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Especial Radiohead – 10 anos de OK Computer

O segundo maior disco da história do rock. Do rock?

por Daniel Faria
[23/06/2007]

 

Quais são os fatores que determinam um clássico? Relevância histórica, estética cultural inovadora, obra influenciadora das gerações posteriores? Para o universo da música pop, tão fugaz e tão recente – afinal, música como produto é fenômeno de pouco mais que a metade do século 20 – é ainda mais complicado traçar objetivos do que deve ser considerado um disco indiscutível.

 

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A trajetória de uma banda que carrega a responsabilidade de ser um clássico do rock

 

Confira aqui a análise faixa a faixa deste que é o sétimo álbum

Há, obviamente, os consensos. Mas quais seriam? no Sgt. Peppers e Pet Sounds. Provavelmente são os dois únicos discos em que pareceria absurdo discutir sua importância e originalidade. Mas ambos os discos já completaram 40 anos, e hoje é mais confortável analisá-los conhecendo o contexto histórico e as circunstâncias em que foram criados. Mas e um disco de 1997 chamado OK Computer, de uma banda inglesa, o Radiohead, que semanas após seu lançamento já era denominado genial pela quase unânime opinião dos críticos no mundo inteiro? Houve tempo suficiente para isso?

 

Pergunta difícil. Se levarmos em conta alguns fatores comuns às obras-primas do rock, pode-se dizer que o Radiohead está alguns degraus acima de toda sua geração roqueira pós-Nirvana. E não seria exagero dizer que desde os Beatles uma banda de rock não alcança tanto reconhecimento e sucesso comercial aprimorando a seguinte equação: artifícios típicos da música popular, como guitarras, baixo, bateria, vocais e teclados; mais experimentações eletrônicas de estúdio; e, finalmente, a influência de música clássica de vanguarda. Os membros da banda vivem comentando que o compositor polonês classicista pós-moderno, Krzysztof Penderecki, foi a principal fonte de inspiração para o disco. Não que isso valide a obra, mas é interessante como o Radiohead soube experimentar essa equação e ainda assim conseguir um produto consumível para as grandes massas.

 

Existiram sim, nesse intervalo 1967-1997, discos que procuraram absorver a ligação entre a estética rock e as experimentações vanguardistas de sua época. Podemos citar David Bowie e sua trilogia de álbuns gravados em Berlim no final dos anos 1970, com Brian Eno - a saber, Low, Lodger e Heroes. Ou então o refinamento art-rock do Roxy Music. Ou até mesmo o Screamadelica, do Primal Scream, numa escala menor, antecipando muito do que seria a década de 90 [Radiohead inclusive].

 

Alguns podem citar o Kraftwerk, mas estamos falando da simbiose entre música orgânica/não-orgânica, e o Kraftwerk, como bons alemães que são, soam muito mais robóticos do que humanos. Mas OK Computer é mais coeso e regular do que todos esses discos, e teve repercussão maior.

 

Os clipes dos singles tocavam com freqüência na MTV, a banda era assunto em todas as publicações especializadas e mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo compraram o disco, não apenas guetos alternativos e estreitamente preocupados com evoluções do estilo. Novamente, isso não valida a obra, mas demonstra como o disco conseguiu travar um diálogo interessante tanto com o público geral quanto com os críticos mais ferrenhos e precavidos com o rock. Procure na Internet, o número de artigos de pesquisadores musicais ligados ao jazz ou à música clássica sobre o Radiohead impressiona.

 

Há outro fator que diferencia o disco em relação ao rock e que o aproxima ainda mais do disco dos Beatles. As letras são descritivas e analíticas, preocupadas em retratar a angústia do fim do milênio, do cidadão comum que não consegue viver longe da modernidade tecnológica que o cerca. A precisão em retratar o momento é quase a mesma que o quarteto de Liverpool conseguiu com músicas como She’s Leaving Home e principalmente A Day In The Life. Sim, são épocas e temáticas diferentes, mas a maneira encontrada por ambas as bandas em criar instantâneos das respectivas décadas guarda semelhanças. A melancolia estampada, o sentimento de vazio perante as mudanças que o momento prenunciava [lembre-se, a década de 60 é a virada cultural e moral, a década de 90 é a virada tecnológica], está tudo documentado e poeticamente bem trabalhado nos discos.

 

O disco do Radiohead perde pontos se comparados a outros ditos clássicos quanto a sua influência posterior. Tudo bem, Coldplay, Travis, Muse, todas essas bandas lembram e muito a banda de Oxford. Mas não no sentido libertador que os Beatles propuseram para as bandas da sua época [vide os Rolling Stones, até então recicladores do rock‘n’roll negro americano, gravando discos psicodélicos como o Their Satanic Majesties Request ou o próprio Beach Boys tentando criar um sucessor para o disco de 1967 dos Beatles, processo que levou Brian Wilson a loucura], e sim como uma tentativa de apresentar uma versão não tão complexa e mais banal da obra do Radiohead para o grande público.

 

Chris Martin, do Coldplay, por exemplo, afirmou que sua banda é a versão “diet” do Radiohead. Mas isso é culpa da própria criatividade absurda do OK Computer, que exauriu todas as possibilidades de evolução da música rock. Para continuar atuante, o grupo de Thom Yorke decidiu abandonar a indumentária roqueira e procurar novas fronteiras para sua obra. Por isso discos estranhos e anticomerciais como Kid A e Amnesiac. Mais do que pretensão desmedida, isso é sobrevivência.

 

Hoje o cenário é desolador para o surgimento de discos como o OK Computer. O rock mundial entrou num coma criativo, que valoriza a urgência de bandas como o Arctic Monkeys e o Franz Ferdinand. Nada contra esses bons grupos, responsáveis pelo que há de mais divertido e tipicamente juvenil no rock. Convenhamos que elas não são bandas necessariamente criativas e originais. Mas deixe estar. Esperaram 30 anos por um sucessor à altura do Sgt. Peppers. Esperemos outros 30.



fagner  -  recife  -  09/03/2009 ~ 15:10
bem... Smile dos Beach Boys não ia um sucessor do Sgt Pepper's, pois o mesmo foi cancelado antes do lançamento do Sgt...

 
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