristezas, mas sem dúvidas, dias intensos, que ficarão sempre gravados em nossas vidas", diz.

Rock'n roll e pedal
Outro detalhe é que o esporte reúne várias tribos. O músico Eduardo Speeden, fã de rock'n roll, há tempos planejava botar os pés no pedal e fazer uma cicloviagem. O Festival Porão do Rock, que aconteceu no mês passado em Brasília, foi a motivação que faltava: em 13 dias, ele pedalou os 1.047 km que ligam São Paulo à capital federal, onde curtiu a conquista.

Conforme ele conta, a viagem foi bastante tranqüila. As poucas dificuldades foram cinco pneus furados e o transtorno para arrumar lugar para pernoitar em algumas cidades do caminho. "A prefeitura te manda para um lugar, depois para outro, depois para outro. Você acaba rodando a cidade inteira. Em algumas que programei para pernoitar, não existiam albergues, aí tinha que pedalar ate a próxima cidade para descansar", cita ele, que optou pela viagem bem ao estilo mochileiro.

Para um cicloturista, o dia que está começando é sempre o mais importante. "Cada dia você acorda com o objetivo de chegar na próxima cidade. Cumprir essa meta já é bem gratificante", afirma Eduardo. Isso sem contar o que você encontra e as possibilidades que surgem pelo caminho, como nadar em rios, visitar parques estaduais, chupar frutas no pé e até visitar um acampamento do Movimento Sem-Terra, como aconteceu com o paulista. E agora? "Vou fazer outra com certeza, mas ainda não sei nem pra onde e nem quando". Como todo cicloturista, ele já pensa na próxima viagem...



 
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