_a ponte
O filme é um documentário sobre a ponte Golden Gate, que registra o maior índice de suicídios do mundo.
O diretor Eric Steel escolheu algumas das muitas histórias que registrou durante o ano de 2004 e, por meio de entrevistas com a família e amigos, tentou traçar um perfil desses suicidas.
O que ele acaba por constatar é que pessoas atormentadas por doenças mentais ou psicologicamente abaladas pela depressão e solidão profundas, sem forças para lutar, acabam por se jogar da ponte que é o principal cartão postal de São Francisco, California.
O documentário não nos poupa do real sofrimento dessas pessoas. Ele mostra cenas de pessoas criando coragem para se jogar da Golden Gate. Algumas chegam e imediatamente se jogam, enquanto outras ficam intermináveis horas mirando do alto a baía de São Francisco. Quanto mais demoram, mais angustiante é assistir aquilo tudo pela sensação de impotência.
Os depoimentos impressionam mais pela apatia dos familiares do que pelo próprio suicídio. Os 'personagens' daquela dura realidade tinham tanto sentido de preservação da individualidade do outro que, mesmo com um filho, a privacidade dele valia mais que a vida.
_crazy
A história narra dos primeiros 20 anos de Zachary Beaulieu, o quarto filho de cinco irmãos, cuja inicial dos nomes forma a palavra CRAZY, referência feita a uma música que o pai dele ouvia muito.
Sua infância foi marcada pelo descobrimento de um suposto dom de cura e por suas diferenças de comportamento e gostos com relação a seus irmãos. E também pelos natais, data de seu aniversário, onde seu pai sempre terminava a festa cantando Charles Aznavour.
Na adolescência, Zachary começa a se descobrir sexualmente e a discernir o que realmente quer e como lidar com isso em família e entre os amigos. O cotidiano dessa família é retratado de uma maneira muito bem-humorada e com ótimas atuações. Mesmo ao tratar de assuntos como drogas e homossexualismo, a variação de sentimentos é muito equilibrada, passando da comédia ao drama, sem que se perca o valor das cenas.
Destaques para a trilha sonora, que conta com David Bowie, Pink Floyd e Rolling Stones, e também para o clima da época, muito bem representado pelas roupas, carros e atitudes dos personagens. A cena em que Zachary flutua na igreja ao som de Sympathy for The Devil é sensacional. De longe um dos melhores filmes do festival.
_tv junkie
O filme retrata com imagens reais a trajetória pessoal e profissional de Rick Kirkham, que desde os 14 anos filmou sua vida, incluindo suas brigas com a esposa, problemas com drogas, reportagens que realizava quando era correspondente de um jornal e até mesmo sua separação.
Mais de três mil horas de filmagens foram editadas pelos diretores Michael Cane e Matt Radecki, que reuniram os trechos principais neste documentário no mínimo constrangedor. Não pela vida de Kirkham em si, mas por sua posição extremada.
Rick tinha uma vida confortável, era jornalista bem posicionado e realizava reportagens arriscadas e era um sucesso. Nesse meio tempo, sua namorada engravida e eles casam. Embora muito apaixonados, são felizes por muito pouco tempo, já que a droga ia deteriorando a vida de Rick e o relacionamento dos dois. Ele tentava, mas não conseguia parar. Ele amava a mulher, os filhos e a profissão, mas foi perdendo tudo por causa de seu vício. Enquanto isso tudo ia acontecendo, Rick não parava de filmar e, até mesmo em momentos que deveriam permanecer na intimidade são filmados e expostos no documentário.
_dália negra
Brian de Palma criou um universo noir de intrigas e personagens multifacetados, baseado na história real de um crime que aconteceu nos Estados Unidos de 1947. No filme, o assassinato de uma aspirante a atriz conhecida como Dália Negra é investigado por dois detetives que acabam criando uma obsessão por ela.
O filme é um pouco cansativo e confuso, mas o clima de suspense se mantém do início ao fim, e a personalidade de cada um é delineada de maneira sutil, rica em elementos contraditórios. Como na vida real.
Hillary Swank [Meninos Não Choram e Menina de Ouro) e Scarlett Johansson [Match Point] roubam a cena. Aaron Eckhart [Obrigado por Fumar] não deixa por menos e os três juntos engolem o protagonista, Josh Hartnett, que, apesar de não ter atuado mal, é nitidamente mais fraco que os demais.
_volver
O novo filme de Almodóvar trata da história de Irene que, apesar de morta, reaparece para acertar pendências com a família. Logo de cara o espectador se diverte com cenas bastante bem-humoradas e personagens com traços bem curiosos e, às vezes sórdidos. Tudo bem ao estilo Almodóvar.
A idéia de que mesmo quando enterramos nossos mortos, carregamos histórias do passado por toda a vida é muito bem passada, com a sensibilidade necessária e um olhar feminino constante. Penélope Cruz é o grande destaque, com uma bela atuação e uma cena marcante, quando canta Volver, música de Carlos Gardel.
Porém faltou ao filme dinâmica e diálogos mais consistentes. Algumas cenas de ação prendem a atenção, mas na maior parte do tempo o longa-metragem é lento e cansativo. Os diálogos são vazios, uma decepção.
As belíssimas atuações de todas as atrizes e a confiança de que Almodóvar havia reservado um final que justificasse o tédio do filme fizeram com que valesse a pena "pagar pra ver", entretanto não foi muito diferente de todo o resto. Um filme chato. Para mim, Almodovar "errou a mão". Melhor interpretação feminina sim, mas melhor roteiro, definitivamente, não.
*Haline Santiago
é carioca, analista de sistemas, tem 26 anos e participa do Conselho de Leitores Paradoxo desde a sua fundação.