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Do lixo ao luxo

Saturday night em Nova York - do East ao West Village

por Hélio Sales
de Nova York - EUA

[30/05/2007]

O combinado era o seguinte: estávamos todos mortos depois de passar o sábado em Brighton Beach, portanto nada de balada, já que no dia seguinte iríamos à praia outra vez. Mas às 23h o que se escutava entre os amigos pela casa eram murmúrios quanto a estar em Nova York e passar uma noite de sábado em casa, vendo TV. “Só se vive uma vez”, protestou um pelo corredor. Como durante o dia declinamos todos os convites e possibilidades de festas e baladas, fizemos o que se faz quando não se tem pra onde ir em Manhattan: fomos para o Lower East Village.

Por quê? Simples. Bares de todos os estilos possíveis, uma cena musical bem diversificada e muita gente jovem. Estacionamos o carro na primeira vaga que apareceu e fomos caminhando pelas ruas, sem rumo, até encontrarmos um lugar que agradasse a todos. Optamos pelo Pianos. Uma fila não muito grande na porta, um público descolado e um segurança sorridente na porta - o que é quase um milagre por aqui. Entramos.

De cara, um bar tradicional, com uma porta aos fundos que dá acesso à sala onde acontecem os shows. Subindo as escadas, um lounge com DJs tocando música eletrônica. Dos três ambientes, o menor e o menos cheio era local do show, além de ser também o mais escuro. Mas foi onde resolvi ficar, já que a noite pedia um show de rock alternativo, principalmente pelo fato de para aquela noite estar escalada uma banda que nunca vi na vida.

                                             “Hello New York City! We are The Audiologues, from Ohio!”

Pouco mais de vinte pessoas assistiam ao show e a receptividade do público me deixou irritado. Tudo bem que público americano é comumente frio, que a banda era desconhecida por 99% presentes e tudo mais, mas quando Richard, o vocalista, falava com a platéia, ninguém respondia nada. E foi assim até o final.

As músicas do grupo chegaram a empolgar o pequeno público, que esperava o último acorde de cada uma delas para bater palmas no final. Mas a poeira e uma única alma viva [e extremamente bêbada] só se levantou e dançou como uma louca quando eles fizeram uma cover de 12:51, dos Strokes.

O show do trio de Ohio foi muito bem executado. O vocalista se dividia entre o teclado e a guitarra, e o baterista largou as baquetas numa das últimas músicas para assumir o teclado. Os meninos mostraram experiência com platéias difíceis, respondendo às piadinhas do público à altura, com ironia e bom-humor. Além de mostrarem seu som, de influência britpop escancaradas.

_depois do show, audiologues conversou com paradoxo:
Revista Paradoxo - Vale a pena sair de Ohio para tocar em Nova York para um público tão pequeno e pouco receptivo?
Richard Pan - Lógico! Muitas bandas boas acabam só acontecendo de verdade em NYC. Não tínhamos grandes expectativas em relação ao show. O importante é fazer contatos, conhecer gente, tocar nossa música... Depois desse show, vai ficar mais fácil voltar aqui, conseguir um lugar maior.

RP - Vocês são de Ohio, mas o som de vocês é muito influenciado por...
Richard Pan - Inglaterra, Inglaterra e Inglaterra! Radiohead, Coldplay, Keane, Beatles...

RP - Mas o público delirou mesmo quando vocês tocaram 12:51 dos Strokes.
Richard Pan: Claro! Não tem nada mais Nova York que Strokes.

RP - E você, Chris, quais são as suas influências como baterista?
Chris Roblee - [longa pausa] Eu gosto de IDM [Intelligent Dance Music]. É basicamente o que eu escuto o tempo inteiro...

RP - Então você não tem um baterista que te fez ter vontade de começar a tocar bateria, aquele blabalablá básico de músico?
Chris Roblee - [risos] Não! Eu escutava bandas como Appex Twin, UNKLE etc., e queria sair tocando qualquer coisa de qualquer jeito!

RP -  Mas essas bandas sequer têm bateria... quer dizer, não como a bateria que você toca! Quer dizer que as suas influências não são as mesmas do Richard? Nada de britpop?
Chris Roblee - Ok, você venceu. Na segunda música do show de hoje eu copiei a virada da bateria de Airbag, do Radiohead!

_after party
Três e pouco da madrugada e o Pianos começava a esvaziar. Fomos convidados para a próxima parada da banda, uma after party no Sway, no West Side de Manhattan, aquelas casas noturnas do tipo que só entra quem a hostess conhece - ou quem consegue levá-la no papo, tarefa nada fácil. Ingênuos, fomos para lá antes da banda e, claro!, fomos esnobados pela antipática ’porteira’ do local. Ela pediu, inclusive, que não ficássemos na frente do bar. Aviou ainda que se insistíssemos, os enormes seguranças tomariam conta da gente. A esta altura, eu já tentava convencer o pessoal a desistirmos e ir para outro lugar ali por perto. Até porque, pela fachada, o lugar nem era lá essas coisas. Mas os meninos do Audiologues chegaram e carimbaram nosso ‘passaporte’ com o visto que nos permitia acessar aquele mundinho.

Aí aconteceu aquele momento clássico de quem sai em Nova York, quando você acha que um lugar é uma bagaceira completa até entrar e ser praticamente teletransportado para outro mundo. Tudo no Sway exalava luxo e ostentação num estilo marroquino pós-moderno. Da decoração à iluminação, passando pelas barmaids, que pareciam ter saltado de capas da Vogue. Tudo ali era excessivamente... demais! Na pista, todos exibiam suas roupas de grifes famosas e, com ar blasé, se comportavam como se fossem estrelas de cinema. Para completar a cena, noite daquele dia na Sway trazia um DJ bom - o que é raro - tocando IDM.

Não que o Pianos seja um barzinho 100% underground, era até simpático. Mas o Sway era praticamente seu extremo oposto. Em todos os sentidos. Nós, da Paradoxo e até mesmo os meninos da banda nos divertimos no Sway comparando justamente essas diferenças. E rimos do fato que se eles não fossem uma banda e nós seus convidados, nenhum de nós jamais conseguiria entrar ali.

Todas aquelas caras de paisagem, cheias de atitude forçada levavam qualquer reles mortal a concluir que ter conhecido ou não o tal do Sway, em nada mudaria o curso da vida. Mas já que estávamos lá, não custava nada experimentar o Martini da casa. E o Manhattan. E o Cosmopolitan... Como disse alguém no começo da noite, “só se vive uma vez”, o que, por coincidência, eu descobri que também é o nome de uma música dos Strokes [You Only Live Once].
E justamente por isto, não deixamos de ir para a praia no dia seguinte. De óculos escuros, claro!

_para ouvir




 
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