Em boa parte do Brasil, a passagem do verão para o outorno e do inverno para a primavera é sutil, quase despercebida. Aqui nos Estados Unidos, além da diferença entre as quatro estações ser sensivelmente perceptível, o começo da primavera é sempre um evento na vida de praticamente todo mundo. Até dos corridos nova-iorquinos.
Em Nova York, os dias não são mais tão frios, curtos e acinzentados, e todos aqueles casacos pesados que passam apressados pelas ruas de Manhattan acabam por serem esquecidos em algum armário..Na paisagem urbana, uma das principais mudanças são as mesas extras que invadem as calçadas em frente aos restaurantes. E, claro, as árvores deixam de ser esqueléticas e, com diferentes tons, vão se enfeitando de novo.
Por mais que as praias de Nova York não sejam lá a oitava maravilha do mundo, elas quebram o galho. Por lá, não há coqueiro, o que para um brasileiro nato é uma falta gravíssima. Mas depois de um inverno terrível, qualquer caminhada na areia com temperatura acima de 10ºC se parece com um paraíso tropical.
_quer dar uma voltinha na Cyclone?
Vale lembrar que os saquinhos plásticos estão no bolsão a frente de seu assento
Como o momento é de transição e a água do mar ainda está bem gelada para um mergulho, não vale a pena investir num final de semana em Hamptons ou em outras praias mais badaladas. Por conta disso, juntei os amigos e fomos para Coney Island, no finalzinho do tradicional bairro do Brooklyn. Tudo isso para celebrar um dos primeiros finais de semana “mornos” da primavera aqui no hemisfério norte.
Tomei um solzinho, um sorvete com gosto de nada, cachorro-quente e, lembrando de uma letra de um disco do Lou Reed chamado Coney Island Baby, entendi um pouquinho do “crazy feeling” que o lugar passa para as pessoas.
O calçadão de Coney Island já é um acontecimento. Barzinhos trash oferecem drinks especiais de piña colada em copos de plástico super-coloridos. O Astroland, famoso parque de diversões da região, também desperta curiosidade. Entre velhinhos em suas caminhadas de fim de tarde e centenas de gaivotas barulhentas, os clientes dos bares mais parecem platéia de showzinho indie do que pessoas interessadas em sol e mar. Na verdade, depois de tanta bizarrice e informação visual, o mar era o que menos recebia atenção por ali.
_freak show
O primeiro susto veio de um senhor no calçadão, que anunciava seus serviços em um microfone. Ele mexia com quem estivesse passando por perto e tentava vender seu “produto”, que era nada menos que um tiro ao alvo humano. Resumindo: por dois dólares, você pega uma das armas de paint ball no balcão, dá um tiro no coitado do alvo e sacia seus possíveis instintos assassinos [?!]. Três tiros por 5 dólares. Recusada a oferta, ele começou fazer propostas ainda mais ‘tentadoras’.“Três pessoas atirando ao mesmo tempo por cinco dólares”, “dez dólares e eu mando ele ficar sem camisa”. O jeito foi correr dali.
Entre um sorvete e outro, fui parar no prédio onde em todos os verões acontece o famigerado Freak Show. Eu, que pensava já ter visto de tudo nessa vida, fiquei de queixo caído com o circo de aberrações de Coney Island. Seis dólares por cabeça e assistimos a um show de pouco mais de meia hora, em que seres como a Insectívora, a Mulher-Sereia e a Serpentina executaram performances de deixar qualquer integrante do Jack Ass de cabelos em pé. Junto com números circenses tradicionais, como demonstrações de elasticidade e engolidores de facas, estão performers para lá de corajosos afundando pregos de 15 centímetros na cabeça ou comendo suculentos gafanhotos vivos. Yummy!
Ainda hoje, Coney Island parece ser a mesma do disco Coney Island Baby, do Lou Reed, de 1976. Da tranqüilidade das pessoas à estação de trem, totalmente retrô em seus azulejos coloridos e levemente psicodélicos, passando ainda pelas opções de diversão que sim, são bem aproveitadas pelos moradores do local e permanecem incólumes ao passar do tempo. Não é à toa que foi por lá que o roqueiro se refugiou para escapar das drogas e da vida bandida que levava até então. O resultado foi um álbum em que em vez de cantar sobre overdoses e travestis, Reed cantou o amor.
Foto: Stephen Carr Esta visita a Coney Island já teve gosto de saudade. Na meca do capitalismo, nada fica “parado no tempo”. A Nickelodeon e a Disney disputam a compra do charmoso parque Astroland e a prefeitura de Nova York já quer demolir prédios antigos para a construção de shoppings e complexos turísticos de última geração. Daqui a pouco tempo, esbarrar num Bob Esponja tamanho família será a coisa mais excitante que pode vir a acontecer por lá. Mas, ainda assim, será possível tomar sol, passear à beira mar ou – por que não? – atirar em alguém.