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Os guarda-chuvas de Nova York
Em dias chuvosos, árvores de natal góticas se formam pelas esquinas da Big Apple por Hélio Sales
Enquanto no Brasil as pessoas chegam a ter um guarda-chuva por anos seguidos, por aqui eles são tão desprezados quanto fraldas infantis e copinhos de café. Os motivos são vários. As chuvas rápidas, a pressa, o incômodo de carregar um guarda-chuva no metrô ou nas longas caminhadas. E até mesmo o preço. Num dia de sol em Chinatown, você consegue comprar um guarda-chuva modernoso por apenas três dólares. Se o tempo estiver nublado, o preço pode subir um pouco. Se estiver chovendo, não se compra por menos que o dobro do preço original – aqui é a capital do capitalismo, darling. Até mesmo nas ruas mais turísticas e movimentadas, como a 34 Street, onde fica o Empire State, é possível comprar guarda-chuvas nos camelôs das calçadas por algo entre cinco e oito dólares. O que, para os parâmetros daqui, continua sendo um bom negócio. Eu comecei a compreender o fenômeno dos guarda-chuvas no lixo quando arrumei meu primeiro emprego em Manhattan. Depois de cada dia chuvoso, os guarda-chuvas se multiplicavam de maneira absurda por lá. Os clientes entravam, colocavam os guarda-chuvas num balde do lado da porta por onde entravam e ao sair não se importavam em levá-los de volta. Como o depósito do bar já estava entupido de guarda-chuvas antigos, meu chefe me pedia pra jogar os guarda-chuvas no lixo. Dentro dos sacos pretos, as pontas dos guarda-chuvas perfuravam o plástico compondo as mais variadas esculturas. Juro que pensei em juntar guarda-chuvas pra usar numa instalação de arte conceitual, performance molhada ou cenário de ensaio sensual, mas como eu nunca tive tempo de colocar estas brilhantes idéias em prática, me limitei a fazer algo mais sutil. Em dias de chuva, ao sair do bar, eu pegava dois guarda-chuvas. Caminhava até a entrada do metrô e entregava o guarda-chuva que estava usando para a primeira pessoa que encontrava saindo da estação. As reações foram das mais diversas, mas jamais recusaram o presente. A graça do que eu fazia estava no fato de que qualquer um pode esquecer um guarda-chuva quando não se precisa mais dele ou nem perceber as pilhas de guarda-chuvas nas calçadas de Manhattan, mas ninguém vai se esquecer do dia de chuva em que ganhou um guarda-chuva de um estranho na selva de pedra que é Nova York.
Diana Abreu - Vitoria - ES - 21/12/2006 ~ 10:22
Gabriela - Racine - 15/01/2007 ~ 17:24
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