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O bicho empalhado de Lygia Clark

No afã de preservar, o MAC empalhou o bicho

por Fernando Paiva
do Rio de Janeiro
[28/02/2005]

No começo da década de 1960, Lygia Clark revolucionou a arte brasileira e mundial ao criar algumas das primeiras obras que demandam a interação com o público. Ela começou com a série Bichos: esculturas compostas por placas de metais conectadas por dobradiças, o que permitia que o público as manuseasse, mudando a forma das obras.

 

Quase meio século depois, há um bicho exposto no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói. Mas ninguém pode tocá-lo. Uma faixa pintada no chão em volta da obra alerta que o visitante não pode sequer chegar muito perto. No afã de preservar, o museu empalhou o bicho. Ignorou a essência da obra para protegê-la de uma deterioração que lhe é inerente, que estava prevista em sua criação, que faz parte dela própria e está associada à sua característica mais bela e original: a interatividade com o público.

 

É compreensível que um museu preze pela preservação das obras, ainda mais quando se trata de uma das maiores artistas plásticas da história do Brasil, como Lygia Clark. Mas a preservação para a posteridade não precisa ser feita apenas com a obra em si, intacta. Os bichos podem durar anos na imaginação das pessoas por meio de fotos, vídeos, textos e toda sorte de documentação e registro histórico de sua existência. A obra em si, não. Essa foi feita para ser tocada, mexida, desajustada, dobrada, exposta e exposta e exposta e, claro, desgastada. 

 

O bicho em questão faz parte de uma coleção particular, e talvez foi cedido sob a condição de que os visitantes não o tocassem. Se for esse o caso, acho que melhor seria não expor a obra. Ou então esclarecer essa condição para os visitantes. Imagine a confusão na cabeça de um estudante que visita o museu, lê o texto na parede sobre os bichos de Lygia Clark e sua característica de interatividade com o público e se vê impedido de mexer na escultura.

 

O mais engraçado é que o MAC parece ter um complexo de culpa em relação a isso. Para compensar seu lado de mãe superprotetora com as obras, o museu oferece uma série de jogos e brincadeiras inspiradas nas exposições para o público interagir e satisfazer seu desejo contido pelas faixas pintadas no chão. A iniciativa é saudável. Mas mantenho minha posição: obra interativa é obra interativa, seja da Lygia Clark ou de um estudante recém-formado na EBA-UFRJ. Soltem os bichos!



thania werneck  -  brasília  -  03/05/2006 ~ 13:04
é... como artista plastica, também me senti frustrada por nao poder tocar os bichos e alguns outros trabalhos de lygia... seria uma boa, sugerir uma réplica manuseável!! é impossivel nao poder tocar algo que é feito para tocar... confesso que me senti como uma criança que espera anciosamente o bolo de chocolate esfriar, olhando da berada da mesa! mas, contudo, nesse caso as réplicas de tamanhos reduzidos poderiam suprir as necessiadades táteis e contribuir ainda mais para o valor dos bichos!!!

MIchele  -  São Paulo  -  21/11/2006 ~ 11:12
Aconteceu há pouco tempo uma exposição aqui na Pinacoteca do Estado da Lygia Clark e havia réplicas de suas obras para manuseio. Foi muito bom ter contato de verdade com a obra da artista. è totalmente diferente de apenas olhá-la. É até engraçado porque a própria Lygia diz em um texto de Flávio Aquino de 1967 "A louca arte de nossos jovens Artistas" (67)Org. Peccinini: "uma vez completado o ato da criação artística, o resultado para mim é indiferente. Detesto rever o que faço. Minha casa não é decorada com minhas obras" Me interessa a última frase, com o risco de estar tirando-a de um contexto e inserindo em outro, mas, não é o que pode parecer aquele bicho ali "decorando", em potência para a manipulação, o contato?

 
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