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Cinco de janeiro

Para ser lido no silêncio

por Nathalia Duprat
de Recife
[05/01/2005]

Então quando o ano começa e você resolve colocar a vida na balança, percebe que ainda não decidiu o que quer ser quando crescer. Percebe que há dezenas de problemas grandes e pequenos esperando na fila, sem que se saiba exatamente por onde começar. Descobre que seu trabalho não é exatamente aquilo com que sempre sonhou e que sua barriga é imensamente maior do que você gostaria. Descobre também que o mundo é cruel, as pessoas nem sempre são verdadeiras e muito do que você deseja custa bem mais dinheiro do que sua conta bancária anuncia. Descobre ainda que o tal grande-amor-da-vida sempre demora a chegar e quando chega nem sempre você se dá conta disso em tempo. Descobre que Paris é mais longe do que a esquina, que a bateria do celular acaba quando você mais precisa e que por cinco minutos você perdeu o foguete que lhe levaria às estrelas. Percebe também que dizer “não” é difícil, mas dizer “sim” a si mesmo é ainda mais complicado. Percebe que o metabolismo diminui com a idade e você já não pode comer três pacotes de biscoitos recheados de chocolate sem sentir culpa nenhuma. Percebe que sua mãe parece sempre ter razão e que toda a energia que você gastava com certas coisas já não fazem mais tanto sentido. Percebe que o tempo pode ser um grande carrasco e a saudade é capaz de partir um coração. Percebe também que você não tem asas como sonhava e que Ícaro não é seu herói favorito. Descobre que ervas daninhas crescem mais rápido que flores e que banhos de chuva só são legais nos filmes românticos. Descobre que as promessas do ano anterior se perderam no meio do caminho, que nunca haverá mais alguém como Frida e que os seus artistas preferidos já morreram quase todos. Descobre que ninguém dá muita importância às fatias-paridas no Natal e que seu cabelo nunca vai ser como os comerciais de xampu. Descobre que relacionamento a dois é o maior dos desafios e que ninguém está completamente preparado para virar um só. Descobre também que familiares nem sempre são amigos queridos e que amigos queridos também cometem erros. Descobre que distância não é tempero para saudade e dói um bocado quando se está longe de quem se queria estar perto. Descobre que conforto é imensamente melhor do que aparência, mas você nem sempre está preparado para assumir isto. Descobre que tesão às vezes cansa e sedução o tempo inteiro só existe nas telas de cinema. Percebe também que todo o esforço que dedicou a algumas pessoas só importava mesmo para você e que gentes usam máscaras que nem sempre lhe farão rir. Percebe que os preços só aumentam e todas as viagens que você imaginou para o ano que passou terão que esperar por mais algumas férias. Descobre que gostaria de pelo menos mais um sábado no meio da semana e dois feriados por mês. Descobre também que crescer dói e que é triste ver um cavalo morrer. Descobre que carinhos nem sempre são verdadeiros e que sua pele não é mais tão brilhante quanto antes. Percebe que natureza morta não é apenas mais um tipo de pintura que você costumava ver nos quadros antigos da sala de seus avós e que o poeta estava certo, e a vida, meu senhor, não é mesmo brincadeira.

 

Mas quando você acha que a balança já havia pendido inteira para um lado, você percebe que falta colocar no outro prato a certeza de que o mundo também pode ser bom, se visto do ângulo certo.

 

