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O Amor e o Tempo
''Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: O que uma mulher quer?'' Freud por Marina W
Com menos de quatro anos, estava no jardim do sítio onde minha avó paterna morava. Tinha uns cactos, não exatamente cactos, não sei o nome da planta. É larga e se espalha em folhas pontudas e espinhosas. Provavelmente ouviram barulhos de trovão e chovia fino, não lembro. Sei que meu pai saiu correndo de dentro da casa e me agarrou, me puxando dali. Um raio fulminou o canteiro. Foi a história que me contaram a vida inteira. E é muito simbólica pra mim. Meu pai me salvou e, quando você tem quatro anos, é o único homem da tua vida. O principal e o único. Sei aproximadamente minha idade porque quando ele morreu eu tinha apenas cinco e ele trinta e seis. Ninguém deveria morrer tão jovem, principalmente um pai. Mas morreu. E minha mãe, na maior das boas intenções, me disse “Seu pai viajou”. Porque morte não é assunto de criança, na minha família não era. Quem viaja volta, mas meu pai não voltava nunca. Certas mentiras não deveriam ser contadas. Quando eu me casei era extremamente ciumenta, não pouco, mas muito. E para me livrar disso, fui fazer análise de grupo, o que não adiantou de nada. A pessoa só deixa de ser ciumenta, ou qualquer outra coisa, se quiser. Porque as mudanças só podem ser feitas por nós mesmos. Nem o amor muda quem você ama, coisa que eu achava que sim. Mas o terapeuta disse: é muito óbvio e superficial o que vou falar, você tem medo de ser abandonada, porque acha que foi pelo seu pai e quando a criança é pequena assim, aquele homem não é o marido da sua mãe, nem uma pessoa, é só teu pai. Ele falou mais ou menos assim e acho que ele falou tudo. Mas eu só deixaria de ser ciumenta muitos anos mais tarde, quando decidi. Ferreira Gullar disse, por alto: A vida é uma invenção, você escolhe se quer fazer dela uma coisa alegre ou se prefere que seja uma droga. Daí não dá pra deixar de emendar com a já mil vezes repetida frase de Cecília Meireles: A vida só é possível se reinventada. Porque não existe a vida, existe o caos, que você monta como achar melhor. Depois viria a morrer dezenas de outras vezes. Muitas mesmo. Morre-se muito durante uma vida. E eu morria todas as vezes que ficava deitada numa cama, meses a fio, sem nenhuma esperança de ficar boa, na doença cíclica que eu tinha e que agora está sob controle. E de amor morri muito. E só se pode ser feliz quando se tem consciência da brevidade da vida. Que a vida começa todos os dias. Essa linha que estou escrevendo agora, já escrevi, você já leu, acabou. Agora já é um novo minuto, um novo segundo, acabou. Aquela briga? Acabou. Aquela risada no bar? Já passou. E o passado só serve para ir modelando o jeito da gente ser, só pra isso. Observa que esse texto está confuso. Eu pensei em falar sobre a morte, depois sem querer falei de amor, depois do tempo. E não sei o que vou escrever na linha seguinte. Voltarei ao meu pai. Talvez essa história do raio – tão romântica – tenha me tornado uma pessoa que exige muito de quem me ama. E como não vou poder concluir esse texto porque simplesmente me perdi nas idéias, me valho de mais uma citação, dessa vez da cineasta Ana Carolina: Obrigada homens da minha vida, por todo amor que puderam me dar, e que eu sempre achei pouco.
paulo - Barra Mansa - 24/09/2005 ~ 09:27
Elizabeth - BH/MG - 24/09/2005 ~ 11:36
Renata - Goiânia - 24/09/2005 ~ 14:17
BethS - Brasilia - 24/09/2005 ~ 16:39
leila - 24/09/2005 ~ 17:40
Helena Costa - Rio de Janeiro - 25/09/2005 ~ 11:14
Renata - Campinas - 25/09/2005 ~ 18:53
gabriela - Brasilia - 26/09/2005 ~ 16:42
helena - 26/09/2005 ~ 18:47
luciana - sao paulo - 26/09/2005 ~ 21:04
Matheus - 27/09/2005 ~ 10:55
Laura - natal - 27/09/2005 ~ 11:20
Laura - Rio de Janeiro - 28/09/2005 ~ 10:41
Cristina - São Paulo - 29/09/2005 ~ 09:40
Ana Lins - Rio de Janeiro - 30/09/2005 ~ 06:45
cátia - niteroi - 21/11/2005 ~ 13:24
Patricia - Maringá - 21/11/2005 ~ 15:07
susi carvalho - teresina - 11/10/2006 ~ 19:53
Manoel Jose da Silva - Curitiba - 14/01/2008 ~ 13:00
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