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Quanto mais velho, melhor
Quatro autores e uma estréia literária madura por Tiago Zanoli
Se o tempo impõe limites ao corpo, o medo de envelhecer pode estar associado à idéia de finitude, de morte. Mas envelhecer é também sinônimo de amadurecimento, experiência e conhecimento. Há séculos, os sábios são representados como homens mais velhos. Honoré de Balzac e Jean Paul Sartre, em suas respectivas obras A mulher de trinta anos e A idade da razão, refletem sobre a maturidade e exaltam-na como etapa essencial da vida. A exemplo do “nunca é tarde para começar”, muitos escritores iniciaram carreira literária por volta dos 40 anos e o début tardio permitiu-lhes criar obras inaugurais maduras, que surpreenderam leitores e críticos. É o caso de Lya Luft, que não pensava em ser escritora. Começou traduzindo autores consagrados e publicando poemas em pequenas editoras. Apenas em 1980 iniciou carreira literária, com seu primeiro romance As parceiras, que se destacou por abordar temas considerados tabus e por seu estilo e domínio sobre a construção narrativa. “As críticas foram tão favoráveis que me espantei. Então me dei conta de que havia nascido para fazer isso”, disse a autora. Considerada intérprete mais sutil do universo feminino e dos mitos da sexualidade, da repressão familiar e dos temores infantis, Lya fala de amor, ternura, prazer, desejo e perda. Também aborda o drama existencial e seus mistérios, tenta desvendar o enigma do tempo, que a uns enriquece e a outros enlouquece, em busca de sentido e valores para a vida. Indicada por Drummond, Adélia publicou seu primeiro livro: a coletânea de poemas Bagagem (1976). O sucesso colocou-a entre grandes nomes da literatura brasileira. Escritora madura, conciliou a vida de esposa e mãe com uma carreira literária de muita exigência e entrega. Revalorizou, assim, a mulher como ser pensante e maternal. A religião e a figura feminina são presença constante em seus textos, que descrevem o cotidiano, a vida no interior, o erotismo, o amor a Deus e à religião e incorporam uma linguagem coloquial. Sua obra “também tem pai e mãe, mas sobretudo tem o marido, a casa, seu corpo e sua relação mística e erótica com sua comunidade”, disse Affonso Romano de Sant’anna. Em resenha para o Jornal da Tarde, José Nêumanne explicou que “o cristianismo em Adélia não é um experimento metafísico, mas uma vivência cotidiana, doméstica”. Sua fé manifesta-se também na cama, encontra força vital no sexo: “Essa (con)fusão entre gozo carnal e êxtase espiritual se faz presente no livro da estreante”. Sucesso de crítica e público, lançou mais de 20 livros, muitos traduzidos para outras línguas. Em 2003, recebeu o Prêmio Luís de Camões – o mais importante em língua portuguesa. O júri foi unânime, destacando o experimentalismo, a oralidade como recurso de linguagem e o olhar cinematográfico do autor. Além de sua preocupação com a questão social, as tensões e os conflitos urbanos e a atualidade dos temas. Sua obra é intertextual: as citações e referências em seus livros, refletem sobre a própria escrita e dialoga com outros autores, numa narrativa densa e irônica, que beira o grotesco. Para a jornalista Cláudia Nina, a “capacidade de enredar história e reflexão sem perder o controle do texto” consagra o estilo próprio de Rubem. Estreou como escritor depois dos 40 anos, com A estranha xícara (1968). Nas palavras do autor, o livro “reúne crônicas e estórias curtas que versam sobre os equívocos do mundo, os ridículos humanos, os desencontros e perplexidades de nosso contraditório tempo”. Os textos haviam sido publicados em diversos jornais e revistas do país, entre 1959 e 1964. Segundo a crítica literária Maria Elisa Guimarães, o início tardio talvez se explique pela busca da perfeição verbal que sempre atormentou o escritor, como ele confessou: “Jamais um dia passou sem eu sofrer. Trabalhava as palavras feito um escultor mexendo o barro, com aptidão e grande amor, mas também com sofrimento. Até hoje, juntar palavras raramente me dá consolação e paz. Quase sempre é medo o que sinto ao me locomover no espaço das palavras”. Para os críticos, Haroldo apresenta uma obra versátil: romances, crônicas, contos, novelas, literatura infanto-juvenil e até um dicionário de futebol. Outra característica marcante são os vários personagens que transitam na divisa entre ficção e realidade, quando inventa a história e as pessoas de sua terra natal. Falecido em julho do ano passado, o autor nunca foi popular, embora tenha sido inúmeras vezes premiado, elogiado pela crítica e publicado em outros países. “As experiências com a linguagem e os limites entre os gêneros literários podem ter dificultado o acesso dos leitores à sua obra. Talvez, com a morte, ele afinal alcance um pouco do reconhecimento sem pausa que a vida lhe negou”, concluiu Maria Elisa.
Meg Guimaraes - Rio de Janeiro - 09/03/2005 ~ 04:43
Magaly C. de Magalhães - Rio de Janeiro - 11/03/2005 ~ 23:46
Stella Cavalcanti - Rio de Janeiro - 12/03/2005 ~ 19:22
Milton Ribeiro - Porto Alegre - 12/03/2005 ~ 21:21
Teruska - Belo Horizonte - 13/03/2005 ~ 08:07
Meg - Rio de Janeiro - 30/03/2005 ~ 22:30
Odair Salazar - Rosário/Argentina - 20/09/2008 ~ 01:11
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