Ontem foi uma correria só e, quando cheguei em casa, tomei um banho rápido e me mandei para o Shopping da Gávea, para assistir uma peça infanto-juvenil, a convite da minha amiga Julia: Fala Sério, Mãe, baseada no livro da campeã do mundo teen, Thalita Rebouças.
Tenho interesse em garotas de 13 anos, estou estudando sobre elas. Sobre as tartarugas e sobre elas. Ontem fui um dia especial para o público, e conto porque: em uma das cenas Malu, personagem principal, está com a mãe no supermercado e vê o Felipe Dylon. De mentirinha. E a mãe tira uma foto dos dois, que fica registrada em um dos quadros desenhados que fazem parte do cenário. Mas desta vez o gatinho estava lá, na platéia. E na hora da cena, a mãe chamou o cantor no palco para tirar a foto de verdade. As meninas atrás de mim pareciam estar à beira de um ataque. Os hormônios quicavam.
A história, o título, já explica: mãe e filha na fase de adolescência. Thalita pega todo o universo das meninas, que começa aos 4 anos e vai até aos 21. São três atrizes: Regiana Antonini é Angela Cristina, a mãe - também redatora do Zorra Total. Foi ela quem criou o bordão ''Eu te conheço?''. Histérica, cafona, um pouco grossa, escandalosa, perua. Uma caricatura, pensei. Thais Muller, fã de Leandra Leal, interpreta a personagem dos 4 aos 12 anos; e Josiê Pessoa, 18, é Malu até os 21. Ela disse que a mãe dela é idêntica a Ana Cristina. E a própria concorda.
A sacada bacana que eles tiveram foi colocar as duas em cena, repetindo os mesmos gestos, como num espelho. Às vezes a menor fala no lugar da outra, mesmo depois de ter passado a bola. Daí que é legal. Porque quando Malu vai pra cama pela primeira vez, quem conta pra mãe é a pequena. E é assim mesmo que a gente vê nosso filhos quando eles ficam grandes. Todo mundo sabe que é assim, aquele papo. Thais Muller foi a que mais gostei. Deve ter uns 14 anos. Quando fui embora disse pra ela: Você vai ser uma grande atriz. A cena que mais gosto, muito rápida, é dela: improvisa um balé e uns gestos de karatê, quando Angela Cristina faz um flashback da infância da filha. Tudo pra ser craque.
Aquela realidade no palco não era a minha, e nunca foi. Então eu sabia que daquele mato não ia sair nenhum coelho. Mas parece que a vida tem prazer em desmentir a gente: eu cho-rei. Taí uma coisa que eu nunca poderia imaginar que fosse acontecer. Julia me disse depois que todas as mães choram. Quando Malu faz a malinha para ir morar com as amigas (e no caso, usa-se o recurso da menor no lugar da outra) fiquei imaginando minha filha, e se um dia isso acontecer. Tão pequena!
Fiquei observando a fileira de meninas atrás de mim, média 12 anos. Quando Felipe Dylon apareceu no palco elas começaram a se abanar. Morrem por ele. E são ligadas nas roupas da personagem central. Como Malu troca de roupas muitas vezes, a excitação é total. ''Eu acho lindo, mas não usaria'', diz uma delas quando a adolescente aparece com um colete de brilhos. “Olha essa calça!”, diz outra de cabelos alisados.
Minha opinião sobre a peça, já que não sou crítica de teatro, provavelmente não se encaixará com a das mães que estavam lá com suas filhas. ''Igualzinho!'', reconheceu uma delas ao meu lado. Acho uma coisa: seria melhor se fosse 25 minutos mais curta, porque algumas vezes rolam repetições desnecessárias.
No final, os atores explicam que uma filha deve contar tudo a mãe. Não é tipo uma lição, mas por uma questão de afeto. Eu discordo. Acho que existem coisas que só se conta mesmo para as amigas.
Foto: Divulgação
*Marina W é jornalista, carioca e autora do Caderno de Cinema de Marina W. Além disso, mantém um dos blogs mais lidos da Internet.