Nas últimas duas semanas, dois blogs brasileiros dividiram com a televisão e o rádio a cobertura, em tempo real, do depoimento do deputado Roberto Jefferson na Comissão de ética do Congresso Nacional. Foi a primeira vez que o jornalismo online teve um papel tão importante numa crise política no Brasil.
Criados pelos jornalistas Ricardo Noblat e Jorge Moreno, os blogs foram recheados com, respectivamente, 75 e 13 textos apenas no dia do depoimento do petebista, responsável pelas denúncias de mensalão – entre outras coisas – no atual governo. O frisson em torno do acontecimento foi tal, que o site de Noblat recebeu 72.240 acessos em um único dia – 14, data em que ocorreu o depoimento. Seu primeiro texto foi às 2h16 da madrugada e o último, às 23h40, o que significa uma média de um texto a cada 17 minutos. Já Jorge Moreno foi mais cauteloso, publicando “apenas” 13 textos em um dia.
Além da vitalidade dos dois blogueiros, o que também surpreendeu foi a receptividade dos leitores que, apenas no dia 14, escreveram mais de 2500 comentários. Este fato é inédito não só na reação do público como também na cobertura jornalística de acontecimentos tão importantes e reveladores do cenário político atual.
Com essa projeção repentina dos blogs da imprensa no Brasil, muitos jornalistas aproveitaram a oportunidade para contar aos quatro ventos que também possuem publicações virtuais – já que o termo “diário” tornou-se tão pejorativo no mundo blogueiro ultimamente.
Quando Ele diz sim
Dentro da grande mídia impressa, O Globo destacou-se ao oferecer blogs a todos os seus colunistas. Alguns aceitaram, como foi o caso de Jorge Moreno, Tereza Cruvinel, Helena Chagas e Ilimar Franco. Outros preferiram abrir mão, talvez por medo de perder a liberdade de escrever o que bem quiserem, sem nenhuma preocupação em ferir o posicionamento da empresa.
Nesse caso, o temor ainda não é justificável, pois apesar de hospedar os blogs em seu próprio site, o Globo, por enquanto, não interfere no conteúdo publicado. A única regra para os colunistas é postar, pelo menos, semanalmente. Gravatá, um dos colunistas do caderno de informática de O Globo, utiliza o blog para incrementar a própria coluna, adicionando informações, imagens e links que seriam impraticáveis no meio impresso, além de escrever sobre outros temas.
Mauro Ventura, ex-colunista do Jornal do Brasil, ao mudar-se para O Globo como repórter, viu no blog uma maneira muito útil para manter o contato com os leitores. Assim nasceu o DizVentura. Nele, Mauro conta os bastidores das notícias que publica no diário. "Senti falta daquela interação maior com o leitor que a coluna proporciona. Então, o blog foi uma maneira de elaborar o luto pela perda da coluna e recuperar a proximidade com o público. Também foi uma maneira de poder contar os bastidores das reportagens que, muitas vezes, são mais saborosos que o resultado final. E ainda teve um outro motivo: poder exercitar um texto mais ao estilo da crônica, que está um pouco abandonado na imprensa atual", disse o jornalista.
Sem o DizVentura, o leitor não saberia o “perrengue” enfrentado pelo repórter para entrevistar Chico Buarque no lançamento do filme Benjamin. Quando a matéria está pronta para ser lida, bonitinha no jornal, o leitor mal sonha como foi possível concretizá-la. E é justamente isso que Ventura conta em seu blog. Só para constar, ele teve que se disfarçar de membro da produção do evento para conseguir conversar com o mais querido dos Buarque de Hollanda.
Nelito Fernandes assina outro blog popular entre os jornalistas e leitores em geral, o Eu Hein!. Dono de um humor ácido, o jornalista – que atualmente trabalha na Época - demorou algum tempo para afirmar-se autor do blog. "E se eu zoasse de alguém e depois tivesse que entrevistá-lo?", afirmou Nelito ao Sobresite.
