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Mitos do Macho - O choro
Lágrimas, lenços e duas narinas gotejantes por Fernando Mascarello
Desde pequeno o homem é conduzido a algumas coisas: gostar de futebol, de mulher, de carros, de garotas, de dinheiro, de meninas e a não chorar. Claro que a seqüência pode ter algumas variações, mas não foge disso. Gostar de mulheres, carros, garotas, futebol, meninas e dinheiro são coisas boas, boníssimas. Hábitos tão saudáveis que devem ser incentivados. Agora, quanto ao choro, tenho cá minhas dúvidas se um homem de verdade, deve evitá-lo. Calma! Explicar-me-ei! Lembro-me que, quando pequenote - em uma galáxia muito, muito distante - se víamos algum moleque chorando - oito ou nove anos –, a primeira coisa que falávamos era que “homem não chora” e ficávamos rindo dele. Rindo horrores. Pouco nos importava se o motivo do choro fosse meio casco de coca-cola atravessando-lhe a palma da mão. Qual fosse o motivo, as lágrimas eram suficientes para uma bela (e injusta) chacota infantil, e pronto. Finito la comedia! Ainda lá, naquela distante infância – na mesma galáxia - havia os desenhos animados que sempre mostravam virís heróis enfrentando o perigo e salvando o mundo sem derramar uma gota de suor - quem dirá uma lágrima. Onde já se viu. He-man tinha a força, uma espada e um tigre verde de armadura e, mesmo que também fizesse luzes, bronzeamento artificial e usasse botas vermelhas forradas, pouco importava, ele não chorava e pronto, bastava. Era homem! ...como o próprio nome enfatiza. Mas então chega a puberdade. Com ela as espinhas, as revistas pornográficas clandestinas, as primeiras festinhas noturnas e, claro, as primeiras desilusões amorosas. Então, nos deparamos com aquele terrível nó na garganta. Homem não chora? Não! E agüentamos com firmeza aquele estoque no meio do peito, com aparente dignidade. Mas crescemos depressa e percebemos que as desilusões não param, nem diminuem, apenas aumentam. E, voilà, não há homem que segure aquelas primeiras lágrimas por uma garota. Por aquela garota. AQUELA. Depois de um tempo vem aquela outra e mais outra... Lágrimas discretas, solitárias. Lágrimas negadas, seguradas até o limite, mas, nem por isso, menos lágrimas. Assim, lá pelos quinze ou dezesseis, percebemos que homem chora, sim. Não importa o que digam. Claro que não confessamos a ninguém, nem às nossas mães, nem ao nosso espelho, nem sob tortura... mas choramos. Conforme crescemos, vamos nos acostumando com as desilusões amorosas e com certas dores que outrora pareciam mais fortes. Porém os problemas aumentam, as responsabilidades aumentam, assim como nossa capacidade de reter o choro. Formamos uma sólida barragem emocional, que segura um belo e vasto lago de mágoas, rancores e lágrimas, devidamente drenadas ao nosso interior. Com esta evolução, cedo ou tarde chegamos num ponto de autocontrole lacrimal (por assim dizer), onde usamos as lágrimas, o choro, um beicinho que seja, a nosso favor. Sim, se podemos reter, também podemos soltar. E, uma lágrima na hora certa, meu caro, pode render a beatificação ao canalha. Sim! Desculpa com flores é uma coisa, desculpa com flores e lágrimas é a redenção plena de (quase) qualquer pecado terreno. Cuidado! Eu disse: QUASE! Por isso digo: homem pode até não chorar. Mas, só se for muito burro. Atendendo a pedidos Fernando “Fezon” Mascarello é autodidata em xilofone, tuba e outros quatro instrumentos imbecis. Atende churrascarias, posse de síndico, festa de aniversário, batizado, primeira eucaristia, crisma, benção comunitária, Pentecostes, sessões de descarrego e desintoxicação. Velórios e enterro só com pagamento antecipado. PS.: não aceitamos cheque do falecido. +Leia também
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