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Meu sonho pra cá, o seu pra lá

Um casal, duas vontades

por Fernando Mascarello

[27/07/2006]

Aviso, antes de qualquer coisa, que meus dias aqui na Paradoxo aparentemente estão contados. Amada Paradoxo, digo-lhes. Não por gosto, nem por nada, apenas porque o tempo é curto, é quase nada, e há muito o que ser feito.

 

Os oposicionistas vão vencer? Não sei, vai depender do saco do editor-mor-chefe-zuzuzu com a minha impontualidade. Afinal, ele é quem manda. O que sei é que em cumprimento a um mandado judicial, volto a escrever esta semana. Estas faltas sempre prejudicam todo mundo: eu, a revista, o editor, o leitor, o oficial de justiça, todo mundo, eu sei disso e, embora não pareça, sempre tento evitar.  

 

Hoje, o colunista mais relapso ao sul do Rio Grande, volta cheio de soluções escabrosas, com a já comprovada filosofia de botequim e com todos aqueles conselhos de bêbado que vocês já conhecem de cor. Volto justamente para atender a um e-mail de uma leitora de Salvador, a qual, certamente, em um dia que não deu praia e não tinha nada melhor para fazer, resolveu escreveu pra moi para pedir conselhos e, de quebra, fazer o colunista aqui repensar o velho projeto de largar tudo e montar uma barraca de coco nas adjacências de Trancoso.

 

Enquanto o meu plano não passa de devaneio, vamos tratar do dela. Que é nada mais que casar de véu, grinalda, vestido branco e tudo o que se tem direito, de preferência em uma das igrejas históricas da primeira capital do Brasil. Até aí nada de novo. Um sonho como o de tantas. Porém ela conta que o adversário, digo, o noivo, não come do mesmo vatapá ou, pelo menos, não com a mesma intensidade.

É preciso deixar claro que não estamos falando aqui da sexualidade do rapaz, mas sim da indisposição dele quanto ao matrimônio.  

 

Ela percebeu isso nas "saidelas" que o rapaz dá até altas horas da noite e pela recorrente tangente por onde ele sempre escapa quando o assunto é casório. Ele, como bom baiano, diz que não precisa de pressa pra casar, que as coisas vão acontecer quando tiverem que acontecer, que por ele nem casava e tudo mais que um homem diz quando não está afim de ir pra forca...

 

Diante de tal situação, arretada que só ela, nossa leitora literalmente rodou a baiana e disse, em meio a uns bofetões fonéticos, que o sonho dela sempre foi casar e que não tinha o menor cabimento ele negar isso a ela, justo agora que o sonho estava tão perto de virar realidade.

 

Ele então, tomado pelo arrepio da sinceridade, sem atentar para a própria integridade física, respondeu que se o sonho dela sempre foi o de casar, o dele foi de viver solteiro, até a morte. Não fosse pela porta do banheiro, esse desejo ia se realizar ali mesmo, pelas mãos da noiva.

 

Esfriado os ânimos e depois de guardadas as facas na gaveta da cozinha, que é o lugar delas, o rapaz saiu e fizeram as pazes, ou melhor: uma trégua. Ele com a promessa de pensar melhor no assunto, ela dizendo que iria ter mais paciência e não ia mais pressioná-lo tanto, pelo menos não naquela noite.

 

Este colunista confessa que nunca tinha olhado a coisa-toda pela ótica do “se você tem um sonho, eu também!”. E a conclusão é de que com a maioria dos casais é assim. Uma das partes sempre vai abafando um sonho, ou dois, ou três ou todos, para que a coisa dure, em prol do relacionamento.

 

Errado ou certo, não há como saber. Não há quem tenha capacidade de resolver. Mas o fato é que cuidamos sempre de atar nossos sonhos nos conceitos mais ortodoxos, mais terrenos, para que eles não orbitem longe do comum, do aceitável.

 

Repito: não há como saber sobre certos e errados, mas não dá pra tirar toda a razão do noivo, sabe-se lá o quanto ele já teve de reprimir suas vontades. Ela também deve ter feito o mesmo, afinal, vida a dois não é bolinho.

 

O que podemos concluir é que existem três saídas para o imbróglio. Uma é partir para o abafa: “ou casa, ou desocupa a noiva"; outra é dar um pouco de tempo ao rapaz, para que ele reflita o quanto a vida de solteiro não leva a nada mais do que bebedeiras, festas, amigos desprezíveis e mulheres de reputação duvidosa (“benzadeus!”) e chegue à conclusão de que só o casamento redime, ainda mais se for com você; a última é a mais dolorosa, que é adotar a boa e velha Lei de Murici: “cada um cuida de si”; e tu que arranje outro noivo por aí, pois este ainda tem muito óleo pra queimar antes de encostar em uma garagem.  

 

*Fernando "Fezon" Mascarello É fissurado em adágios populares e declarações de amor de papel de bala, mas não paga um real em livro da Martha Medeiros.



 
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