Em países como França, Espanha, Reino Unido esse fenômeno foi completamente absorvido pela imprensa. Os blogs dos colunistas e jornalistas ocupam lugar de destaque em seus respectivos sites, como é o caso do Le Monde, Libération, El País e The Guardian.
Liberdade às avessas
Que os EUA são pioneiros no fenômeno “blog”, já não é novidade. E definitivamente, tanto no jornalismo como em qualquer outro segmento, os blogs são amplamente utilizados. Porém, como tudo nesse país funciona de maneira bizarra, com os blogs não poderia ser diferente. Muitos deles têm como foco principal a política e, visto a opção política da maioria refletida em seu governante, supõe-se que os blogs conservadores não sejam poucos. E são justamente esses blogs os responsáveis por uma onda de pavor no jornalismo americano. Isso ocorre porque os blogueiros conservadores tornaram-se verdadeiros “escudeiros” do governo Bush, e seu trabalho consiste em usar e abusar das ferramentas de busca com o objetivo de encontrar alguma calúnia ou difamação contra o querido presidente em algum veículo americano. Se tal “falha” é detectada, o exército se mobiliza virtualmente pedindo a cabeça do jornalista responsável por tal absurdo, e para não ser abatido, o pobre repórter deve provar por A mais B que suas afirmações são fundamentadas.
Em menos de um ano, blogueiros conservadores foram responsáveis por duas demissões de peso no jornalismo norte-americano. Em setembro de 2004, eles divulgaram falhas numa reportagem de Dan Rather, âncora da CBS Evening News, que, pouco depois, anunciou previamente sua saída do cargo. Em 11 de fevereiro de 2005, Eason Jordan, chefe de Reportagem da CNN, renunciou após quase duas semanas de pressão online.
Jordan, durante painel no Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça) no final de janeiro, teria dito, segundo testemunhas, acreditar que militares americanos no Iraque miraram jornalistas, matando 12 deles. Há dúvidas sobre suas palavras exatas, e a organização do fórum não liberou a fita. Um empresário republicano que compareceu ao evento escreveu um texto divulgando as palavras de Jordan. A publicação espalhou-se como faísca e, em menos de uma semana, o jornalista renunciou ao cargo.
Steve Lovelady, ex-editor do The Wall Street Journal, é um dos mais ferozes críticos do poder crescente dos blogueiros, alguns dos quais definidos como "os débeis mentais salivantes que fazem a multidão de linchadores prevalecer", segundo o New York Times.
E por falar em New York Times, os jornalistas do famoso diário são proibidos de manter blogs relacionados à sua área de atuação. E quaisquer outros blogs, sobre quaisquer outros assuntos, têm que passar pelo crivo da direção.
Diário de bordo
Alguns jornalistas brasileiros residentes no exterior vêem no blog uma maneira de expor seu trabalho em forma de portifólio online, além de divulgar suas matérias e receberem feedback instantâneo dos leitores. É uma nova fórmula para quem quer dar seus primeiros passos como correspondente internacional.
A jornalista Homera Cristalli teve esse insight e, vivendo em Roma na época da morte do papa João Paulo II, criou o blog Direto de Roma, com notícias sobre o cotidiano da cidade em tempos de tanto alvoroço. “O blog Direto de Roma tinha como objetivo ser um diário online escrito por uma profissional. O ponto de vista de uma pessoa que mora na cidade, e não de alguém que está ali exclusivamente para cobrir o evento. Além de ser escrito numa linguagem informal, porém com a "manha" da experiência e da formação jornalística”, avalia Homera.
Foto: Patrícia Cecatti
Blogs:
Ricardo Noblat http://noblat.blig.ig.com.br
Jorge Moreno http://oglobo.globo.com/online/blogs/moreno
DizVentura http://www.dizventura.blogger.com.br
Eu Hein! http://www.euhein.blogspot.com
Gravatá http://oglobo.globo.com/online/blogs/gravata
Direto de Roma http://especialpapa.zip.net