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Quanto mais velho, melhor

Quatro autores e uma estréia literária madura

por Tiago Zanoli
[08/03/2005]

Se o tempo impõe limites ao corpo, o medo de envelhecer pode estar associado à idéia de finitude, de morte. Mas envelhecer é também sinônimo de amadurecimento, experiência e conhecimento. Há séculos, os sábios são representados como homens mais velhos. Honoré de Balzac e Jean Paul Sartre, em suas respectivas obras A mulher de trinta anos e A idade da razão, refletem sobre a maturidade e exaltam-na como etapa essencial da vida.

A exemplo do “nunca é tarde para começar”, muitos escritores iniciaram carreira literária por volta dos 40 anos e o début tardio permitiu-lhes criar obras inaugurais maduras, que surpreenderam leitores e críticos.

É o caso de Lya Luft, que não pensava em ser escritora. Começou traduzindo autores consagrados e publicando poemas em pequenas editoras. Apenas em 1980 iniciou carreira literária, com seu primeiro romance As parceiras, que se destacou por abordar temas considerados tabus e por seu estilo e domínio sobre a construção narrativa. “As críticas foram tão favoráveis que me espantei. Então me dei conta de que havia nascido para fazer isso”, disse a autora.

Considerada intérprete mais sutil do universo feminino e dos mitos da sexualidade, da repressão familiar e dos temores infantis, Lya fala de amor, ternura, prazer, desejo e perda. Também aborda o drama existencial e seus mistérios, tenta desvendar o enigma do tempo, que a uns enriquece e a outros enlouquece, em busca de sentido e valores para a vida.

Um fenômeno poético
Adélia Prado estreou como escritora aos 40: casada, mãe de cinco filhos, professora e recém-formada em Filosofia. Em 1973, enviou cartas e originais de seus novos poemas ao poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant’anna. Ele mostrou-os a Carlos Drummond de Andrade, que os considerou “um fenômeno poético”.

Indicada por Drummond, Adélia publicou seu primeiro livro: a coletânea de poemas Bagagem (1976). O sucesso colocou-a entre grandes nomes da literatura brasileira. Escritora madura, conciliou a vida de esposa e mãe com uma carreira literária de muita exigência e entrega. Revalorizou, assim, a mulher como ser pensante e maternal.

A religião e a figura feminina são presença constante em seus textos, que descrevem o cotidiano, a vida no interior, o erotismo, o amor a Deus e à religião e incorporam uma linguagem coloquial. Sua obra “também tem pai e mãe, mas sobretudo tem o marido, a casa, seu corpo e sua relação mística e erótica com sua comunidade”, disse Affonso Romano de Sant’anna.

Em resenha para o Jornal da Tarde, José Nêumanne explicou que “o cristianismo em Adélia não é um experimento metafísico, mas uma vivência cotidiana, doméstica”. Sua fé manifesta-se também na cama, encontra força vital no sexo: “Essa (con)fusão entre gozo carnal e êxtase espiritual se faz presente no livro da estreante”.

Dono do próprio estilo
Bacharel em Direito, Rubem Fonseca não pensava em ser escritor na Escola de Polícia. Foi delegado e depois trabalhou na Light, até dedicar-se inteiramente à literatura. Aos 38 anos, lançou seu primeiro livro, Os prisioneiros (1963). “Já era um escritor pronto, em pleno controle da linguagem e com um estilo próprio diferente do que se praticava no Brasil”, escreveu o jornalista José Onofre.

Sucesso de crítica e público, lançou mais de 20 livros, muitos traduzidos para outras línguas. Em 2003, recebeu o Prêmio Luís de Camões – o mais importante em língua portuguesa. O júri foi unânime, destacando o experimentalismo, a oralidade como recurso de linguagem e o olhar cinematográfico do autor. Além de sua preocupação com a questão social, as tensões e os conflitos urbanos e a atualidade dos temas.

Sua obra é intertextual: as citações e referências em seus livros, refletem sobre a própria escrita e dialoga com outros autores, numa narrativa densa e irônica, que beira o grotesco. Para a jornalista Cláudia Nina, a “capacidade de enredar história e reflexão sem perder o controle do texto” consagra o estilo próprio de Rubem.

Haroldo Maranhão
A infância incomum formou a base literária do escritor Haroldo Maranhão. Ele cresceu praticamente isolado na sede da extinta Folha do Norte, fundada por seu avô, o jornalista Paulo Maranhão. Em conseqüência das críticas de Paulo ao então governador do Pará, a família sofreu perseguição política e mudou-se para a sede do jornal. Lá, Haroldo teve como cenário de suas brincadeiras a biblioteca, as oficinas e a redação.

Estreou como escritor depois dos 40 anos, com A estranha xícara (1968). Nas palavras do autor, o livro “reúne crônicas e estórias curtas que versam sobre os equívocos do mundo, os ridículos humanos, os desencontros e perplexidades de nosso contraditório tempo”. Os textos haviam sido publicados em diversos jornais e revistas do país, entre 1959 e 1964.

