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Fica, Leão
É o apelo da torcida campeã paulista por Fábio Matos
Encontrei um Emerson Leão sorridente e descontraído quando estive no Centro de Treinamentos do São Paulo, na manhã do último dia 7, pela Gazeta Esportiva.Net. Verdade que não é das tarefas mais difíceis não se animar após a conquista do quinto título paulista (primeiro como treinador), mas não há como não perceber a mudança no comportamento do comandante tricolor em relação àquela figura carrancuda, intragável, muitas vezes até arrogante de outros tempos. Leão (foto ao lado, cujo crédito é do Gazeta Press) mudou, para melhor, e não é de hoje. O trabalho que levou o São Paulo ao 21º título estadual não começou na pífia pré-temporada de janeiro - pífia por culpa da incompetência dos cartolas da Federação Paulista de Futebol, que assassinaram o período mínimo de preparação dos clubes e deram menos de uma semana para os jogadores treinarem. A conquista do time do Morumbi teve início numa fria noite de quarta-feira no estádio Pinheirão, em Curitiba: era dia 8 de setembro de 2004, este colunista nem estava no país (acompanhava o noticiário sobre o futebol brasileiro pela internet, em meio a um intercâmbio cultural no Canadá), e Leão estreava como técnico do Tricolor na vitória por 2 a 0 sobre o Paraná Clube. De lá para cá, foram exatos sete meses, uma vaga na Copa Libertadores - garantida com a terceira colocação no Brasileirão -, mais de 59% de aproveitamento dos pontos disputados, a retomada da autoestima são-paulina perdida nos últimos anos, um título paulista e, sobretudo, a recuperação absoluta de vários jogadores até então considerados "unanimidades negativas". Tudo isso, é bom dizer, sem a colaboração de uma diretoria lenta na contratação de reforços de ponta e sempre disposta a negociar os poucos atletas indispensáveis do elenco (Leão e o torcedor do São Paulo não se esquecem da transferência do zagueiro Rodrigo, o melhor defensor do time em 2004, para o futebol do exterior em plena disputa do Paulistão). Para ficarmos em exemplos simbólicos, citemos três peças fundamentais à campanha vitoriosa do Tricolor: o lateral Júnior e os atacantes Diego Tardelli e Grafite. Enquanto o primeiro fechou a temporada de 2004 trocando farpas públicas com o próprio Leão, o treinador preferiu agir como adulto. Cobrou o atleta, funcionário do clube, exigindo que o pentacampeão mundial de 2002 recuperasse a forma física e apresentasse o futebol de qualidade técnica indiscutível que parecia adormecido. Depois do recesso de fim de ano, o que se viu foi um Júnior vibrante, aguerrido, decisivo com gols e cruzamentos milimétricos, que, se não era o mesmo dos tempos de Palmeiras e seleção brasileira, já mostrava bola suficiente para se firmar como titular absoluto do São Paulo. Com a dupla de ataque, histórias semelhantes. O garoto Tardelli - garoto mesmo, só 19 anos, dois a menos que este que vos escreve - era sinônimo de desleixo, indisciplina, antiprofissionalismo e baladas fora de hora. Até que surgiu um Leão em sua vida, como um autêntico "turning point" para fazer decolar a promissora carreira do avante. Resultado: após algumas dores de cabeça, bons puxões de orelhas e 17 rodadas do Paulistão, Tardelli não dá brechas ao consagrado Luizão no ataque tricolor, do qual é artilheiro absoluto, com 12 gols, só três a menos que o goleador máximo da competição. Parece pouco, mas não é. Grafite, então, deve tudo a Emerson Leão. A limitação técnica estampada em cada lance mais desengonçado, aliada à indignação da torcida pela venda de Luís Fabiano e aos dois gols marcados na vitória por 2 a 1 sobre o Juventus, pelo estadual de 2004 (que acabaram "salvando" o rival Corinthians do rebaixamento à Segunda Divisão), foram suficientes para transformar o boa gente Grafa em figurinha carimbada nos cantos ofensivos dos torcedores. De vilão, o atacante passou a herói: foi "bancado" por Leão como titular insubstituível, qualificado pelo próprio técnico como "jogador cascudo" e manteve uma impressionante regularidade ao longo da competição deste ano. Pasmem, Leão fez de Grafite nome a ser cogitado até para convocação de seleção brasileira. Claro que a conquista do Paulistão passa também pelo bom campeonato do ala Cicinho, pela segurança transmitida pelo uruguaio Diego Lugano na zaga e, principalmente, pelo alto nível da dupla de volantes Mineiro e Josué. Mas não há como negar, e o elenco do São Paulo admitiu isso, em coro, após o empate por 0 a 0 com o Santos, que o troféu desta temporada só tem presença garantida na galeria de taças do Morumbi por conta do rugido forte de Leão no banco de reservas do Tricolor. Um futuro de mais glórias passa pela permanência de Emerson Leão no São Paulo. O tão comentado possível retorno para o concorrente direto Santos implicaria no término de qualquer esperança de vôos mais altos ao chamado Time da Fé. Com um elenco bom, mas que tem limitações evidentes, ainda parece ousada demais a crença no título da Libertadores - mesmo que Leão fique. Sem ele, no entanto, o tri da América é missão impossível. E, nesse caso, o Paulistão serviria apenas como consolo para uma temporada que prometia ser vitoriosa.
AC de SP - SP - 09/04/2005 ~ 21:38
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