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Daniel Belleza e os Corações em Fúria

''Infância com as Frenéticas e Secos & Molhados e a adolescência com David Bowie dá nisso''

por Jairo Lavia
[21/06/2005]

Quem assiste à banda paulista Daniel Belleza & Os Corações em Fúria, com todo o seu visual glam, pode não sacar, mas por trás de todo o esplendor glamouroso de seu vocalista, possui um vasto repertório musical de influências nacionais e importadas - de Lula Côrtes e Amelinha a Ramones, T Rex e Kiss. No palco, Daniel comanda a perfomance arrebatadora da banda em shows recheados de artifícios visuais e sexuais. Rangel, o baixista, transborda androginia e, junto com o guitarrista Johnny Monster, faz uso da maquiagem escura e plataformas enquanto o baterista Jeff Molina segura as pontas lá atrás do palco com a sua tradicional camiseta de oncinha.

Daniel é o show man agitador que chacoalha plumas coloridas, abusa na conotação kitsch, rebola e canta com desenvoltura exibindo o seu peito nu. Suas músicas em português – exceção feita a I dont’t care if your hair is red or shaved - falam de amor de uma forma um tanto sádica, como em Do Amor e de Morte. São porradas na cabeça no melhor estilo "ramonico" - 1,2,3,4...- em Babe e I don’t care, e rendem homenagens à banda precursora do glitter brasileiro em Secos & Molhados e da tradição nordestina em Zé Ramalho Song.

É glam punk moderno com guitarras distorcidas e berros estridentes, que nos remete diretamente àqueles tempos transgressores da subcultura do início dos anos 70 com David Bowie, The New York Dolls e o hilário Gary Glitter. “Às vezes punk rock, às vezes pop rock, às vezes folk rock; ou seja, tocamos rock. Mas como tocamos rock no Brasil tocamos música brasileira”, define o vocalista. Nos shows, ele gosta mesmo é de provocar a platéia, usar da ironia para mandar seu recado àqueles que não entendem sua proposta como na letra de A Vaca ­– “Não importa o que você sinta, Eu digo que te amo, Não importa se eu posso, Eu sempre tentarei, E se você gostar de leite, Serei uma vaca pra você...” 

Tudo isso pode demonstrar muito clichê: uma banda de rock com adereços - muitas vezes sem sentindo para alguns nos dias de hoje - afasta os roqueiros mais radicais e tradicionalistas. Mas ele não se importa, pois sabe que a perfomance se desgastará com o tempo e diz ter outras cartas na manga. O que vale é tirar proveito da ótima fase da cena independente paulista e brasileira e continuar “cantando e encantando”, como gosta de frisar nos shows. Para ajudar, a banda criou um jornalzinho bimestral com o objetivo de divulgar não só o seu trabalho, mas também dar uma força aos colegas que, assim como o DB&CF, lutam por espaço no competitivo mundo do rock brazuca.

Quem quiser experimentar o som da banda, o CD está à venda pelo selo Mundo Perfeito, ou pode baixar as músicas no site http://www.acaixa.com.br/. No próximo dia 25 de junho, Daniel Beleza se apresenta no Festival de glam rock Máxxima, em Goiânia, ao lado de Valentina, The Rockefellers e Pétala Mecânica.  

Em entrevista à Paradoxo, Daniel Belleza fala sobre o som da banda, influências e o rock alternativo.  

Revista Paradoxo - Você estudou artes plásticas e foi ilustrador, como surgiu o interesse pela música?
Daniel Belleza - Desde criança adorava música. Era fã de Clara Nunes, Sérgio Reis, Beth Carvalho, Beatles e Daniel Azulay (meu herói, que me influenciou tanto para cair tanto na música como nas artes plásticas). Eu costumava brincar com meus irmãos de imitar as bandas, fazer shows, dublar... Imitávamos as Frenéticas, Secos & Molhados (Risos). Pouco depois disso veio o Kiss e o fantástico mundo do heavy metal, aí já queria ter uma banda de verdade, aprender a tocar instrumentos, cantar, dar aqueles gritos intermináveis, etc. Mas comecei a tocar e compor mesmo depois de me apaixonar por Lou Reed, Iggy Pop , Ramones e  Sex Pistols. Aí a merda já estava feita.

RP - De onde vêm as referências do Daniel Belleza que aparecem nas músicas, fetichismo, performances, vídeos? Como surgiu a idéia de juntar tudo isso?
DB - Isso tudo foi acontecendo naturalmente. Sempre gostei de mega-espetáculos, superproduções, figurinos estranhos, maquiagem, etc.  Passar a infância com as Frenéticas e Secos & Molhados e a adolescência com David Bowie dá nisso.

