A gente usa a Internet e a web o dia inteiro para executar diversas atividades, não é? Você, por exemplo, neste momento está lendo uma coluna em uma revista que não existe em outro lugar que não aqui, neste mundo virtual – esta alucinação coletiva que acordamos ver e notar a existência (mesmo que em potência).
Mas raramente paramos para pensar naquele conceito que fez com que a coisa toda se desenvolvesse e chegasse onde está. Para quem nunca leu a respeito, falo do propósito inicial de interligar redes, aquela motivação que fez com que se estabelecesse uma integração entre bases militares americanas no período da guerra-fria e que – depois – acabamos por conhecer com o nome de Internet.
Tudo aquilo – ou tudo isso, se preferir – surgiu com um propósito único: compartilhar informações. Veja só: pela Internet podemos, por meio das redes peer-to-peer (ou P2P*), colocar em prática o conceito primordial que originou tudo. Podemos compartilhar tudo.
Se não fossem as redes P2P, seria muito pouco provável que teríamos – aqui no Brasil – contato tão imediato com a produção cultural de lugares tão distante – tanto geográfica quanto estratégicamente para aqueles que distribuem a produção cultural pelo mundo. Exemplos que deixam isso bem claro são as bandas The Arcade Fire, The Strokes e Arctic Monkeys. Se não fosse pelas redes peer-to-peer, é bem provável que nós, aqui no Brasil, continuaríamos sem conhecê-los, esperando uma decisão estratégica de algum big-boss da indústria fonográfica mundial.
E é justamente em virtude desta possibilidade de nos aproximarmos de tudo o que está na rede que a comunicação deve ser repensada. Os modelos de distribuição global da produção cultural devem ser repensados para se adaptar a esta nova realidade.
Nestas redes podemos trocar de tudo. Tudo mesmo! Filmes, software, livros, jogos, música... As capacidades e possibilidades são virtualmente infinitas. A que tem dado mais trabalho para os caçadores de bruxas (aqueles que ainda não se tocaram que não há como impedir as redes peer-to-peer de funcionarem) é a rede BitTorrent**.
O motivo de a rede BitTorrent ser a bruxa mais caçada está no fato de ser muito difícil chegar aos que compartilham os arquivos. Os alvos são os sites que listam os arquivos compartilhados; são os sites que contém os trackers. O site mais famoso atualmente – sim, pois volta e meia estes serviços são fechados – é o The Pirate Bay. Trata-se de um site sueco que, além de prestar um excelente serviço fornecendo trackers de diversos tipos, ainda tira onda com quem inventa de processá-los.
Mais democrático que isso, impossível. Tanto que o site foi destaque no site da revista Wired, que – como este que vos escreve – exalta e destaca a importância de sua existência para a revolução que acontece (enquanto você lê esta coluna) na maneira que se faz comunicação.
Para usar outro jargão, eis que temos um cenário muito claro: a troca de arquivos pela rede não vai parar. O problema, também é claro: aqueles que antes ganhavam seu dinheiro com a venda e a distribuição offline da produção cultural pelo mundo terão que repensar suas atividades com a emergência das novas tecnologias e da digitalização de tudo o que se faz neste mundo. A solução do problema é que não parece muito clara. Enquanto algumas empresas distribuidoras processam os usuários, outras tentam (sem sucesso, obviamente) impedir que aquilo que vendem chegue à rede.
Quanto tempo demorará para que os responsáveis por estas decisões estratégicas atentem para o fato de que não adianta brigar? O que tem que ser feito é repensar a comunicação e a distribuição da produção cultural. Seja vendendo pela rede ou, de forma mais radical, liberando tudo.
.glossário.
* Explicação do conceito de P2P, direto da Wikipedia: P2P ou Peer-to-Peer é uma Tecnologia para estabelecer uma espécie de rede de computadores virtual, onde cada estação possui capacidades e responsabilidades equivalentes. Difere da arquitetura cliente/servidor, no qual alguns computadores são dedicados a servirem dados a outros. Esta definição, porém, ainda é demasiado sucinta para representar todos os significados do termo Peer-to-Peer.
O termo é utilizado em diferentes tecnologias que adotam um modelo conceitual de rede "par-a-par". Uma rede Peer-to-Peer (P2P) é constituída por computadores ou outros tipos de unidades de processamento que não possuem um papel fixo de cliente ou servidor, pelo contrário, costumam ser considerados de igual nível e assumem o papel de cliente ou de servidor dependendo da transação sendo iniciada ou recebida de um outro peer da mesma rede.
** Novamente peço ajuda à Wikipedia: BitTorrent é um protocolo que permite os utilizadores (usuários) fazerem download de arquivos indexados em websites. Essa rede introduziu o conceito "partilhe o que já descarregou" maximizando muito o desempenho e possibilitanto downloads rápidos e imediatos. Foi criado por Bram Cohen em 2003 e tem sido o alvo nº1 de empresas que lutam por direitos autorais.