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Mico federal
Vídeo em que um suposto laboratório americano anuncia plano de privatização da Floresta Amazônica vai parar no Senado por Marcus Cardoso
Quando o colega jornalista José Simão não se cansa de afirmar em suas colunas que o Brasil é o “País da piada pronta”, ele tem suas razões. Uma delas ficou clara na semana passada quando o senador Arthur Virgílio [AM], líder do PSDB no Senado, em plenário, pretendia alertar a nação quanto ao interesse de um “laboratório americano em privatizar a Amazônia”.
Foto: José Cruz/ABr Os jogos de realidade alternativa, mais conhecidos como ARGs, chegaram ao País por meio da revista Superinteressante e da MTV [empresas do Grupo Abril], em 2006. Mas o mais famoso até o momento é o Zona Incerta, parte de uma grande jogada de marketing iniciada em dezembro do ano passado, que envolve a Guaraná Antarctica. Na história deste jogo, que acabou por pregar uma peça no Senado e no Congresso Nacional, Miro é um biólogo botânico que trabalha em Maués, no Amazonas, para a Antarctica. No começo do ano, após fazer descobertas comprometedoras, ele teria sido seqüestrado, “deixando para trás seu laboratório todo revirado e um monte de perguntas”. Ao ressurgir, Miro afirma que o desaparecimento dele e de vários documentos comprometedores são obra da Arkhos Biotech, uma suposta multinacional americana na área de biotecnologia que defende a privatização da Amazônia como única saída para a sua preservação - no jogo, claro. Mas o senador acreditou. Acreditou no vídeo ao lado, que caiu na rede como parte integrante do jogo interativo, em que o diretor sênior de marketing da Arkhos, ‘um tal de’ Allen Perrell, aparece para lançar a campanha “Amazônia Para Todos”. _repercussão A afirmação do suposto gerente de marketing no vídeo da empresa fictícia indignou a deputada. “É um acinte tamanha manifestação”, bradou. Seu discurso foi duro e passional. “A Amazônia não é só o território, não são apenas as muitas riquezas naturais. É também o seu povo, sobretudo os habitantes das florestas. Tentativas como esta da Arkhos Biotech nos indignam profundamente.”
Já o deputado estadual Ângelus Figueira, do Partido Verde-AM, requereu de diversos órgãos federais e estaduais informações sobre o que ele chamou de laboratório norte-americano Arkhos Biotech. “Essa é uma questão de uma empresa estabelecida no Estado do Amazonas, em Itacoatiara, que propõe a internacionalização da Amazônia. Isso fere a soberania nacional”, afirmou Ângelus Figueira, no plenário da Câmara do Amazônas, no dia 29. O Jornal do Commercio do Amazonas, do alto de seus 103 anos, endossou em matéria o ato do deputado ao ‘apurar’ que a empresa [Arkhos] teria unidade no município de Itacoatiara [AM] e defenderia em seu site a “privatização da floresta amazônica, acusando o Brasil de incompetência na preservação da floresta.” Ainda de acordo com o jornal, a Arkhos Biotech seria uma líder mundial na venda de concentrados naturais extraídos da Floresta Amazônica. Sendo que, na verdade, a Arkos não passa de uma empresa fictícia, uma entre tantas personagens de toda a trama inventada pelo jogo de realidade alternativa para promover o Guaraná Antarctica. Para o jornal concorrente, Diário do Amazonas, “foi aberta, novamente, a ‘temporada de caça’ ao ‘inimigo estrangeiro’ interessado em garfar, sorrateiramente, a Amazônia.” De acordo com editorial do jornal, o estopim da nova onda de boatos e discursos inflamados foi o site da empresa Arkhos Biotech, que lançou a campanha “‘Amazonas para todos’, inspirada, quem sabe, no slogan do governo Lula, “Brasil para todos.” E continuam: “a intenção de cometer um ato ilícito está tão explícita no site, que as autoridades tendem a tratar a questão como uma espécie de ‘trote’. No entando, cabe aqui tratar da verdadeira ameaça interna à região.”
_e por falar em insistência... _MANIFESTAÇÃO NA VISITA DE BUSH _POLÊMICA ANTIGA A Agência Amazônia, que se gaba de ter revelado o caso Arkhos com exclusividade e ter feito o assunto repercutir no congresso, foi além. Em matéria intitulada “Vídeo Arkhos é crime contra a soberania nacional”, publicada no dia 29, com a assinatura de Chico Araújo, a agência alardeia: “pena: reclusão, de 4 a 20 anos, prevê a Lei 7.170/83.” Mais que isso, eles consultaram advogados que afirmaram que “o atentado à soberania do Brasil fica claro quando o Allen Perrel, tido como gerente de marketing da empresa, apela: ‘ajudar-nos a comprar a Amazônia não é apenas uma ótima oportunidade de investimento. Pode ser a única maneira de salvar a floresta da extinção total’”. Para eles, além deste crime, a Arkhos pode ser acusada de “incitar a prática de estelionato, na medida em que põe à venda um patrimônio que não pertence à empresa.” Os advogados consultados pela Agência Amazônia não tiveram suas identidades reveladas. A reportagem chegou a duvidar da existência da Agência Amazônia. Afinal, no meio de tanta realidade paralela, ela poderia ser mais um personagem do jogo promovido pela Guaraná Antarctica. Procurado por Paradoxo, Chico Araújo, diretor da agência sediada em Brasília, se sentiu ofendido quando questionado quanto à realidade de sua empresa. “Brincadeira não, aqui a gente faz um trabalho sério”, se defende. “A Agência Amazônia se preocupou com o crime contra a soberania nacional cometido por essa empresa. Agora, se a empresa é falsa, se a Guaraná lançou uma brincadeira, vai ter que arcar com as conseqüências.” Em nota divulgada à imprensa, a Antarctica, patrocinadora do jogo, esclareceu: “O Guaraná Antarctica aderiu a uma ferramenta de marketing inovadora e diferenciada, o ainda pouco explorado ‘alternate reality games’ [ARGs], jogo que convida os consumidores da marca a desvendar um mistério. A ação gira em torno da fórmula secreta do Guaraná Antarctica". No dia 27, ao final do discurso, o senador Arthur Virgílio foi enfático: “pensam eles que a Amazônia está à venda. Ela não está à venda!”. Pensa ele que isso tudo foi verdade. [reportagem apurada do dia 29 para o dia 30/03]
Marcus Vinícius - Maceió - 22/04/2008 ~ 12:04
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