RP - No disco, há homenagens a Secos & Molhados, o fenômeno brasileiro dos anos 70 que apostou num visual glitter e andrógino, e a Zé Ramalho. Quem são os ídolos do Daniel Beleza aqui e lá fora? No que se inspira para escrever as letras?
DB - Existem muitos artistas, nas mais diferentes áreas, que eu admiro. Poderia fazer uma lista enorme, mas me preocupo muito com o não reconhecimento do trabalho de grandes artistas brasileiros, por isso faço questão de citá-los sempre, como Lula Côrtes, Amelinha, Ave Sangria, o próprio Fagner que fez um trabalho brilhante no início de sua carreira e hoje tem a imagem bastante desgastada, o Made in Brazil. Quanto aos estrangeiros, gosto bastante dos clássicos - Elvis, Beatles, Velvet Underground, Iggy & The Stooges, Sex Pistols, Ramones, Motorhead, Kiss, David Bowie e T-Rex

RP - As grandes gravadoras estão em crise há um bom tempo e os independentes, mesmo com dificuldades para lançar e distribuir os seus álbuns estão cada vez mais fortes e ganhando espaços do mainstream como aconteceu com a Pitty, o Ludov e o Cachorro Grande. A saída do rock e para o mercado fonográfico é mesmo a cena independente?  Como você vê tudo isso?
DB - Acho que isso é bem complicado. Não existe uma fórmula mágica.  A crise na grande indústria de fato existe, mas também não podemos dizer que o sucesso da Pitty, Ludov e Cachorro Grande não se deva em parte a ela, pois por mais que aposte em bandas alternativas, a Deck Disk , por exemplo, tem um esquema milionário, e não pode ser considerada um selo alternativo de forma alguma. Acredito sim que as grandes gravadoras devam buscar fôlego contratando artistas independentes, pois estes estão ganhando cada vez mais espaço e respeito do público, com ou sem o apoio das majors.

RP - É possível hoje executar um trabalho com total liberdade como vem fazendo e se manter longe das “regras” das grandes gravadoras. Quais as dificuldades que a banda mais enfrenta e, ao mesmo tempo, quais os benefícios que isso traz – lançando um álbum independente e tocando no circuito indie?
DB - A liberdade artística completa só é possível com a independência, mas, por outro lado, é muito difícil uma banda conseguir divulgar seu trabalho, fazer shows e ganhar dinheiro sem o apoio de alguma gravadora de médio ou grande porte. A questão é pagar ou não por isso.

RP -  Aliás, como você vê a cena independente hoje em São Paulo e no Brasil?
DB - Fantástica! As coisas estão funcionando como nunca, mas, por incrível que pareça, um dos grandes inimigos da cena independente é o seu público! Os jovens não querem desembolsar R$10,00 pra verem os shows de duas ou três ótimas bandas independentes, mas pagam R$100,00 para o show do White Stripes, por isso o músico independente precisa fazer outra coisa pra sobreviver e está sempre na merda, pagando para tocar. Isso principalmente em São Paulo e nas grandes capitais, onde todo mundo se acha um grande artista ou um grande crítico musical.

RP - A banda lançou um primeiro trabalho, um clipe e está fazendo várias apresentações em festivais importantes. Entre os próximos passos está o de lançar mais clipes e um disco ainda este ano, e duplo. Fale um pouco sobre os objetivos do DBCF e esse disco?
DB - Pois é, pretendemos lançar um disco duplo, pois temos muito material e não queremos ficar engavetando coisas. A nossa idéia é que um dos discos seja bem pesado e cru e o outro mais tranqüilo e elaborado. Temos dois clipes sendo produzidos, devem ficar prontos nos próximos meses, mas a menina dos olhos da banda atualmente é nosso jornalzinho, e ele dá um bocado de trabalho.

RP - Além de tocarem no Daniel Belleza, os integrantes mantêm projetos e/ou trabalhos paralelos? Vocês conseguem viver da música hoje?
DB - Eu faço uns bicos como dj, Jeff trabalha num estúdio, Rangel é dj e promoter de uma noite no Atari Club e o Johnny faz alguma coisa escondido da gente, deve ser algo com jogos ou coisa assim (Risos). Viver de música? Bem que gostaríamos, mas por enquanto está difícil.

RP - O Daniel Belleza gosta de instigar o público, às vezes é irônico e brinca bastante também em cima do palco. Houve alguma situação engraçada ou peculiar que você pudesse destacar em alguma apresentação?
DB - Uma vez fui quebrar uma garrafa de cerveja long neck na cabeça. Bati com bastante força crente que a garrafa ia quebrar, mas ela não quebrou, bateu e voltou, doeu pra caralho e todo mundo começou a rir da minha cara. Foi um momento mágico. 

RP - Você mantém no Orkut a comunidade "Belleza na Cozinha” em que coloca em evidência esse seu lado de gourmet e de criar receitas. Como surgiu essa arte?
DB - Eu passei a infância vendo minha avó cozinhar e acabei pegando gosto pela coisa. Estou preparando um livro de receitas que deve ser lançado no meio do ano que vem.

Fotos: Jerôme Sainte-Rose e Egydio Zuanazzi



silvia  -  Londrina/PR  -  02/08/2007 ~ 16:31
O DBCF tocou em Londrina em numa das edições do DEMOSUL (festival alternavtivo) e, simplesmente, ARRASOU. Foi o melhor show da noite e quiçá o melhor do festival. A cidade está em polvorosa novamente, pois eles estarão domingo no Valentino. Meu ingresso já está garantido.

 
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