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Racismo e hipocrisia

Quando o espetáculo e a falsidade se encontram

por Fábio Matos
de São Paulo
[19/04/2005]

Desde a madrugada do último dia 14 de abril, o Brasil tem um novo inimigo número um: o zagueiro argentino Leandro Desábato (em destaque na foto, sem camisa) é a bola da vez. Com incrível agilidade e rapidez, o delegado Oswaldo Nico Gonçalves usou e abusou de sua autoridade para prender o jogador do Quilmes e deixá-lo duas noites detido, uma delas no 34º Distrito Policial e outra no 13º DP da Casa Verde, por conta de ofensas racistas ao atacante Grafite. 

Diante de milhões de telespectadores que acompanhavam o jogo entre São Paulo e Quilmes pela maior emissora do país, a polícia paulista seguiu à risca as ordens do delegado Nico e do próprio secretário de Segurança Pública do estado, Saulo de Castro Abreu Filho, e enquadrou Desábato no crime de injúria com agravante em racismo. Após duas noites, idas e vindas em relação ao pagamento da fiança e garantias de que o atleta retornará ao Brasil todas as vezes em que for convocado para as etapas do processo, o espetáculo foi desfeito. Repercussão internacional garantida e lição aprendida, dizem os defensores da atitude policial no caso. Será tão simples assim?

É senso comum pregar o fim do racismo e condenar práticas racistas ao redor do mundo. Trata-se de uma terrível mal da humanidade que precisa ser combatido e extirpado rapidamente. Ponto. O que se coloca em discussão no caso Grafite, no entanto, é a hipocrisia nacional e o circo armado que superdimensionaram o episódio. Um neozelandês que desembarcasse no Brasil no dia 13 de abril e porventura tivesse ido ao Morumbi para assistir ao jogo, por exemplo, certamente teria saído do estádio - em meio a todo o burburinho pela prisão de Desábato - com a certeza de que racismo é algo definitivamente não tolerado pela sociedade brasileira e de que nosso país é uma verdadeira democracia racial, terra plural onde todas as diferenças de cor, nacionalidade, classe social, opção sexual ou religião são irrestritamente respeitadas. Falácia pura. Pois, senão, vejamos:

- Quantos negros ocupam cargos de chefia nas principais empresas do país? E mais: quantos exercem função de liderança política, por exemplo?

- Qual o índice de empregadas domésticas negras suficientemente corajosas a utilizar os chamados "elevadores sociais" nos prédios em que trabalham? E, quando o fazem, como são vistas pelos outros moradores?

- Qual o tratamento dado pela polícia paulista, tão eficiente contra o zagueiro Desábato, no dia-a-dia da periferia de São Paulo? Qual o comportamento policial em relação aos negros das favelas?

 - E a morte do dentista negro Flávio Ferreira Sant'Ana, assassinado por policiais em fevereiro de 2004 ao ser "confundido" com um marginal?

- E a chacina em Nova Iguaçu e Queimados, na Baixada Fluminense, que vitimou 30 moradores negros no Rio de Janeiro há três semanas?

- E os vidros dos carros fechados, por nós, cidadãos "de bem", a cada esquina das grandes metrópoles, quando se aproxima um negro vendendo balas para sobreviver? Por que o pânico? Paranóia ou preconceito?

- Por fim: e o apelido "Grafite" dado a Edinaldo Batista Libanio quando começou no mundo da bola? Carinho ou preconceito?

Algemar Desábato é dar ao futebol uma importância que não tem, além de misturar alhos com bugalhos para fazer crer que as manifestações nazi-fascistas vindas as arquibancadas européias contra jogadores negros - estas, sim, de caráter fortemente ideológico - têm o mesmo peso da infeliz tentativa do zagueiro de desestabilizar Grafite em campo. É forçar muito a barra. 

A partir de agora, o que se colhe é um acirramento de uma estúpida rivalidade odiosa entre brasileiros e argentinos - povos de qualidade futebolística e realidade sofrida semelhantes -, que, alimentada por vozes irresponsáveis da imprensa de ambos os lados, pode trazer conseqüências muito piores que meia dúzia de palavras mal trocadas entre dois jogadores em campo.

Às autoridades policiais, repito, tão eficientes no espetáculo em rede nacional, cobra-se o mesmo vigor para todos os casos de racismo daqui por diante. Que os delegados e as câmeras de tevê estejam sempre prontos a fiscalizar o que dizem os jogadores, não só os "racistas", mas também os xenófobos, os anti-semitas e os mal educados mesmo. Afinal, "negro de merda" não é a única expressão condenável no meio do futebol: "argentino de merda", "veado de merda" ou "seu salário de merda é igual ao meu cafezinho" também são injúria. Mesmo quando não dão pontos de audiência em horário nobre. E mesmo quando não saem da boca de um argentino.



