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Quer uma segunda chance?

‘Second Life’ cria um mundo paralelo onde tudo é tão possível que há economia e política próprias

por Marcus Cardoso
Editor-chefe

[01/11/2006]


Imagine um mundo como o nosso, mas em realidade virtual. Onde também é possível ser alguém com nome e sobrenome, dinheiro, casa, amigos, além de criar uma vida para si ou viver a própria vida por lá. Imaginou? Esse mundo se chama Second Life [SL], e lá você pode se divertir um bocado e até ganhar dinheiro. De verdade.

 

Second Life tem o intuito de promover interação virtual máxima. Desde pequeno, o fundador da Linden Lab, empresa criadora do site, usava computadores para simular a realidade. Daí surgiu a idéia de criar algo para que as pessoas pudessem experimentar uma “segunda vida”.

 

Para participar, o futuro imigrante de Second Life deve preencher uma ficha no site, em que escolhe seu nome e seleciona um dos sobrenomes disponíveis. Além disso, o usuário pode personalizar o avatar - o “boneco” que vai representá-lo. Depois disso, vai receber uma conta e precisar baixar o software que dá acesso ao SL.

 

_prepare as malas e o passaporte

Quando começam o jogo, os recém-chegados são enviados para a Help Island, uma espécie de ilha tutorial. Lá, são instruídos sobre as políticas de convivência da comunidade e aprendem como se dá a interação com objetos e pessoas. É possível também conversar com outros novatos e com “mentores” – nome dado aos residentes que, voluntariamente, se oferecem para colaborar com o sistema e ajudar os demais usuários.

 

A reportagem da Paradoxo conversou com um dos monitores assim que chegou à ilha dos ‘calouros’. Purrts Trumbo era o nome da gentil raposa tigrada. Primeiro, observamos de longe o trabalho dela. Entre um ensinamento e outro, nos aproximamos e descobrimos que, por trás da simpática raposa está o animador em 3D C. Smith, de 47 anos, que mora em Seattle, nos Estados Unidos.

 


Adam Pasick é o repórter da Reuters no SecondLife. Acima, o seu avatar


O ex-governador da Virgínia [EUA], Mark Warner, foi o primeiro político a acessar o mundo de Second Life

Smith está em Second Life desde 2005. Em junho, foi nomeado mentor voluntário e, desde então, passa cerca de duas horas por dia no mundo virtual. “Já esbarrei com muitos brasileiros, acho que uns 70. A maioria fala muito pouco inglês, mas, mesmo assim, a gente tenta ajudá-los a se integrar na comunidade”, conta. Smith fez amigos em países como Inglaterra, Alemanha, Japão e China. “Alguns deles eu já encontrei na vida real.”

 

Enquanto conversávamos, um residente curioso se aproximou. Após perguntar-nos se não gostaríamos que também nos desse entrevista, nos sentamos numa praça virtual e começamos o papo. Sob o nome de Dementia, aquela era a primeira vez de Stuart em Second Life. O adolescente inglês, que não quis revelar o a idade por ser menor de 18 anos, se divertia com a nova experiência. “Parece os RPGs que jogo com meus amigos depois da escola”, compara.

 

_$$$

Sites e programas que ambientam o usuário em uma atmosfera 3D para bate-papo não é a última novidade. Lançado comercialmente há três anos, só agora Second Life chegou ao público de forma massiva. A diferença principal para outros programas é que SL promove a criatividade e assegura os direitos autorais mesmo na realidade virtual. Por exemplo, os residentes podem fabricar objetos e guardá-los para si ou tentar vendê-los para outros, mas somente os autores dos produtos podem autorizar ou não a cópia ou alteração no design.

 

A venda desses objetos, que vão de peças de decoração a roupas, tem rendido muitos Linden dólares aos residentes de Second Life. E para a alegria dos usuários, essa moeda pode ser trocada por moeda corrente no site da empresa. A Linden Lab prevê que o faturamento neste ano chegue a US$ 60 milhões.

 

Apesar da popularização, Second Life ainda é considerada uma comunidade virtual em crescimento, com pouco mais de 1,2 milhão de residentes. Segundo o técnico em informática Paulo César Ferreira, a lenta popularização do programa pode ser devido ao peso do arquivo de instalação [cerca de 50MB] e os pré-requisitos mínimos, como mais de 512MB de memória ram e uma boa placa de vídeo.

 

A publicitária gaúcha Guadalupe Albuquerque, de 23 anos, conheceu o SL por um amigo, ficou curiosa e foi conferir. No entanto achou tedioso. “Pensava que tinha encontrando um novo passatempo, mas além de ser demorado para fazer o download, o servidor vivia caindo. O jogo é muito burocrático até chegar aos finalmentes.”

 

_do real para o virtual

Complicado ou não de instalar, Second Life oferece uma a realidade virtual bastante atrativa. Não é à toa que personalidades e instituições do mundo real já usam a rede.

 

A agência de notícias Reuters abriu sua sucursal no mundo virtual, após 155 anos no mundo real: secondlife.reuters.com. Adam Pasick, de 30 anos, é repórter de tecnologia da agência e mora em Londres. No começo de outubro, fez um avatar e se tornou o primeiro jornalista das ilhas de Second Life.

 

“O fato de o trabalho ser em um mundo virtual não muda muito as coisas”, disse ao The New York Times. “Não é muito diferente de quando a Reuters abre um bureau em uma parte do mundo que têm uma economia crescente. Em SL, as leis de oferta e procura são reais, assim como o câmbio monetário e a abertura de negócios e serviços.”

 

Outras áreas do mundo real que estão presentes na realidade virtual de Second Life são a política e a música. No final de agosto, o candidato a presidente dos EUA pelo Partido Democrata, Mark Warner, concedeu uma coletiva à imprensa. Na ocasião, falou de segurança nacional, política externa e participação em comunicades virtuais. A cantora americana Regina Spektor também aproveitou a rede para se atingir novos públicos. Antes de chegar às lojas, fez um show de lançamento do novo disco, Begin to Hope, para os usuários de SecondLife.



 
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