Ao abrir um livro, prestamos atenção nas ações dos personagens, em sua psiqué, no desenrolar da história, mas dificilmente nos importamos com o local onde se desenvolve o enredo.
Por isso, poucas pessoas sabem, ou prestam a atenção, que o Rio de Janeiro, por exemplo, foi cenário de muitas obras de grandes escritores como Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, entre outros.
Lendo uma obra destes autores, percorremos as ruas do Rio de Janeiro em diversas épocas e diferentes visões. Assim, podemos passear pelo Rio de Janeiro sem mesmo levantar do sofá. Pensando nisso, resolvemos fazer uma série de reportagens na qual mostraremos a Cidade Maravilhosa dentro da obra de alguns escritores. Comecemos, então, com Clarice Lispector.
As mulheres de Lispector
A obra de Clarice Lispector é centrada num mundo subjetivo de sensações e emoções – ela concebe sua obra de dentro para fora, ou seja, a partir do personagem, na qual a ação interna forma a nuclearidade de seus contos e romances.
Quando lê-se um de seus livros, já envereda-se por esse lado e se esquece por completo o seu pano de fundo. As personagens Lispectorianas são, em sua maioria, mulheres de classe média que vivem na cidade do Rio de Janeiro. O leitor fica tão compenetrados nas ações das protagonistas que mal percebe os lugares por onde passam.
O choque com o externo muda o interno
Em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, Lispector nos leva a uma viagem por vários pontos turísticos cariocas: o bairro de Ipanema, a praia, a Floresta da Tijuca. Do seu apartamento Lori consegue ver a praia. A descrição brilhante feita por Clarice faz com que sintamos até o cheiro do mar: “Ouvia o barulho das ondas do mar de Ipanema quebrando na praia. (...) Foi à janela, olhou a rua com seus raros postes de iluminação e o cheiro mais forte do mar.”
Com raras exceções, o clímax dos livros acontece quando a personagem está fora de casa. Apesar da mudança começar dentro da protagonista, a cena de fundo é a cidade. Ela precisa ver algo na rua para que sua mudança comece a acontecer. É o caso do conto Amor, do livro Laços de Família, quando Ana pega o bonde em direção ao bairro do Humaitá e, durante uma parada, vê um cego mascando chiclete. Esta cena lhe traz uma sensação de náusea à boca quando atravessa o Jardim Botânico – que é um dos locais mais visitados por turistas na cidade. Outras obras de Lispector também nos levam à zona sul carioca, como os contos do livro Felicidade clandestina.
Contudo, uma personagem em particular não participa desse mundo da classe média, pelo contrário, é pobre, mais do que isso, paupérrima. Macabéa, a nordestina de A hora da estrela, ao contrário das demais personagens, é feia, sem graça, vive numa zona decadente do Rio de Janeiro – a rua do Acre, reduto de prostitutas –, trabalha num subemprego, ganha um subsalário, tem um pseudo-namorado; ela é toda errada. Passeando com Macabéa pelo Rio de Janeiro, percorremos a rua do Acre, a rua do Lavradio, o cais do Porto, ou seja, lugares sem nenhum atrativo, assim como a própria personagem.
Clarice consegue fazer com que a Cidade contribua com o íntimo da personagem principal. Macabéa, por exemplo, só aparece em lugares feios e sujos como ela. Lóri, por sua vez, anda pelos pontos mais atrativos do Rio de Janeiro, enquanto que Ana tem um momento conflitivo e profundo travado com o cego, que é o mediador de uma incompatibilidade com o íntimo de Ana; da mesma forma, essa função mediadora não difere das árvores do Jardim Botânico, que também exteriorizam o perigo de viver.
Percebendo isso, a importância da cidade e seus cenários para o desenrolar das histórias, fica o alerta: em um livro, não basta acompanhar o enredo. É preciso ir adiante. Além de entender o mundo interior de cada personagem, uma olhadinha no mundo exterior também é essencial.