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Grupo Vertigem encena um Brasil à margem

Espetáculo BR3 leva o espectador a navegar no rio Tietê

por Marcio Lima
[22/03/2006]

Estréia esta semana o espetáculo de teatro mais aguardado da temporada paulista. Trata-se de BR3, que será encenado pelo grupo Teatro da Vertigem. A peça tem como locação as margens do rio Tietê, onde será representado o resultado de um longo período de pesquisas de campo desenvolvidas pelos próprios integrantes do grupo.

 

Para compor o espetáculo, o Vertigem iniciou uma longa jornada pelo interior do País com o objetivo de fazer uma reflexão mais aprofundada acerca da realidade brasileira. O trabalho teve início na Brasilândia, bairro da zona norte de São Paulo com mais de 250 mil habitantes, onde o grupo fez uma integração com a comunidade por meio de oficinas durante um período de um ano.

 

De lá, o grupo partiu para Brasília, até chegar ao ponto mais distante, a cidade de Brasiléia, no Acre, quase na fronteira com a Bolívia. A partir das experiências vivenciadas nessas três localidades, o elenco, com a direção de Antônio Araújo, discutiu as ambigüidades existentes entre o centro e a periferia, entre o moderno e o arcaico, entre o espetacular e o modesto, beirando a pobreza.

 

O Vertigem, que adquiriu notoriedade por meio de uma série de espetáculos chamada de Trilogia Bíblica, se deparou mais uma vez com o tema religioso. O assunto chegou aos integrantes de maneira involuntária, por meio das diferentes faces que a religião adquiriu dentro dessas três culturas. “Em Brasilândia, o que prevalece são os cultos evangélicos, enquanto em Brasília a religiosidade adquiriu um aspecto mais místico. Em Brasiléia encontramos a forte cultura do Daime”, assim relatou à Paradoxo o ator Roberto Áudio.

 

O velho Tietê ainda vive

Quando fala-se no Rio Tietê, a imagem que se forma é a de inundações que param a cidade, enchendo as margens de sujeira. O ar nauseabundo que emana do rio o transforma em um verdadeiro local para ser ignorado pela imensa população da capital. Entretanto, para Áudio, assim como para o também ator Sérgio Siviero, a relação com o Rio Tiête foi menos desagradável do que se imagina.

 

“O primeiro contato que eu tive com o rio foi durante o dia, para ver o local onde o espetáculo ia acontecer, e as impressões que eu tive mudaram completamente durante a noite. O rio durante o dia é diferente ao anoitecer”, diz Roberto, surpreso. Ele relatou ainda que o mal-estar desapareceu conforme os ensaios se tornaram constantes, e que o forte odor nem é percebido mais com o tempo. Além disso, comentou sobre outras nuances nunca antes imaginadas.

 

Em sua primeira incursão ao local “inusitado”, Siviero pensou que estava indo para o “esgoto a céu aberto de São Paulo”, mas essa impressão se desfez em pouco tempo. Para ele, o rio se mostrou apenas doente, mas ainda um rio. “Me senti como um arqueólogo que descobriu um monumento embaixo da areia”, observa Siviero.

 

O mal necessário

Em mais de dez anos de carreira, o grupo mantém a proposta de buscar locais alternativos para apresentar seus espetáculos, o que provoca em sua platéia as reações mais variadas. Em 1992, por exemplo, quando iniciou a discussão sobre as relações entre o homem e o divino com o espetáculo O Paraíso Perdido, despertou a indignação de religiosos que contestaram a presença dos atores em um ambiente sagrado.

 

Com O Livro de Jó, em 1995, o grupo sensibilizou o público que viu de perto todo o martírio do personagem bíblico tomado por chagas. A montagem, realizada em um hospital, teve no papel principal o ator Matheus Nachtergaele.

 

Apocalipse, capítulo 1,11 foi ambientada em um presídio desativado em São Paulo. O espetáculo levava os espectadores a conhecer um pouco do que é a rotina dos detentos, além da oportunidade de poder ver encenado um dos textos mais mordazes e críticos, escrito pelo dramaturgo Fernando Bonassi sobre nós, o povo brasileiro.

 

BR3 inicia uma nova discussão que está bem longe de um fim, pois para os integrantes do grupo, o espetáculo nunca está pronto ao estrear. Tudo no Teatro da Vertigem é fruto de um processo que vem de muito longe, passando pelos ensaios, chegando ao contato direto com o espectador, que pode apontar novas propostas, uma via alternativa a todas as perspectivas pessimistas que os cercam.

 

Fotos: Edouard Fraipont      



 
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