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Cartunistas na fogueira

Reunimos o cartunista do JB e o criador d'Os Malvados para debater a polêmica da charge de Maomé

por Marcio Lima
[01/03/2006]

Nas últimas semanas, o mundo vivenciou uma crescente onda de protestos de povos islâmicos contra a publicação de charges do profeta Maomé pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten. Em defesa da liberdade de imprensa, jornais do mundo inteiro demonstraram indignação frente às manifestações violentas dos muçulmanos.

 

Criticar sempre foi um exercício perigoso em qualquer lugar do mundo e não é diferente para aqueles que se expressam por meio de desenhos que transitam livremente entre a sutil ironia e a declarada provocação. Para nos certificarmos do “insalubre” exercício da crítica através das charges, a Paradoxo reuniu dois cartunistas de renome nacional. O primeiro é o conhecido Ique, colaborador do Jornal do Brasil há mais de 20 anos. Conversamos também com André Dahmer, autor dos personagens mais ácidos que habitam o universo das tirinhas, Os Malvados.

 

“Esta charge é ofensiva!”

Este foi o título do e-mail que o cartunista Ique recebeu logo após a publicação da charge ao lado* em que o Cristo Redentor aparece com o desenho da “boca”, símbolo da banda Rolling Stones, que passou recentemente pelo Rio de Janeiro. A simples intenção de retratar a cidade mobilizada pela apresentação da banda provocou a indignação de alguns leitores do JB.

 

O cartunista nos encaminhou a mensagem que, em sua opinião, pode sintetizar todas as criticas recebidas. “Vocês deveriam ter mais discernimento, a charge de Jesus imitando aquele decrépito e senil senhor roqueiro é muito inadequada!”, esbravejou o leitor.

 

Surpreso, Ique classificou a reação como sendo mais violenta do que as comumente observadas em países do Oriente Médio. “Aqui no Brasil temos uma outra cultura, uma outra maneira de ver as coisas, pois vivemos em uma democracia, diferente dos outros paíeses onde predominam o fanatismo”, aponta. Certamente essa não foi a primeira e nem a última manifestação negativa frente aos seus trabalhos que já provocaram atritos inclusive com representantes da igreja católica. “Há 20 anos, logo que entrei para o JB, eram mais comuns os problemas com a igreja ao retratar símbolos como o Cristo Redentor. Chegaram a pedir meu desligamento do jornal”, recorda com tristeza.

 

Ique fez questão de lembrar que a charge tem uma função importantíssima de criticar os problemas que fazem parte da realidade, os quais muitas vezes não conseguiríamos enxergar sem esses retratos bem humorados. Mas humor não garante imunidade e o cartunista também precisa lidar com a repercussão de seu trabalho.

 

Além de jogo de cintura, as reações demandam respeito e atenção. “Sempre que eu recebo essas críticas, faço questão de respondê-las uma por uma para deixar bem claro o lado humano e o profissional do meu trabalho. Assim chegamos ao consenso de que temos opiniões diferentes que precisam ser respeitadas”, pondera.

 

Ossos do ofício

André Dahmer também teria sido candidato à fogueira se estivéssemos falando da Inquisição. Já sofreu ameaças, quase sempre por fazer abordagens sobre religião e política. O cartunista, que já criou tirinhas chamando Google de deus, é taxativo quando questionado sobre a crise provocada pela charge dinamarquesa.

 

“A questão está na convivência de tantas culturas, religiões e ideologias em um mundo de muita informação circulante e pouco pensar sobre esta nova realidade. O ocidente acha que sua cultura é universal, e quer impor esta cultura aos outros povos ‘no braço’, se preciso”. Para André, as charges foram só a gota d'água para um grupo cansado da interferência do ocidente na religião, costumes e principalmente, economia. 

 

Porém, quando perguntamos aos dois autores se o episódio das charges afetaria a produção de novos trabalhos, ambos dizem que nada mudará. A classificação das caricaturas como ofensivas ou não gera uma grande discussão, sobretudo quando culturas diferentes se confrontam. Na visão ocidental, a figura do homem-bomba é tida como um “fanático suicida”, enquanto os povos árabes o consideram “mártir de uma luta por libertação”.

 

O ideal mesmo seria que publicássemos aqui todas as caricaturas dinamarquesas para que cada leitor pudesse opinar a respeito. Mas, quer saber? O material ficou muito aquém do que já estamos acostumados a prestigiar em nosso dia-a-dia e, cá pra nós, a idéia do profeta com o turbante-bomba é bem manjada.

 

Melhor discutir nesse espaço a veiculação na revista polonesa Machina de uma capa com a imagem da Virgem Negra de Czestochowa com o rosto da Madonna ou abordar os protestos ocorridos na Nova Zelândia contra o polêmico capítulo do desenho South Park em que a Estátua da Virgem é mostrada menstruando.

 

 

 

*imagem gentilmente cedida pelos autores para ilustrar a matéria.



Marina de Sá  -  Brasília  -  01/03/2006 ~ 14:20
Nervos tão a flor da pele!

kané  -  sampa  -  15/03/2006 ~ 19:23
Quem é maomé?

Liane Scur  -  19/03/2006 ~ 18:59
Um misto de intolerância e falta de respeito.

 
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