Percebe que lagartas nascem para ser borboletas e que não saber o que vai ser quando crescer não significa que você já não seja, ainda que não se tenha dado conta. Percebe que problemas não nascem separados de suas soluções e que resolvê-los é só uma questão de mente aberta, espinha ereta e coração tranqüilo. Descobre ainda que o trabalho que você não gosta é um passo a menos para descobrir o que realmente quer, e que barrigas grandes podem diminuir com um pouco de boa vontade. Descobre que crueldade sempre existirá porque o mundo é feito de pessoas, e todas são sempre falhas e imperfeitas, mas existe gente em que se possa confiar. Descobre que dinheiro é muito bom, mas saúde é ainda melhor. Descobre que o amor da vida, mesmo que demore, chega para todos, seja de que forma for. Descobre que diminuir a distância até Paris é diretamente proporcional ao seu esforço para chegar lá. Descobre que você não vai morrer se ficar sem celular e que atrás de um foguete perdido há sempre outro que chegará quando você menos esperar. Descobre também que dizer “não” é uma questão de exercício de personalidade, e dizer “sim” a si mesmo é apenas uma dose extra de auto-amor. Percebe que chocolates são mesmo deliciosos, mas há outras coisas gostosas com as quais ocupar os sentidos. Descobre que as mães continuam tendo razão e que sua energia é muito melhor aproveitada quando direcionada para o alvo certo. Percebe ainda que o tempo pode funcionar como sanativo de muitas dores e que saudades não precisam necessariamente machucar a alma. Percebe que voar sem asas é possível e o sonho de Ícaro não foi em vão. Descobre também que até as ervas daninhas são necessárias para ressaltar a beleza das flores e que os banhos de chuva trazem gripe, mas também podem despertar boas gargalhadas. Descobre que promessas não cumpridas não são promessas mortas e que Frida continua viva dentro de suas cores. Descobre também que artistas nascem todos os dias e que é preciso estar atento a isto. Descobre que você mesmo pode fazer fatias-paridas no natal e criar suas próprias tradições. Percebe que ninguém nunca estará satisfeito com seus cabelos, mas não é por eles que se conquista alguém. Percebe ainda que relacionamentos serão sempre difíceis, seja com quem for, mas fazer dar certo depende apenas de ambos abrirem mão de certos egoísmos. Percebe que seus amigos são aqueles que você escolheu para ter por perto e que amizade envolve doses cavalares de perdão. Descobre que o consolo para a distância é a certeza de que, ainda longe, há quem espere por você. Descobre também que assumir o que importa para você às vezes pode parecer estranho aos olhos dos outros, mas é o único caminho para aceitar (e amar) quem se é de verdade. Descobre que ser sedutor não significa ser legal, que sempre existirão as máscaras alheias e é preciso aprender a lidar com todas elas. Percebe ainda que, na medida em que os preços aumentam, cresce seu desejo de trabalhar mais e poder ter mais também. Percebe que finais de semana existem apenas para aliviar a carga do dia-a-dia e se sentir útil e produtivo é um dos grandes pilares para uma boa auto-estima. Percebe também que crescer, ainda que doa, é aprender a ser gente, que cavalos morrem apenas para que outros nasçam, ou o mundo seria inteirinho ocupado por eles. Percebe que carinhos de mentira não são capazes de lhe derrubar e que a pele sempre brilhará quando você estiver sorrindo. Percebe, enfim, que a balança da vida, mesmo pendente um pouco mais para cá ou para lá, encontra sempre, em algum momento, um ponto de equilíbrio. E é exatamente neste instante que você descobre que o ano que passou sempre valerá a pena e que brincar também pode ser possível.



Paulinha  -  Salvador  -  05/01/2005 ~ 12:19
O que eu faço depois de ter escrito um comentário enoooooooorme cheio de amor e admiração, para perdê-lo em seguida por não ter incluído meu e-mail no espaço indicado? Serve dizer que isso não foi suficiente para tirar do meu rosto o sorriso que seu texto provocou? :* Um beijo imenso. Obrigada pr ser assim. :)

Flávia  -  Brasilia  -  05/01/2005 ~ 12:33
Naty, você vai ser sempre a menina do sorvete que escreve coisas lindas, a menina que eu admiro há tanto tempo. Um beijo enorme e um ótimo 2005!

nina  -  São Paulo  -  05/01/2005 ~ 13:09
Naty, que sorte a nossa de vc ser assim, tão iluminada e escrever coisas tããão lindas que são capazes de transformar lagartas em borboletas e de despertar aquela alegria mais inocente, mais límpida, que estava beeeem lá no fundo do coração e que a gente nem sabia! Nunca pare, please, de ser assim, de pensar e de escrever! Um grande beijo! Smack! :*

Waneska  -  Fortaleza  -  05/01/2005 ~ 16:16
Linda! Amei o texto. E a vida é assim mesmo...pende para os dois lados e por isso vale a pena ser vivida. Beijinhos :)

Joka  -  Recife  -  05/01/2005 ~ 18:09
Um espelho, não?

Alline  -  Floripa  -  06/01/2005 ~ 00:42
Eu não gosto muito de textos longos - nem dos meus -, mas você conseguiu me prender até o final. Que fôlego, hein? Eu só diria: maravilhoso!

