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Racismo e hipocrisia
Quando o espetáculo e a falsidade se encontram por Fábio Matos
Desde a madrugada do último dia 14 de abril, o Brasil tem um novo inimigo número um: o zagueiro argentino Leandro Desábato (em destaque na foto, sem camisa) é a bola da vez. Com incrível agilidade e rapidez, o delegado Oswaldo Nico Gonçalves usou e abusou de sua autoridade para prender o jogador do Quilmes e deixá-lo duas noites detido, uma delas no 34º Distrito Policial e outra no 13º DP da Casa Verde, por conta de ofensas racistas ao atacante Grafite. Diante de milhões de telespectadores que acompanhavam o jogo entre São Paulo e Quilmes pela maior emissora do país, a polícia paulista seguiu à risca as ordens do delegado Nico e do próprio secretário de Segurança Pública do estado, Saulo de Castro Abreu Filho, e enquadrou Desábato no crime de injúria com agravante em racismo. Após duas noites, idas e vindas em relação ao pagamento da fiança e garantias de que o atleta retornará ao Brasil todas as vezes em que for convocado para as etapas do processo, o espetáculo foi desfeito. Repercussão internacional garantida e lição aprendida, dizem os defensores da atitude policial no caso. Será tão simples assim? É senso comum pregar o fim do racismo e condenar práticas racistas ao redor do mundo. Trata-se de uma terrível mal da humanidade que precisa ser combatido e extirpado rapidamente. Ponto. O que se coloca em discussão no caso Grafite, no entanto, é a hipocrisia nacional e o circo armado que superdimensionaram o episódio. Um neozelandês que desembarcasse no Brasil no dia 13 de abril e porventura tivesse ido ao Morumbi para assistir ao jogo, por exemplo, certamente teria saído do estádio - em meio a todo o burburinho pela prisão de Desábato - com a certeza de que racismo é algo definitivamente não tolerado pela sociedade brasileira e de que nosso país é uma verdadeira democracia racial, terra plural onde todas as diferenças de cor, nacionalidade, classe social, opção sexual ou religião são irrestritamente respeitadas. Falácia pura. Pois, senão, vejamos: - Quantos negros ocupam cargos de chefia nas principais empresas do país? E mais: quantos exercem função de liderança política, por exemplo? - Qual o índice de empregadas domésticas negras suficientemente corajosas a utilizar os chamados "elevadores sociais" nos prédios em que trabalham? E, quando o fazem, como são vistas pelos outros moradores? - Qual o tratamento dado pela polícia paulista, tão eficiente contra o zagueiro Desábato, no dia-a-dia da periferia de São Paulo? Qual o comportamento policial em relação aos negros das favelas? - E a morte do dentista negro Flávio Ferreira Sant'Ana, assassinado por policiais em fevereiro de 2004 ao ser "confundido" com um marginal? - E a chacina em Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense, que vitimou 30 moradores negros no Rio de Janeiro há três semanas? - E os vidros dos carros fechados, por nós, cidadãos "de bem", a cada esquina das grandes metrópoles, quando se aproxima um negro vendendo balas para sobreviver? Por que o pânico? Paranóia ou preconceito? - Por fim: e o apelido "Grafite" dado a Edinaldo Batista Libanio quando começou no mundo da bola? Carinho ou preconceito? Algemar Desábato é dar ao futebol uma importância que não tem, além de misturar alhos com bugalhos para fazer crer que as manifestações nazi-fascistas vindas as arquibancadas européias contra jogadores negros - estas, sim, de caráter fortemente ideológico - têm o mesmo peso da infeliz tentativa do zagueiro de desestabilizar Grafite em campo. É forçar muito a barra. A partir de agora, o que se colhe é um acirramento de uma estúpida rivalidade odiosa entre brasileiros e argentinos - povos de qualidade futebolística e realidade sofrida semelhantes -, que, alimentada por vozes irresponsáveis da imprensa de ambos os lados, pode trazer conseqüências muito piores que meia dúzia de palavras mal trocadas entre dois jogadores em campo. Às autoridades policiais, repito, tão eficientes no espetáculo em rede nacional, cobra-se o mesmo vigor para todos os casos de racismo daqui por diante. Que os delegados e as câmeras de tevê estejam sempre prontos a fiscalizar o que dizem os jogadores, não só os "racistas", mas também os xenófobos, os anti-semitas e os mal educados mesmo. Afinal, "negro de merda" não é a única expressão condenável no meio do futebol: "argentino de merda", "veado de merda" ou "seu salário de merda é igual ao meu cafezinho" também são injúria. Mesmo quando não dão pontos de audiência em horário nobre. E mesmo quando não saem da boca de um argentino.
AC - Sp - 20/04/2005 ~ 12:53
Rafael - Rio de Janeiro - 20/04/2005 ~ 19:17
Rachel - 21/04/2005 ~ 01:16
Amorim - Rio de Janeiro - 21/04/2005 ~ 17:08
Ana Clara - da Redação - 23/04/2005 ~ 15:04
Fábio Matos - São Paulo - 24/04/2005 ~ 18:34
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