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Estrelas na boca
"Outros dias, novos dias, dias por vir" (Kevin Arnold) por Nathalia Duprat
João. Era sempre a mesma resposta quando lhe perguntavam qual a boca que mais desejaria ter beijado em toda a sua vida. Tanto tempo passara, que Lúcia já não lembrava exatamente quando começara aquela coisa que lhe enchia os 15 anos por dentro, querendo saltar em milhares de exclamações no próprio corpo, que ainda não conhecia bem. Em suas lembranças, via apenas o menino simples e rico do ginásio, carregando sacolas recheadas de pães doces das padarias da família, e vários saquinhos de iogurte batido de morango, uma novidade naquela época. Eram dias ventilados, quando se sentavam no tapete da sala de uma amiga em comum para juntos resolver problemas de matemática, devorando as delícias e contando piadas sujas. A boca de João tinha quase vida própria; rindo-cantando-reclamando-explicando tão bem as leis da física que ela jurava não saber somente para ter os cotovelos dele arranhando seu peito debaixo da blusa em gola V do colégio em que estudavam. Não que fosse santa pura virgem imaculada, mas naquele tempo, Lúcia ainda não sabia que nome dar àquilo que lhe amolecia os ombros quando ele lhe abraçava por trás, fingindo ser tudo uma grande e inocente brincadeira. Um dia - que não conseguia mais lembrar se fazia chuva ou sol - um dia, soube que João pedira Elisa em namoro. Fez beicinho, jurou indiferença, espalhou aos mais chegados que desejava grande felicidade ao casal. Somente em casa, abraçada ao gato Ademar, perguntou-se 345 vezes em cada minuto que passava, porque João, que era destinado a ser seu, rendeu-se à loirice da menina mais calada da sala. Sabia que Elisa era linda, alta, magra, tinha feito plástica no nariz e nas orelhas de abano, balançava cabelos lisos e brilhantes. Mas a boca de Elisa não tinha o formato que pediam os lábios carnudos de João. Lúcia ameaçou chorar, rogar pragas, nunca mais passar cola de português para ele. Do alto de seus 15 anos, ainda não sabia que as rejeições, sejam de que tipo for, costuram a vida de todas as pessoas e seus caminhos tortuosos. Até mesmo o de Elisa, com suas pernas compridas e um disse-me-disse no colégio quando seus pais se separaram. Aos poucos, João e Lúcia foram abandonando as noites sentados no tapete e reduziram os contatos às brincadeiras sutis no colégio, sob os olhos ciumentos de Elisa. Não havia mais abraços surpresa por trás, comentários maliciosos, bilhetes trocados nas aulas de geografia. Não havia mais recreio com João roubando os biscoitos de Lúcia ou escondendo seus sapatos nos galhos mais altos das árvores, apenas para carregá-la no ombros depois. Aos poucos, já não havia quase mais nada. Lúcia podia jurar que via nos olhos de Elisa um brilho de quem apostou no cavalo certo e faturou o maior prêmio. E tinha alguma razão. Meses se passaram, o namoro criou raiz e Lúcia aprendeu o que era a tal moleza que lhe enfraquecia as pernas e enchia o peito de qualquer coisa de grande e molhado e vermelho e quente. Porque foi exatamente isso que sentiu quando, num 15 de novembro, sentou ao lado de João na varanda de uma casa de praia onde os amigos do colégio passavam o feriado. Era noite e o vento frio que vinha do mar obrigava todo mundo a se proteger com lençóis e cobertores, enquanto conversavam amontoados em volta de algumas garrafas de vinho barato. Naquele dia, Lúcia não se preocupou em entender porque João e Elisa sentavam distantes um do outro. Porque tudo o que conseguia pensar era na coxa dele encostando a sua, embaixo dos tecidos protetores da colcha de retalhos vermelha e e azul. Uma sensação de entrega escorregava por dentro, quando sentiu a mão dele entrelaçar seus dedos e, com uma sutileza imperceptível aos olhos da namorada, envolver sua pele branca com uma quentura que ela ainda não conhecia. De medo ou de prazer, ela correu. "Precisamos de gelo". Lúcia desceu as escadas assustada e entrou na cozinha com o coração acelerado e um gosto de estrelas na boca. Contou até três, porque já não se lembrava como era até dez, prendeu a respiração e cantou a música da Joaninha. Um dia leu em algum lugar que Joaninhas eram bichos que acreditavam em tudo; assim, sempre que visse uma, deveria cantar para ela. "Joaninha voa voa / Que o teu pai está em Lisboa / Com um rabinho de sardinha / Para dar à Joaninha." Talvez fosse a leve embriaguez do vinho doce, talvez fosse aquela espuma branca que sentia deslizando no interior das pernas, talvez fosse só o cheiro do hálito de João. Não conseguia terminar os pensamentos, enquanto a cabeça pendia suavamente para o ombro, protegendo nas mãos fechadas o corpo que ele deixara lá dentro. Com uma caçamba de gelos fingidos apertada contra o peito, Lúcia sentiu a boca de João roçar seus cabelos. Um namoro sério, famílias que se adoravam, o nariz perfeito de Elisa, e ele estava lá, enfiado no meio metro de raio que diziam ocupar as auras, arriscando a confiança frágil da namorada perfeita. Quase 10 anos depois, Lúcia ainda lembrava dos poucos segundos em que durou os dedos firmes de João em sua cintura; da própria mão sendo pressionada contra o primeiro pau que encostara na vida; da boca de João avançando na sua, cheia de uma língua que não chegou a sentir. De medo e de prazer, pela segunda vez, Lúcia correu. Não sou puta, não sou puta, não sou puta, repetiu para si mesma enquanto subiu apressada as escadas de volta à varanda. Elisa nunca soube do que aconteceu. João passou os dias seguintes estranho pela casa. Os amigos beberam mais vinho. Lúcia nunca mais beijaria João. Acabaram-se os dias de colégio, os amigos tomaram rumos diferentes e a vida continuou sem avisar de seus planos. Lúcia entrou na faculdade de letras, João foi estudar administração e Elisa não passou no vestibular de fonoaudiologia. Anos depois, ela engravidou. Casaram-se, e a filha não nasceu bem de saúde. Brigavam sempre, Lúcia ouviu falar muito por alto. Guardava ainda alguma mágoa e saudade. Nunca mais haveria sacolas recheadas de pães, shows de música baiana no Clube Português, corpos suados descendo juntos as ladeiras dos carnavais de Olinda. O tempo levaria Lúcia a descobrir outras sensações, novos prazeres, medos e vontades. Conheceu pessoas diferentes, bocas variadas, alguns amigos e muitas possibilidades. Um dia, descobriria que valia o equivalente a uma biografia de Albert Camus. Mas isso já é outra história. Daquele tempo, ficou o desejo da boca de João, os cabelos enrolados em seus dedos, o cotovelo encostando matreiro no peito, a coisa mole escorregando por dentro. Nunca mais se encontraram.
Van - Recife/PE - 04/11/2004 ~ 17:41
Keke - Campina Grande - 04/11/2004 ~ 17:55
Carina - Brasília - 04/11/2004 ~ 18:23
mz - Olinda-PE - 05/11/2004 ~ 09:19
Clarissa - Rio de Janeiro - 06/11/2004 ~ 14:39
sil - recife - 06/11/2004 ~ 21:08
Joka - Recife - 07/11/2004 ~ 20:24
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