Segundo a crítica literária Maria Elisa Guimarães, o início tardio talvez se explique pela busca da perfeição verbal que sempre atormentou o escritor, como ele confessou: “Jamais um dia passou sem eu sofrer. Trabalhava as palavras feito um escultor mexendo o barro, com aptidão e grande amor, mas também com sofrimento. Até hoje, juntar palavras raramente me dá consolação e paz. Quase sempre é medo o que sinto ao me locomover no espaço das palavras”.

Para os críticos, Haroldo apresenta uma obra versátil: romances, crônicas, contos, novelas, literatura infanto-juvenil e até um dicionário de futebol. Outra característica marcante são os vários personagens que transitam na divisa entre ficção e realidade, quando inventa a história e as pessoas de sua terra natal.

Falecido em julho do ano passado, o autor nunca foi popular, embora tenha sido inúmeras vezes premiado, elogiado pela crítica e publicado em outros países. “As experiências com a linguagem e os limites entre os gêneros literários podem ter dificultado o acesso dos leitores à sua obra. Talvez, com a morte, ele afinal alcance um pouco do reconhecimento sem pausa que a vida lhe negou”, concluiu Maria Elisa.



Meg Guimaraes  -  Rio de Janeiro  -  09/03/2005 ~ 04:43
Olá a todos:-) Não sei o que mais elogiar: se a criatividade da ídéia, se o resultado que - embora se atenha aos limites do espaço, revelou-se bastante rico em informação, e sempre tangendo os pontos básicos de cada um dos autores focalizados... ou se todas as coisas;-) Espero que os demais leitores gostem tanto quanto eu gostei. Parabéns à Paradoxo. Parabéns, Zan Meg

Magaly C. de Magalhães  -  Rio de Janeiro  -  11/03/2005 ~ 23:46
Uma grata surpresa o artigo de Tiago Zanoli. Com particular tino e poder de observação, o articulista expõe as características marcantes de cada um dos autores apontados, oferecendo os elementos necessários a um posicionamento consciente por parte do leitor. Idéia extremamente criativa e, ao mesmo tempo, promissora , pois pode vir a estimular o surgimento de novos valores capazes de "inaugurar obras maduras" que venham a enriquecer nosso patrimônio literário. Aplausos para a Revista Paradoxo e para o autor do artigo.

Stella Cavalcanti  -  Rio de Janeiro  -  12/03/2005 ~ 19:22
É interessante observar que os quatro nomes citados são tão díspares. Sim, excelentes autores, com o sutil domínio da palavra, mas cada qual com seu estilo. Não é apenas o tempo de vida que os traz a este artigo, e sim a qualidade de seu trabalho e o prazer que nós teremos ao descobrir seus universos. Parabéns.

Milton Ribeiro  -  Porto Alegre  -  12/03/2005 ~ 21:21
Este é um tema muito bom. Há autores que, por iniciarem "tarde", não mostram em suas obras seus talvez penosos anos de formação. Isto pode ser bom, pois, quando se apresentam aos leitores, já vêm prontos, maduros. Como seria a poesia da Adélia jovem, por exemplo? Não se sabe, talvez melhor não saber. O senso crítico dos autores também costuma ficar mais apurado com o tempo. Afinal nem todo mundo nasce pronto, a única exceção que encontro é na música: Johannes Brahms. Sabiam de Cortázar iniciou aos 37 e Saramago depois dos 40? Pois é.

Teruska  -  Belo Horizonte  -  13/03/2005 ~ 08:07
Excelente iniciativa. Quanto ao artigo,na minha tosca opinião,o melhor é sempre mais velho. Há jovens escritores tão bons que sempre penso que são bons apesar da idade. Os mais velhos quando escritores, são necessariamente muito bons! Parabéns a quem faz um trabalho tão primoroso como o Paradoxo.

Meg  -  Rio de Janeiro  -  30/03/2005 ~ 22:30
Telinha, eu penso que a qualidade e a particularidade de cada um dos 4 escritores é ponto pacífico. E é o ponto de partida já defindido, para o trabalho do Tiago, cujo título não deixa dúvidas. Vejo esse tema como um dos muitos ricos e oportunos. No Brasil, se por um lado diz-se que nao se lê, parece que todo mundo escreve;-)) e mais interesante: todo mundo quer publicar, aos 5 aos 6, aos 10, aos 17 não importa...o importante é publicar. Chego a pensar que existem mais escritores que leitores;-) O Milton levanta temas ótimos, interessantes, que são convergentes em relação aos da Teruska. Embora eu queira lembrar aqui de Raymond Radiguet, escritor francês que aos 20 anos, escreveu seguramente uma obra-prima: "Le Diable au Corps ", que todo mundo se não leu, viu o filme e o Baile do Conde Orgel. Nasceu em 1920. Morreu em 1923. Um gênio de 23 anos. Por isso, Milton, o tema é rico e não é reducionista. beijos, queridos Zan, parabéns, mais uma vez.

Odair Salazar  -  Rosário/Argentina  -  20/09/2008 ~ 01:11
Rubem Fonseca é sem dúvida o grande nome do romance negro na América Latina hoje. Os temas abordados em seus contos são atuais e polêmicos: ponográficos ou eróticos? justificados ou injustificados os fatos ocorridos? personagens psicopatas ou homens que praticam crimes para sobreviver? Eis a questão!!!!

 
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