AC  -  Sp  -  20/04/2005 ~ 12:53
Boa Fábio! Muito embora este artigo esteja com a "cara" de um outro de pessoa conhecida por suas idéias "pçaarecidas", no caso acho que você está mais do que certo! E o Governo do "popular" LUla?Tá fazendo "o que" para minimizar o racismo ? De todo modo, você tá certo !

Rafael  -  Rio de Janeiro  -  20/04/2005 ~ 19:17
Concordo com vc, mas tb concordo com a prisão do Desábato. Não é porque o preconceito está espalhado por toda a sociedade que não devemos puni-lo em suas formas menores. Tb acho que esta prisão será um caso isolado, mas pelo menos é um caso resolvido, que pode coibir, ainda que minimamente, outras manifestações racistas.

Rachel  -  21/04/2005 ~ 01:16
É isso aí!! Racismo não tá com nada!!Mas acho que não precisava tomar as proporções que ganhou...Queria eu que este delegado fizesse o mesmo pela população carente que vive nas adjacências do estádio, mesmo não ganhando fama, apenas cumprindo o seu dever de delegado...Não condeno a atitude do Grafite, muito pelo contrário, mas acho que tinham outras formas de punição neste caso que seriam muito menos traumatizantes do que esta.

Amorim  -  Rio de Janeiro  -  21/04/2005 ~ 17:08
É EXATAMENTE por causa dessa mentalidade de vocês que as coisas são como são. Por isso quando alguém, em qualquer lugar, onde quer que seja, busca fazer o certo acaba desistindo: há sempre a inteligentsia analisando com superioridade distante a "verdade por trás dos fatos", todo o "subtexto político-filosófico-sociológico" nas entrelinhas, todos os "desdobramentos de ordem prática" que virão. Pelo amor de Deus. Mesmo que exista vaidade envolvida na atitude do delegado, tudo TEM que ser só por vaidade? Foda-se se foi somente por vaidade (e é óbvio que não foi)! Ele fez o que tinha que fazer! Então TODA iniciativa para mudar as coisas ou fazer o certo é hipocrisia? Me perdoem aí mas esse papo de vocês é coisa de gente mimada, pra dizer o mínimo e ser educado. É cinismo demais no ar, "nada presta, que se foda tudo, quero é puxar um beck, tudo é esmola demais e temos mais é que desconfiar mesmo..." O pior de tudo é que vocês são a elite do país: letrados, instruídos, cultos, antenados. Só falta pensar.

Ana Clara  -  da Redação  -  23/04/2005 ~ 15:04
Concordo absolutamente com o Fábio. Não creio que tenha sido por vaidade tudo o que ocorreu, mas levando em consideração que se tratava de um jogo de futebol, ainda mais contra um time argentino, acredito que a situação tenha tomado um rumo bem exagerado. Obviamente a repercussão não teria sido a mesma se fossem dois times nacionais. Não me considero mimada e nem digo foda-se pra tudo, mas estou longe de acreditar no benefício da atitude tomada "contra o racismo" durante o jogo. Achei patético, para falar a verdade. Muita repercussão e pouca serventia.

Fábio Matos  -  São Paulo  -  24/04/2005 ~ 18:34
Caro Amorim, A Paradoxo é um espaço plural e democrático em que todos os pontos de vista são respeitados. Obrigado pelo comentário. Como o próprio texto diz, sou radicalmente contra toda forma de preconceito, seja ela racial, sexual, religiosa ou social. O que não me obriga a compartilhar da espetacularização orquestrada pelas autoridades policiais paulistas em relação ao zagueiro Desábato. Não faço parte da "inteligentsia" citada por você, tampouco compactuo com a teoria do "nada presta" (para usar seu vocabulário). Apenas entendo que o espisódio Grafite-Desábato, a prisão do argentino e toda a humilhação a que o jogador foi submetido não ajudam a resolver o problema do racismo do Brasil e fortalecem a fantasia de que vivemos numa plena democracia racial. Pura falácia. O que me importa são os negros diariamente exterminados pela truculência racista da polícia, as empregadas domésticas discriminadas nos elevadores dos prédios de classe média e a ausência de negros em cargos de chefia nas principais empresas brasileiras. Isso é racismo. Isso deve ser combatido. Transformar o episódio Grafite em questão diplomática ou espetáculo televisivo, com todo o respeito, não é pra mim. Tô fora. Em tempo: não estou sozinho nessa barca. Aliás, muitíssimo bem acompanhado por gente como Juca Kfouri, José Trajano, Soninha, Tostão e Pelé. E todos pensamos, ao contrário do que você disse ao final de seu comentário. O seu "temos mais é que desconfiar mesmo" é o nosso "analisemos sempre criticamente". E não nos deixemos nos levar por engodos. Não se deixe você também, se é que posso sugerir algo. Abraço.

 
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