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Os guarda-chuvas de Nova York

Em dias chuvosos, árvores de natal góticas se formam pelas esquinas da Big Apple

por Hélio Sales
de Nova York - EUA

[18/12/2006]

Após uma chuvarada, as ruas de Nova York ganham uma nova decoração. Alguém desavisado pode até sair tirando fotos, imaginando que esteja diante de obras de arte em formato de árvores de Natal góticas. Tremendo engano. Os guarda-chuvas que "enfeitam" o lixo nas calçadas de Nova York não tem nada de arte contemporânea. São na verdade o resultado de um hábito cada vez mais comum entre os cidadãos da Big Apple. Os guarda-chuvas são largados nas ruas após uma boa chuva.

 

Enquanto no Brasil as pessoas chegam a ter um guarda-chuva por anos seguidos, por aqui eles são tão desprezados quanto fraldas infantis e copinhos de café. Os motivos são vários. As chuvas rápidas, a pressa, o incômodo de carregar um guarda-chuva no metrô ou nas longas caminhadas. E até mesmo o preço.

 

Num dia de sol em Chinatown, você consegue comprar um guarda-chuva modernoso por apenas três dólares. Se o tempo estiver nublado, o preço pode subir um pouco. Se estiver chovendo, não se compra por menos que o dobro do preço original – aqui é a capital do capitalismo, darling. Até mesmo nas ruas mais turísticas e movimentadas, como a 34 Street, onde fica o Empire State, é possível comprar guarda-chuvas nos camelôs das calçadas por algo entre cinco e oito dólares. O que, para os parâmetros daqui, continua sendo um bom negócio.

 

Eu comecei a compreender o fenômeno dos guarda-chuvas no lixo quando arrumei meu primeiro emprego em Manhattan. Depois de cada dia chuvoso, os guarda-chuvas se multiplicavam de maneira absurda por lá. Os clientes entravam, colocavam os guarda-chuvas num balde do lado da porta por onde entravam e ao sair não se importavam em levá-los de volta. Como o depósito do bar já estava entupido de guarda-chuvas antigos, meu chefe me pedia pra jogar os guarda-chuvas no lixo. Dentro dos sacos pretos, as pontas dos guarda-chuvas perfuravam o plástico compondo as mais variadas esculturas.

 

Juro que pensei em juntar guarda-chuvas pra usar numa instalação de arte conceitual, performance molhada ou cenário de ensaio sensual, mas como eu nunca tive tempo de colocar estas brilhantes idéias em prática, me limitei a fazer algo mais sutil. Em dias de chuva, ao sair do bar, eu pegava dois guarda-chuvas. Caminhava até a entrada do metrô e entregava o guarda-chuva que estava usando para a primeira pessoa que encontrava saindo da estação. As reações foram das mais diversas, mas jamais recusaram o presente.

 

A graça do que eu fazia estava no fato de que qualquer um pode esquecer um guarda-chuva quando não se precisa mais dele ou nem perceber as pilhas de guarda-chuvas nas calçadas de Manhattan, mas ninguém vai se esquecer do dia de chuva em que ganhou um guarda-chuva de um estranho na selva de pedra que é Nova York.



Diana Abreu  -  Vitoria - ES  -  21/12/2006 ~ 10:22
Como nunca fui à cidade que nunca dorme, desconhecia tal fato tão corriqueiro... mas a genialidade do texto está na atitude tão inesperada! Genial! Vc está de Parabéns!

Gabriela  -  Racine  -  15/01/2007 ~ 17:24
Vc acabou de resolver um dos mistérios da vida: para onde vão os guarda-chuvas perdidos. Seguem todos para NY. Risos!!! Muito interessante mesmo os hábitos que as culturas moldam. E ninguém inventou ainda o guarda-chuva biodegradável? Pq imagina o quanto sai "caro" se livrar de tanto guarda-chuva!

 
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