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O bicho empalhado de Lygia Clark
No afã de preservar, o MAC empalhou o bicho por Fernando Paiva
No começo da década de 1960, Lygia Clark revolucionou a arte brasileira e mundial ao criar algumas das primeiras obras que demandam a interação com o público. Ela começou com a série Bichos: esculturas compostas por placas de metais conectadas por dobradiças, o que permitia que o público as manuseasse, mudando a forma das obras. Quase meio século depois, há um bicho exposto no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói. Mas ninguém pode tocá-lo. Uma faixa pintada no chão em volta da obra alerta que o visitante não pode sequer chegar muito perto. No afã de preservar, o museu empalhou o bicho. Ignorou a essência da obra para protegê-la de uma deterioração que lhe é inerente, que estava prevista em sua criação, que faz parte dela própria e está associada à sua característica mais bela e original: a interatividade com o público. É compreensível que um museu preze pela preservação das obras, ainda mais quando se trata de uma das maiores artistas plásticas da história do Brasil, como Lygia Clark. Mas a preservação para a posteridade não precisa ser feita apenas com a obra em si, intacta. Os bichos podem durar anos na imaginação das pessoas por meio de fotos, vídeos, textos e toda sorte de documentação e registro histórico de sua existência. A obra em si, não. Essa foi feita para ser tocada, mexida, desajustada, dobrada, exposta e exposta e exposta e, claro, desgastada. O bicho em questão faz parte de uma coleção particular, e talvez foi cedido sob a condição de que os visitantes não o tocassem. Se for esse o caso, acho que melhor seria não expor a obra. Ou então esclarecer essa condição para os visitantes. Imagine a confusão na cabeça de um estudante que visita o museu, lê o texto na parede sobre os bichos de Lygia Clark e sua característica de interatividade com o público e se vê impedido de mexer na escultura. O mais engraçado é que o MAC parece ter um complexo de culpa em relação a isso. Para compensar seu lado de mãe superprotetora com as obras, o museu oferece uma série de jogos e brincadeiras inspiradas nas exposições para o público interagir e satisfazer seu desejo contido pelas faixas pintadas no chão. A iniciativa é saudável. Mas mantenho minha posição: obra interativa é obra interativa, seja da Lygia Clark ou de um estudante recém-formado na EBA-UFRJ. Soltem os bichos!
thania werneck - brasília - 03/05/2006 ~ 13:04
MIchele - São Paulo - 21/11/2006 ~ 11:12
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