No ano passado, numa palestra sobre a credibilidade dos weblogs, o distinto colega Rodrigo “Stimpy” Ranieri – parafraseando Theodore Sturgeon, disse algo mais ou menos assim para os meus alunos: “90% do conteúdo produzido para a Internet é um lixo”.
Êta afirmaçãozinha que deu, dá e dará pano pra manga. Tanto que é até uma lei (mais ou menos como a de Murphy); a lei de Sturgeon.
De fato, muitos podem concordar com o Theodore, o Stimpy e comigo também (sim, eu concordo em gênero, número e grau). Tem gente, inclusive, que foi mais além e até consruiu um site para dizer o quanto a Internet, digamos, fede. O manifesto, que pode ser lido aqui, é direcionado basicamente aos blogs mas pode ser extendido a toda a rede – como fez o Stimpy – sem perder nem um caracter do sentido.
Mas é claro que há quem conteste a tal lei de Sturgeon, mas o mais frequente é encontramos os que contestam a aplicação da lei; afinal, a beleza está nos olhos de quem a vê. A utilidade e relevância do conteúdo, idem.
Tomemos como exemplo alguns fenômenos virtuais que, cada um em seu tempo, mobilizaram turbas de usuários em volta de seus memes:
O primeiro deles é o curioso tributo ao “dia de se falar portunhol” que, recentemente, mobilizou grande parte da comunidade blogueira do Brasil em volta de um suposto dia onde todos deveriam falar portunhol. Não demorou muito para que, depois de lançada a idéia, muitas pessoas abraçassem a causa, fazendo campanha para que o dia de se falar portunhol seja instituído no calendário oficial do país.
Há, obviamente, aqueles que criticam a iniciativa, tão ferrenhamente quanto criticam a iniciativa do telecine de exibir sessões de seus filmes com legendas carregadas de neologismos oriundos dos software de mensagens instantâneas. Mas isso é papo para outra coluna. O que importa é notar que, ao passo que muitos consideravam aquilo um digno desperdício de tempo e bytes, outros achavam a idéia bacana.
Outro exemplo bastante interessante é o “all your base are belong to us”. Tudo começou como uma tradução mal feita de um game. Quando caiu na rede foi – e ainda é – repetida aos montes por muitos entusiastas, do Brasil e de outras bandas. Vídeos, imagens, textos, animações e adaptações do filminho original foram feitas aos montes, deixando claro que a tal febre é muito mais do que passageira. Outra vez vimos pessoas falarem do desperdício de tempo que representava aquele “culto” ao mesmo tempo que os usuários defendiam o poder terapeutico das risadas proporcionadas pelo meme.
Rizadas, aliás, foram a reação mais comum quando se tinha acesso ao vídeo do gordinho do star wars – feito por um garoto chamado Ghyslain. O famigerado garoto gravou em vídeo uma belíssima atuação de si mesmo imitando os jedis em uma luta com sabres de luz. Bastou esta pérola cair nas mãos de algum engraçadinho e a coisa tomou o mundo. Tanto que, diz a lenda, o garoto foi agraciado com um ipod por seus fãs virtuais como forma de recompensa pelo mico que o garoto pagou mundialmente.
Para finalizar os exemplos, vamos ao mais, digamos, repulsivo de todos, o Goatse.cx. Quando falam que uma imagem vale mais do que mil palavras, este é o exemplo a usar. Trata-se de uma foto de um cavalheiro mostrando seu trazeiro de uma forma bastante estranha e – para muitos – repulsiva. Tanto que, além de tributos, este meme gerou outros memes, como o de catalogar as expressões das pessoas ao verem a tal foto. Estranho, no minimo.
Como falei no início, a beleza está nos olhos de quem vê. No caso do Goatse.cx, o mais provável é que a falta da beleza esteja.
Mas, quer saber? Eu acho bom que seja assim.
Não que eu tenha gostado da tal foto, muito pelo contrário. Creio, entretanto, que o fato de termos tanto lixo na Internet faz dela uma fonte de informações ainda mais interessante para a humanidade. O argumento para isso é o fato de que, mais do que em qualquer outra época, o discernimento das pessoas é demandado.
Isso faz com que nós precisemos cada vez mais de nossos reais diferenciais (os intelectuais) para vislumbrar um pouco de luz na escuridão de conhecimento que – apesar de parecer o contrário – nos cerca.
Relendo este último parágrafo, vi que ele resume a afirmação que deu origem a esta coluna. Ou seja; apesar de parecer o contrário, a Internet e o rio de conteúdo que representa, estão lotados de lixo. Cabe a cada um de nós saber o que é o que não é um lixo.