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Liberdade é...

...um pouco mais do que passar a mão na bunda do guarda

por Caio Cesar
de Belo Horizonte

[20/04/2006]

Lembro-me da camiseta vendida na falecida publicação chamada "Casseta Popular" que tinha os dizeres: “liberdade é passar a mão na bunda do guarda”. Eles resumem o que tento refletir agora.

A web é maravilhosa. Todos sabem o quanto gosto dela. Meu trabalho depende dela e tudo o mais. Mas o hype é fogo. A produção de conteúdo colaborativo na rede é uma possibilidade deslumbrante. Digo possibilidade pois ainda não é uma realidade plena. É hype.

Enquanto a Wikipedia se mostra uma excelente opção viável de um repositório de conhecimento gerado de forma autêntica por todos, outros tipos e modalidades de serviços de distribuição de conteúdo autêntico falham – ou mostram-se abertos à possibilidade de falha mais latente que a Wikipedia.

Da mesma maneira que o Orkut e outras tantas redes sociais falham, tornando-se picadeiros ao invés de aglutinadores de redes sociais, vejo agora via plasticbag um post no sitepoint blogs mostrando como tem gente burlando o esquema do Digg com jogos para que seus sites ganhem destaque.

É lamentável, até certo ponto. Chato pois mostra que este modelo é falível. Mas bom porque mostra que o modelo é falível. Paradoxal? Nem tanto. Olhemos o copo meio cheio e atentemos para o fato que a gente agora já sabe que existem iniciativas que pdem não funcionar. Para o desenvolvimento de conhecimento sobre a rede e as redes que se formam dentro dela, isso é muito bom.

De modo semelhante ao ocorrido com o uso de meta-tags e com a criação de sites-fantasma para enganar os mecanismos de busca como estratégias tolas de marketing eletrônico, este tipo de maneira de espalhar o conteúdo autêntico falha. Seria perfeito se soubéssemos o que funciona. mas o desafio está em tentar.

Volto a direcionar minha atenção para iniciativas de autogestão de conteúdo autêntico como o Metafilter e Slashdot, mas eles também carregam em seus modelos falhas potenciais, que podem ocorrer seguindo os moldes do que ocorre com o Digg.

Talvez centralizar a distribuição de conteúdo autêntico não seja a solução (penso que o caminho seja realmente a descentralização). Com ferramentas de publicação mais e mais disponíveis e simples de usar, pra mim, fica cada vez mais claro que os weblogs e as ferramentas de comentários e os agregadores de conteúdo se mostram como a opção mais viável de produzir, manter, discutir e acompanhar a distribuição - agora personalizada - de conteúdo autêntico.

Sabe aquela praça que foi construída – se não me engano, com um projeto de Bule Marx – sem nenhum caminho para os pedestres e que a intenção era que os próprios pedestres, ao pisarem na grama e fazerem seus caminhos, indicariam quais seriam as vias internas de deslocamento por aquele espaço? Pois é. Eu imagino que tentar centralizar a distribuição do conteúdo autêntico vai contra a idéia de liberdade que a web promove e representa. Quem usa a rede é que deve fazer seu próprio caminho. Não sou o único, ainda bem.

Nossa necessidade social de direcionamento, orientação e liderança faz com que o paradigma de uma central de distribuição de conteúdo (uma rede de tv, um grande jornal, uma grande revista, um grande portal, um grande site de notícias e um grande agregador de conteúdo autêntico) seja difícil - ou quase impossível - de se quebrar. Romper este paradigma e, talvez, olhar para a possibilidade de independência - onde cada um tem seu próprio filtro ou sua própria rede de feeds que buscam o conteúdo autêntico de sua pereferência em blogs, bookmarks públicos ou até mesmo em sites de notícias mundo afora - oferecida na web de hoje pode ser um caminho a seguir.

Por outro lado, nossa necessidade positivista de explicação de tudo através de modelos claros e sólidos nos atrapalhe também nisso. O que nos resta é esperar pra ver. Mas esperar não quer dizer sentar-se e, passivamente, observar a grama (ou a rede) crescer. É preciso fazer, ou melhor: experimentar.

Talvez seja isso. Liberdade, então, deixa de ser só passar a mão na bunda do guarda. Liberdade, na web, é poder experimentar.

*Caio Cesar é professor, pesquisador e consultor em marketing, usabilidade, comunicação e tecnologia.



 
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