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Um labirinto a Borges
Resquícios de uma vida pós-morte por Fernando Mascarello
Lembrei-me de uma das vezes que estive jogando xadrez com Jorge Luis Borges. O tabuleiro, os reis, os bispos e demais peças eram convenientemente invisíveis. A mesa onde apoiávamos o tabuleiro e as xícaras de chá também. As paredes e poltronas existiam, apenas em nossas mentes. A biblioteca em que estávamos, os livros nela contidos e a casa que a continha, eram ilusórios. Já havíamos desconstruido o Universo e sequer lhe tinha tolhido uma das torres. Prosseguíamos em uma partida imaginária de xadrez no vazio, no nada. Ele, cego, mesmo sendo mais baixo, levava grande vantagem sobre eu, que estava mais interessado no chá que no jogo ou em suas palavras. Recordo que o aroma do chá de üytrez era tão hipnotizador quanto o som que saía do gramofone desligado. Então passamos a reconstruir o Cosmo. Com a pressa que lhe convinha, já que tínhamos que primordialmente recriar o tempo, fracioná-lo e, dentro destas frações, estabelecer quais caberiam à eternidade. Mesmo tendo a eternidade ao nosso dispor, não abrimos mão da brevidade e do curdo – a única língua julgamos inútil dissolver. Algumas grandes obras ponderamos que também fossem melhor preservá-las. Mas, poupar-lhes-ei da inutilidade de cita-las, já que são obras secretas, reservadas, quais a humanidade – mesmo sendo constituída por elas - não desconfia da existência. Umas cinco ou seis divindades, Borges preferiu manter. Não me opus, pois quatro delas eram forças naturais do Sul. Ponto que escolhemos de epicentro deste novo Universo que teria o umbigo exatamente entre os nossos, ali mesmo, naquele tabuleiro xadrez, que não existia. Mas isso tudo foi antes de desistirmos da reconstrução do mundo como era conhecido. Premiando a sátira e o infinito, desfizemos os planos e abolimos o uso da rainha em L. Depois, por falta de afazer menos degradante, nos dedicamos a fazer um Universo paliativo, que nos permitisse ao menos a locomoção e o passatempo. Criamos então um emaranhado de paredes invisíveis e, com elas, montamos um labirinto, que aos olhos comuns – não era o nosso caso – seria infinito. Quebramos este labirinto em outros menores, de diversos tamanhos e formas. Então os salpicamos pelo Cosmo que recém saíra do fogo. Permitimos que a vida fosse criada e que nos trouxessem os remédios para controlar a pressão, a ansiedade e a megalomania. Porém trouxeram também calmantes, nos colocando para dormir antes da hora. Acordei séculos mais tarde, lembrando de tudo isso. Me guardei o privilégio da dúvida de que isso tudo fosse apenas um sonho, ou então, uma cópia de alguma história do Luis Fernando Veríssimo, que, apesar de torcedor do Internacional, sabe mais de Borges do que eu.
Neta de Borges - 06/10/2005 ~ 11:20
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