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O Amor e o Tempo

''Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: O que uma mulher quer?'' Freud

por Marina W
do Rio de Janeiro
[23/09/2005]

Um dia eu era um bebezinho e estava no colo de uma mulher, numa festinha na minha casa. A cabeça pesa mais do que o corpo foi a frase que eu mais ouvi na minha infância. E a que mais repeti quando fui mãe. Porque pesa mesmo. Pois a mulher conversando e rindo, enquanto eu já estava até a cintura pra fora da varanda. Se não fosse minha mãe, provavelmente histérica, eu nem estaria mais por aqui.

 

Com menos de quatro anos, estava no jardim do sítio onde minha avó paterna morava. Tinha uns cactos, não exatamente cactos, não sei o nome da planta. É larga e se espalha em folhas pontudas e espinhosas. Provavelmente ouviram barulhos de trovão e chovia fino, não lembro. Sei que meu pai saiu correndo de dentro da casa e me agarrou, me puxando dali. Um raio fulminou o canteiro. Foi a história que me contaram a vida inteira. E é muito simbólica pra mim. Meu pai me salvou e, quando você tem quatro anos, é o único homem da tua vida. O principal e o único.

 

Sei aproximadamente minha idade porque quando ele morreu eu tinha apenas cinco e ele trinta e seis. Ninguém deveria morrer tão jovem, principalmente um pai. Mas morreu. E minha mãe, na maior das boas intenções, me disse “Seu pai viajou”. Porque morte não é assunto de criança, na minha família não era.  Quem viaja volta, mas meu pai não voltava nunca. Certas mentiras não deveriam ser contadas.

 

Quando eu me casei era extremamente ciumenta, não pouco, mas muito. E para me livrar disso, fui fazer análise de grupo, o que não adiantou de nada. A pessoa só deixa de ser ciumenta, ou qualquer outra coisa, se quiser. Porque as mudanças só podem ser feitas por nós mesmos. Nem o amor muda quem você ama, coisa que eu achava que sim. Mas o terapeuta disse: é muito óbvio e superficial o que vou falar, você tem medo de ser abandonada, porque acha que foi pelo seu pai e quando a criança é pequena assim, aquele homem não é o marido da sua mãe, nem uma pessoa, é só teu pai. Ele falou mais ou menos assim e acho que ele falou tudo. Mas eu só deixaria de ser ciumenta muitos anos mais tarde, quando decidi.

 

Ferreira Gullar disse, por alto: A vida é uma invenção, você escolhe se quer fazer dela uma coisa alegre ou se prefere que seja uma droga.  Daí não dá pra deixar de emendar com a já mil vezes repetida frase de Cecília Meireles: A vida só é possível se reinventada. Porque não existe a vida, existe o caos, que você monta como achar melhor.

 

Depois viria a morrer dezenas de outras vezes. Muitas mesmo. Morre-se muito durante uma vida. E eu morria todas as vezes que ficava deitada numa cama, meses a fio, sem nenhuma esperança de ficar boa, na doença cíclica que eu tinha e que agora está sob controle. E de amor morri muito. E só se pode ser feliz quando se tem consciência da brevidade da vida. Que a vida começa todos os dias. Essa linha que estou escrevendo agora, já escrevi, você já leu, acabou. Agora já é um novo minuto, um novo segundo, acabou. Aquela briga? Acabou. Aquela risada no bar? Já passou. E o passado só serve para ir modelando o jeito da gente ser, só pra isso.

 

Observa que esse texto está confuso. Eu pensei em falar sobre a morte, depois sem querer falei de amor, depois do tempo. E não sei o que vou escrever na linha seguinte. Voltarei ao meu pai.  Talvez essa história do raio – tão romântica –  tenha me tornado uma pessoa que exige muito de quem me ama.  E como não vou poder concluir esse texto porque simplesmente me perdi nas idéias, me valho de mais uma citação, dessa vez da cineasta Ana Carolina: Obrigada homens da minha vida, por todo amor que puderam me dar, e que eu sempre achei pouco.



paulo  -  Barra Mansa  -  24/09/2005 ~ 09:27
Não achei o seu texto confuso não! Achei ótimo! Têm sentimento! Um abraço.

Elizabeth  -  BH/MG  -  24/09/2005 ~ 11:36
Marina, que lindo! Poético... que coisas belas vc disse sobre sua infância! Agora, me diz uma coisa: tem alguém que sabe absolutamente o que quer da vida? Se souber, me avisa para converar com ela... Um beijo.