Markito  -  Redacao  -  07/01/2005 ~ 01:07
Natylda, So voce mesmo... so vc. Ja te disse por email tudo o que achei mas registro aqui que tenho orgulho de te-la como colunista da minha revista. Um beijo, muito amor e paz!

dayse (mãe Markito)  -  Vitória - ES  -  08/01/2005 ~ 22:56
Muito bom ver a vida sempre pelos dois ângulos que ela tem,pois assim cresce a esperança de que tudo no final dará certo. Parabéns pelo texto. Continue dando boas mensagens da vida, porque sempre alcançará alguém que esteja esperando em algum lugar por ela.

André César  -  Recife  -  09/01/2005 ~ 04:31
Nathy, Primeira vez que leio teu artigo. E bateu pesado! ehehe Muiito bom! beijão

Andréa  -  Rio de Janeiro  -  09/01/2005 ~ 17:32
Moça, você sempre me surpreende com essa sensibilidade. Beijos!

Keke  -  Campina Grande  -  10/01/2005 ~ 20:16
Muito lindo seu texto Naty. Começou muito bem 2005.=)))

Daniela Leal  -  São Paulo  -  11/01/2005 ~ 16:20
Simplesmente perfeito. Obrigada!!!

Clarissa  -  Recife  -  12/01/2005 ~ 02:09
Naty, porque você é tão transparente e sutil ao ponto de me sensibilizar quando o mundo tem sido tão cruel comigo? Quantas expressões lindas e valores especiais. Obrigada por falar com meu coração mais uma vez. Sou fã assumida, viu!? Perfeito 2005 e cheio de momentos grandiosos. =*

Mel  -  20/01/2005 ~ 16:02
Esse txto me fez triste e e depois me fez "resignada" ao que realmente é fato e corajosa para enfrentar o que pode mudar, se depender de mim... Lindo! Vivo! Parabéns a autora.

Andreia  -  Natal - RN  -  20/01/2005 ~ 23:46
Olha, este texto com certeza foi um dos mais belos e inteligentes que li... Perfeito! Um beijo!!!

paulo bal  -  recife  -  24/01/2005 ~ 01:18
Clap clap clap (palmas :D) Adorei o seu texto Nath. Muito bom mesmo. Vamos ver se 2005 pende muito mais pras coisas boas da vida. Beijos

Di  -  Fortaleza  -  30/01/2005 ~ 01:56
O que dizer de todas as palavras muito bem colocadas aí?! Espelho, espelho meu... Um super beijo...

Daniela  -  Natal-rn  -  01/02/2005 ~ 10:53
Explendoroso!!!!

Mariana  -  Vitória da Conquista - Ba  -  20/02/2005 ~ 17:06
Acabei de ter certeza que suas palavras e o silêncio deixaram meu coração tranqüilo. Gostei muito!

Carol  -  29/03/2005 ~ 23:13
Oi Naty! Não vai mais escrever aqui? Tá fazendo falta..bjos

Fernanda Abate  -  São Paulo  -  05/04/2005 ~ 13:27
Naty, Você precisa escrever o novo texto, estou tento um surto, afinal, hoje é 5 de abril são 3 meses. Tô esperando! Beijos.

Fernanda Abate  -  São Paulo  -  13/04/2005 ~ 14:18
Ah Naty, tá demorando muito, porque você está fazendo isso com a gente? Queremos muito o seu texto, você está devendo três, queremos um melhor que o outro, você não pode fazer isso com seu público amigo, por favor! Beijos ansiosos.

Aline  -  21/04/2005 ~ 15:37
Queremos texto,queremos texto...

rubia  -  Recife  -  09/05/2005 ~ 11:58
Buaaaaaaaaaaaaa

cida  -  várzea grande  -  01/05/2006 ~ 15:50
Nataly, Lindo seu texto, mas o que fazer qdo se descobre, depois que já sofreu a metamorfose já não e mais uma largata e nem uma bela borboleta numa manhã de primavera; e que sua estrada já ficou? e que a poeira fez sua pele perder o brilho e depender de oculos para observar o entardecer? e como começar se ainda acha que ainda não achou o que gostaria de ser? Será a crise dos quarenta e será que passa? cida

 
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