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A felicidade infiel
O colunista vasculhou o caderno de anotações do Seu Alfredo, veja só por Fernando Mascarello
Seu Alfredo sempre dizia que "o desejo carnal é uma cadela que vive dentro de nós. Deixar de alimentá-la é pedir-lhe que nos devore a alma". Não sei se a frase é dele mesmo, de Nietzsche ou de outra pessoa. Tampouco posso afirmar com certeza se a frase é exatamente esta. Confesso a péssima memória para quase tudo, mas isso não vem ao caso, o que importa é a idéia da frase. Sei que esta semana me lembrei de alguns ensinamentos do Seu Alfredo, meu guru e porteiro há uns anos. Ele, além de porteiro e guru, fazia às vezes de crítico literário, piscineiro, animador de festa infantil e filólogo. Muito embora não fizesse idéia do que esta palavra significasse. Em nossas acaloradas discussões no púlpito da portaria, chegamos a conclusão de que é imbecil escrever textos em primeira pessoa, pois parece que estamos falando de nós mesmos, até porque se começamos a falar na primeira pessoa, invariavelmente acabamos falando de nós mesmos, mesmo que inconscientemente. Autor que se presa, nunca fala de si. Há personagens exatamente para isso: escondermo-nos por trás deles. Também concluímos que não podemos confiar nas pessoas, quais sejam. Só se deve confiar no que se pode perder. Mais que isso, é desnecessário e irrelevante que seja confiado. Em suma, é inconfiável. Ele dizia que já não tinha quase nada a perder e por isso costumava confiar muito nas pessoas. Antes de dizerem que sua vida não é difícil, ele fazia questão de que saibam que ele abnegou de muita coisa pra que digam que a sua vida solitária ou individual é fácil. “Não é. Pode acreditar”. É de se acreditar mesmo. A solidão é o maior dos demônios humanos. Perde talvez para a vaidade, mas este vive travestido de cores, enquanto a solidão é sempre crua, mal-vestida e dolorida. A solidão não se esconde, não se camufla, se sente, ela pega você quando você menos espera, tira pra dançar até a sua exaustão e exaurimento. Para Seu ALfredo, fidelidade não é nenhum problema, pois fidelidade “não passa de um conceito católico tão idiota e desprezível quanto o instrumento da confissão e as missas de domingo. Os católicos pensam que precisam da fidelidade como meio de conseguir a felicidade da mesma forma que acreditam que precisam da igreja para falar com Deus, ou por Ele serem notados”. As coisas vão realmente más quando precisamos fundamentar toda a nossa confiança nessa “fidelidade-católica” malfadada por Alfredo. A confiança verdadeira não é material ou carnal, é sim superior a todas as outras, a confiança da alma, do espírito e de uma série de outras coisas que pra todo mundo é pecado e papai do céu não gosta. Mas isso são coisas que eu ou Afrânio não podemos provar materialmente, pois a matéria é irrelevante. *Fernando "Fezon" Mascarello é devoto do vigésimo sétimo quadrante dos vetunianos e amigo de Seu Alfredo.
Alonso - Cascavel-PR - 21/07/2006 ~ 11:50
Clara - Rio de Janeiro - 23/07/2006 ~ 14:51
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