Renata  -  Goiânia  -  24/09/2005 ~ 14:17
Ai, Marina, você escreve essas coisas, me faz debulhar em mil lagriminhas e eu fico aqui, querendo erguer um altar em sua homenagem.

BethS  -  Brasilia  -  24/09/2005 ~ 16:39
Ah, eu tambem aprendi a duras penas sobre a brevidade da vida... As vezes penso que fiquei um pouco cínica. Mas talvez tenha apenas me poupado decepções. É isso... Gostei desses seus pensamentos despenteados! E amei a foto. Aliás, você sempre descobre maravilhosas fotos na internet! Beijo querida, fique bem.

leila  -  24/09/2005 ~ 17:40
demais seu texto. meu pai me atropelou quando eu tinha 7 anos. em vez de frear, acelerou. Tem a frase do Leonard Cohen: you call this love, I call it room service. beijo

Helena Costa  -  Rio de Janeiro  -  25/09/2005 ~ 11:14
Lindo, Marina.

Renata  -  Campinas  -  25/09/2005 ~ 18:53
Bonito, muito bonito mesmo.

gabriela  -  Brasilia  -  26/09/2005 ~ 16:42
Lindo o seu texto. Muito lindo!

helena  -  26/09/2005 ~ 18:47
Putaquepariu! Falei baixinho quando terminei de ler - nao era preu dizer, que meu pai achava feio palavrao - e ele nao morreu dentro de mim, como o teu, obvio, como disse o terapeuta. Tb achei pouco o amor que recebi. Seu texto, nao, achei tudo, achei muuuuuito!! Beijos

luciana  -  sao paulo  -  26/09/2005 ~ 21:04
No sexto paragrafo começou a lembrar Lispector...

Matheus  -  27/09/2005 ~ 10:55
Marina, lindo esse texto, sensível, sincero...nunca vou entender o que as mulheres querem, mas que as amo, como as amo ! Beijinhos !

Laura  -  natal  -  27/09/2005 ~ 11:20
Bonito teu texto, forte e simples ao mesmo tempo. Fiquei te conhecendo um pouquinho mais e entendendo melhor. Homens que te salvem de raios vai ser difícil achar, mas talvez apenas te amem. Um bj, laura

Laura  -  Rio de Janeiro  -  28/09/2005 ~ 10:41
Pois é, o caminho entre a certeza e a tomada e decisão pode ser eterno! Um beijo.

Cristina  -  São Paulo  -  29/09/2005 ~ 09:40
Algo semelhante aconteceu qdo eu tinha 4 anos. Caí de uma altura de + ou - 2m e a última imagem que me vem é a de meu pai correndo sem camisa e com uma calça preta (não esqueço) vindo me salvar. Desmaiei nos braços do meu herói. Cinco anos depois ele tb me abandonou, só que por livre e espontânea vontade. Abraços solidários.

Ana Lins  -  Rio de Janeiro  -  30/09/2005 ~ 06:45
amei seu texto. e você fala super bem do amor, da morte, do tempo, do herói - coisas que estão em minha cabeça... 1 abraço

cátia  -  niteroi  -  21/11/2005 ~ 13:24
Marina, Adorei este texto, como todos os outros que já li. Venho sempre ler você por ser, digamos...terapêutico pra mim. Você é ótima! 1 abraço!

Patricia  -  Maringá  -  21/11/2005 ~ 15:07
Marina, você sou eu, Renata, Helena, Elisabeth e todas por aqui!! A diferença é que vc consegue colocar tudo deste jeitinho maravilhoso no papel e na tela do pc... Te desejo doces e memoráveis lembranças, como estas que você me brindou...

susi carvalho  -  teresina  -  11/10/2006 ~ 19:53
meu professor pediu pra eu fazer uma redação sobre brevidade ds vida...fiquei sem ação,sem saber como começar.Andei mexendo na internet,encontrei esse texto maravilhoso,essas palavras distantes e objetivas.Simplismente adorei.desejo-lhe sorte,um grande beijo!

Manoel Jose da Silva  -  Curitiba  -  14/01/2008 ~ 13:00
Isso é viver honestamente! Neste texto não exisste hipocrisia! É a verdade! Eu amo a verdade! Por isso li o seu texto! E gostei!

 
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