Na manhã da última segunda-feira, dia 14, cheguei por volta das 9h30 à sede da Polícia Federal, em São Paulo, para cobrir para a Gazeta Esportiva.Net o depoimento do novo homem-forte do futebol do Corinthians, o iraniano Kia Joorabchian (foto ao lado, cujo crédito é de Fernando Pilatos). Terno de primeira, óculos escuros e semblante fechado, o presidente da Media Sports Investments (MSI), fundo que “comprou” um dos clubes mais populares do Brasil, chegou à PF acompanhado de duas advogadas e teve de pegar fila comum para depor.
Mas quem é, afinal, o agora responsável pelo destino da grande paixão de mais de 24 milhões de torcedores? A bela reportagem de capa da edição de fevereiro de Caros Amigos, entitulada “A escandalosa história do novo Corinthians” e, como diz a revista em editorial, “feita a dezesseis mãos” por Natália Viana, Marina Amaral, João de Barros, Renato Pompeu, Andréa Dip, Thiago Domenici, Marcelo Salles e Cauê Llop, escancara que o pouco que se conhece sobre a trajetória do misterioso milionário que aportou no futebol brasileiro é, no mínimo, preocupante.
O presidente da MSI e, na prática, agora também do Corinthians, é citado em registros públicos na Inglaterra com a bagatela de cinco identidades. Nelas, aparecem uma nacionalidade inglesa e outra canadense, duas idades diferentes, 33 e 34 anos, duas datas de nascimento distintas, 14 e 25 de julho, e, pasmem, três nomes que correspondem à mesma pessoa: Kiavash Joorabchian, Kia Joorabchian e Kia Kiavash. Estranho, para que se diga o mínimo.
Tanto mistério gerou desconfiança das autoridades brasileiras. Nem bem começou a anunciar as primeiras contratações que visam fazer do novo Corinthians um time de “galácticos” – o que, é bom que se diga, até agora ainda não trouxe frutos em campo -, e Kia (ou Kiavash?) já teve de começar a se explicar à Polícia Federal e ao Ministério Público (MP) paulista. À primeira, por exemplo, motivo do depoimento do dia 14, o iraniano com nacionalidades inglesa e canadense teve de falar sobre a situação de seu visto de trabalho no Brasil: o documento, válido por seis meses e que expira em 50 dias, não permite que Kia cometa “atos de gestão empresarial” no país à frente da MSI. “Não há nenhum problema (com o visto). Isso é histeria de alguns jornais que querem aumentar suas vendas”, disparou o senhor Joorabchian aos jornalistas na coletiva pós-depoimento. Nenhum representante da PF confirmou nem desmentiu a versão do iraniano.
Em relação ao MP, o tranco parece maior. O promotor José Reinaldo Guimarães Carneiro, um dos representantes do Gaeco, setor do órgão responsável pelo combate ao crime organizado, não esconde ter claros indícios de que a MSI veio ao Brasil para lavar dinheiro. “Sempre que há grande investimento sem retorno, há lavagem”, disse Carneio à Folha de S. Paulo – jornal que Kia ameaça processar - em 9 de fevereiro. “Todas as pessoas que conversaram com a gente esconderam a identidade dos investidores. É um indício de lavagem”. A desconfiança se dá em relação à origem do dinheiro para a contratação do atacante argentino Carlitos Tevez junto ao Boca Juniors por cerca de R$ 60 milhões, em transação que também passa a preocupar os próprios dirigentes do clube de Buenos Aires.
A extensa reportagem de Caros Amigos, material de dez páginas que merece ser guardado até por provável relevância histórica em um futuro breve, ainda aponta ligações íntimas entre Kia Joorabchian e dois dos mais poderosos milionários do leste europeu: Boris Berezovski, condenado à prisão na Rússia, e Badri Patarkatsisishvili, procurado pela polícia daquele país. A ficha corrida dos “amigos” do novo chefão corintiano é inegavelmente menos misteriosa que a do próprio Kia: ambos são acusados, entre outras coisas, de corrupção em uma série de privatizações ocorridas na antiga União Soviética, sonegação de impostos, roubo de cargas, financiamento a terroristas tchechenos e ao crime organizado e, ufa, até assassinato!
A imensa torcida corintiana, embriagada pela bombástica chegada de um indiscutível craque argentino ao Parque São Jorge – acompanhado por um jogador que também desequilibra, como Carlos Alberto -, precisa se curar rapidamente da ressaca e abrir os olhos. Se os verdadeiros corintianos não lutarem imediatamente, pode ser tarde quando o fizerem. Pois um punhado de títulos paulistas ou brasileiros, se é que esses realmente virão, não compensa arriscar quase 100 anos de história. O Corinthians está sob perigo.