_participe!
 

cinema  |  comportamento  |  geral  |  literatura  | moda  |   música  |  tv viagem  || blog do editor  |  colunas  |  expediente

 
Demissão. Causa: seu blog

Quando a exploração da privacidade alheia por blogs perde os limites

por Marcus Cardoso
Editor-chefe

[24/07/2005]

Os blogs estão mesmo ganhando visibilidade. Em uma primeira versão como um simples espaço na Internet para registros escritos, depois diários adolescentes virtuais e, mais recentemente, adotado por renomados jornalistas como meio de veicular fatos e suas opiniões. Quando se trata de informação, quanto mais, melhor. Mas e quando o assunto é a vida pessoal de quem escreve?

 Nos Estados Unidos, no ano de 2001, o caso de uma blogueira que foi demitida quando seu chefe descobriu seu site e viu que ela falava mal do trabalho se tornou notório exemplo de todos. Heather Armstrong, que tem 30 anos e é dona do blog Dooce, foi mandada embora por escrever sobre a vida pacata de seus colegas de trabalho em seus cubículos, além do monótono dia-a-dia na empresa onde trabalhava, em Los Angeles. Hoje ela transformou-se numa espécie de celebridade on-line. Armstrong afirma que quando isso aconteceu, não fazia idéia de que era tão lida assim. “Eu só percebi quão grande a coisa era quando fui despedida”, disse a blogueira em entrevista à BBC.

Isso tudo aconteceu em 2001, mas o caso repercutiu tanto na mídia americana que o nome do blog de Heather, Dooce, virou verbo. He was dooced!, é uma expressão hoje utilizada pelos americanos para dizer que uma pessoa foi demitida por causa de seu website. A ‘dooced’ da vez foi Teissy, uma nova-iorquina de 26 anos, formada em Literatura e que trabalhava como babá dos filhos de Helaine Olen, jornalista do The New York Times. Olen teve conhecimento do blog quando seus garotos adoeceram e Teissy ao publicar um poema em homenagem à criança, deu o endereço para sua patroa.

Desde então, ler o blog de Teissy virou a obsessão da jornalista. Olen passou a acompanhar todas as aventuras de sua babá pela Internet, o que culminou em uma coluna publicada no NYT. O texto começa assim: “Nossa última babá, uma ex-professora de literatura de 26 anos, com excelentes referências, gosta de tocar seus seios enquanto lê a revista The New Yorker e costuma acordar seus amantes no meio da noite com leves mordidas. Ela toma remédio para dormir, tem fantasias sexuais com Tucker Carlson (um jovem comentarista político da TV americana) e concluiu que já teve mais parceiras que seu próprio namorado”.

Em sua coluna do último dia 17, Olen escreve que tentou lidar com a situação, baseando-se no fato de que ela já foi tão jovem quanto Teissy, já bebeu além da conta, dormiu com vários homens e teve um emprego tedioso, mas confessou sentir-se meio paranóica com toda a situação. “Certa vez quando Teissy me perguntou se poderia trazer seu laptop para o trabalho, para ir adiantando suas inscrições em universidades, enquanto as crianças dormiam, eu disse sim. Mas depois fiquei me perguntando se ela não estaria se divertindo com flertes via e-mail de seus leitores. Afinal, ela havia comentado em seu blog que fazia isso”, escreveu a jornalista.

Em contrapartida, Teissy - que não teve o sobrenome revelado - postou em seu blog uma ácida resposta: “Se você entrou hoje nesse pequeno blog a procura de detalhes promíscuos de uma ‘babá muito louca’ ou um diário detalhando a vida sórdida da família para a qual trabalho, sinto decepcioná-lo. Ao contrário do que diz o artigo publicado no caderno Style do The New York Times, não sou uma alcoólatra que precisa de remédios para dormir enquanto faz sexo de forma promíscua e não se preocupar com as crianças de quem cuido. Se você ler cuidadosamente os arquivos, ao contrário do que foi escrito no jornal você encontrará uma jovem de vinte e poucos anos que decidiu trabalhar por um ano como babá enquanto se prepara para uma nova fase de sua vida: uma carreira acadêmica, doutorando-se em Literatura Inglesa em ênfase nos romances do final do período Vitoriano”, rebate. O que é verdade. Não se sabe, porém, se foi má-fé ou excesso de cuidado o modo com o qual a colunista Helaine Olen pinçou detalhadamente apenas a parte mais comprometedora do blog da babá.

Mobilização virtual
Outro caso envolvendo blogs que esteve na mídia recentemente foi o de Zach, adolescente de 16 anos do Tennessee que mantinha um MySpace onde assumia-se gay publicamente e, por conta disso, foi mandado pelos pais, no mês passado, para um reformatório.

Quem acompanhava seu blog sabia de seus conflitos internos e até mesmo soube detalhadamente da revelação que fez para os pais. “Pouco tempo atrás contei aos meus pais que eu era gay”, escreveu o garoto. Em seguida ele comentou que seus pais não receberam a informação muito bem. “eles me disseram que há algo psicologicamente errado comigo e que ‘me criaram errado’”.

Mas o que chamou a atenção dos amigos de Zach e, mais tarde, de ativistas gays e cristãos fundamentalistas de todo o mundo que leram esse post, feito em 29 de maio, não foi apenas a intimidade da confissão. O que surpreendeu mais foi a seguinte frase: “Hoje minha mãe, meu pai e eu tivemos uma longa ‘conversa’ no meu quarto, na qual eles me informaram que eu devo me inscrever em um programa cristão fundamentalista para gays”, registrou.

Foram poucos os posts de Zach antes de ir para o Refuge, programa cristão reformador num subúrbio de Memphis, em 6 de junho, mas foram suficientes para inspirar debates, reportagens, protestos de rua, e até mesmo investigação do programa pelo departamento de Serviços à Infância do Tennessee. Diversos blogueiros espalhados pelo mundo, militantes da causa gay ou não, se mobilizaram e postaram mensagens de apoio ao adolescente que volta para casa esta semana.

Colaborou: Fernando Oliveira



 
© Copyright Revista Paradoxo 2003~2008. Todos os direitos reservados