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Brasil-il-il-il

Uma história banal

por Marina W
do Rio de Janeiro
[05/10/2006]

Esta semana aconteceu o seguinte: eram dez horas da manhã, eu estava saindo de casa e vi uma mulher, na esquina da rua das Acácias, tendo uma tonteira. Duas tonteiras. Na segunda ela se encostou no muro de uma casa. Não estava fazendo cena, como pode parecer para algumas pessoas. Porque não tinha ninguém para vê-la, a não ser o porteiro do prédio em frente.

Fui até lá. ''A senhora precisa de alguma coisa? Não está se sentindo bem?''. Ela disse que estava bem. Era uma mulher tão baixa, que só pelo formato dos seus braços e pernas vi que não era uma anã. E tinha o rosto redondo como uma maçã.

Não era jovem. Disse que chegou cedo para fazer uma faxina num prédio perto dali. Não tinha ninguém e ela ficou aguardando. Quando finalmente deu dez horas, a patroa apareceu e disse que hoje não precisaria dos seus serviços. Ela ia me contando sua história, cheia de humildade e humilhação. Eu disse ''Não chora''. Pedi que ela me acompanhasse até o caixa eletrônico do shopping. Inibida, ela não quis entrar e sentou no degrau do lado de fora. O segurança expulsou ela dali.

O caixa não estava funcionando. Em se tratando do Bradesco é normal. Fomos até o banco. Ela também não quis entrar. Estava em jejum. Esperava tomar um copo de café quando chegasse para fazer a faxina. Dei a ela o correspondente a sua diária. ''Minha linda, minha linda'', não parava de repetir, chorando. É por isso que eu tenho ódio dos políticos. Eu disse à ela que não precisava me agradecer, que as coisas eram assim, que mais tarde outra pessoa me ajudaria, e que essa pessoa seria ajudada por outra, porque a vida é mais ou menos assim. ''Seja forte'', eu falei. ''Minha linda'', ela repetia com aqueles olhos cansados das mulheres que sofrem demais.

Eu não fiz isso para me sentir a tal. Eu não fiz isso para mostrar a mim mesma como sou boazinha. Nem para mostrar aos outros. Talvez eu tenha feito, é uma hipótese, para tirar um pouco o peso da minha consciência. Talvez. É certo que fiz porque me achei na obrigação. É uma obrigação. É.

*Marina W é jornalista, carioca e autora do Caderno de Cinema de Marina W. Além disso, mantém um dos blogs mais lidos da Internet.



Daniela Castilho  -  São Paulo  -  06/10/2006 ~ 14:30
Eu estava essa semana tomando um café com leite e um pãozinho de queijo na frente da estação Lapa de trem quando um senhor de idade parou, começou a perguntar os preços, avaliando o dinheiro que tinha. Ele queria muito tomar um suco, que custava míseros cinquenta centavos, mas consultou e consultou a carteira - e falou pra moça servir só um pão de queijo ou um enroladinho, nem sei. Eu falei - eu te empresto - e tirrei um real do meu porta-moedas. Ele falou - não tenho como te pagar - e eu juro, juro que respondi - não precisa, Deus me paga. Eu dei o real não porque me sobre - estou endividada até a tampa da cabeça - mas porque esse tipo de injustiça, de miséria, me revolta o estômago. O pão de queijo que eu comia não ia descer direito, porque um senhor de muita idade não tinha cinquenta centavos para tomar um suco.

Luana Lorena  -  Feira de Santana- BA  -  25/11/2006 ~ 15:22
Triste, dura, mas é a nossa realidade. Encarar ou aceitar? Ignorar ou tentar mudar? Cabe a cada um escolher. obs.: Sua coluna é muito boa, adorei.

Diemerson  -  Umuarama - Paraná  -  05/01/2008 ~ 09:12
É necessário ocupar espaço na Política, não acha? Gostei da Coluna!

Roseane Mussi  -  Vitória ES  -  12/01/2008 ~ 19:05
É uma obrigação sim. O amor não é uma troca e vi que esse foi um ato e tanto de amor! Parabéns...

Isabel  -  Porto Alegre  -  11/09/2008 ~ 01:10
São esses pequenos grandes atos que nos dizem que somos gente, que existe dignidade, que ainda há amor, que a vida pode valer à pena. Obrigada, Marina.

Vinícius  -  Paulista, PE  -  29/10/2008 ~ 17:11
Aposto que esse ato te engrandeceu mais do que a ela. Parabéns!

 
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