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A felicidade infiel

O colunista vasculhou o caderno de anotações do Seu Alfredo, veja só

por Fernando Mascarello

[12/07/2006]

Seu Alfredo sempre dizia que "o desejo carnal é uma cadela que vive dentro de nós. Deixar de alimentá-la é pedir-lhe que nos devore a alma". Não sei se a frase é dele mesmo, de Nietzsche ou de outra pessoa. Tampouco posso afirmar com certeza se a frase é exatamente esta. Confesso a péssima memória para quase tudo, mas isso não vem ao caso, o que importa é a idéia da frase.

 

Sei que esta semana me lembrei de alguns ensinamentos do Seu Alfredo, meu guru e porteiro há uns anos. Ele, além de porteiro e guru, fazia às vezes de crítico literário, piscineiro, animador de festa infantil e filólogo. Muito embora não fizesse idéia do que esta palavra significasse.  

 

Em nossas acaloradas discussões no púlpito da portaria, chegamos a conclusão de que é imbecil escrever textos em primeira pessoa, pois parece que estamos falando de nós mesmos, até porque se começamos a falar na primeira pessoa, invariavelmente acabamos falando de nós mesmos, mesmo que inconscientemente. Autor que se presa, nunca fala de si. Há personagens exatamente para isso: escondermo-nos por trás deles.

 

Também concluímos que não podemos confiar nas pessoas, quais sejam. Só se deve confiar no que se pode perder. Mais que isso, é desnecessário e irrelevante que seja confiado. Em suma, é inconfiável.

 

Ele dizia que já não tinha quase nada a perder e por isso costumava confiar muito nas pessoas. Antes de dizerem que sua vida não é difícil, ele fazia questão de que saibam que ele abnegou de muita coisa pra que digam que a sua vida solitária ou individual é fácil. “Não é. Pode acreditar”.

 

É de se acreditar mesmo. A solidão é o maior dos demônios humanos. Perde talvez para a vaidade, mas este vive travestido de cores, enquanto a solidão é sempre crua, mal-vestida e dolorida. A solidão não se esconde, não se camufla, se sente, ela pega você quando você menos espera, tira pra dançar até a sua exaustão e exaurimento.

 

Para Seu ALfredo, fidelidade não é nenhum problema, pois fidelidade “não passa de um conceito católico tão idiota e desprezível quanto o instrumento da confissão e as missas de domingo. Os católicos pensam que precisam da fidelidade como meio de conseguir a felicidade da mesma forma que acreditam que precisam da igreja para falar com Deus, ou por Ele serem notados”.

 

As coisas vão realmente más quando precisamos fundamentar toda a nossa confiança nessa “fidelidade-católica” malfadada por Alfredo. A confiança verdadeira não é material ou carnal, é sim superior a todas as outras, a confiança da alma, do espírito e de uma série de outras coisas que pra todo mundo é pecado e papai do céu não gosta.

 

Mas isso são coisas que eu ou Afrânio não podemos provar materialmente, pois a matéria é irrelevante.

 

*Fernando "Fezon" Mascarello é devoto do vigésimo sétimo quadrante dos vetunianos e amigo de Seu Alfredo.



Alonso  -  Cascavel-PR  -  21/07/2006 ~ 11:50
Hum, seria o mesmo que trair a mulher e dizer que no fundo pensava nela? ^^

Clara  -  Rio de Janeiro  -  23/07/2006 ~ 14:51
Alguém já disse: " a fidelidade não é característica do ser humano, e sim do amor". Rosa Turmalina é devota das sodomitas descalças de Ipanema.

 
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