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Especial Radiohead: 10 anos de OK Computer
A trajetória de uma banda que carrega a responsabilidade de ser um clássico do rock por Daniel Faria
O mundo da música era bem diferente há dez anos. Três anos após Kurt Cobain estourar os miolos e três anos antes de nosso mundo pós-Jesus Cristo completar 21 séculos de vida, 1997 era um ocaso: existem cenas, mas não existem movimentos. A canadense Alanis Morissette vende milhões de cópias com Jagged Little Pill, liderando uma nova geração de garotinhas feministas, o britpop começa a agonizar quando o Oasis lança o incompreendido Be Here Now, as desmioladas Spice Girls promovem soft-porn para crianças e a emergente música eletrônica embala festas raves regadas a muito ecstasy. É o fim do século como nós o conhecemos e eu não me sinto bem. Nesse cenário aparentemente desorganizado, alguém seria capaz de parir o retrato ideal, um instantâneo da sua época, para ser lembrado por gerações futuras? Quando o quinteto inglês Radiohead, colocou seu terceiro disco nas lojas, em junho daquele ano, a reação da crítica foi praticamente unânime: OK Computer era o último grande álbum de rock do século 20. A banda estampou várias capas das principais publicações especializadas, seus clipes tocaram com freqüência na MTV, os shows eram concorridos, além do sucesso popular com as mais de 5 milhões de cópias vendidas. Os leitores da revista inglesa Q, por exemplo, elegeram OK Computer o “melhor disco de todos os tempos”. Todos os tempos. _escalando as paredes O status da banda melhorou após seu segundo disco, o lindo The Bends, de 1995. Mais de dois milhões de pessoas compraram o álbum, incluindo fãs ilustres como Michael Stipe, do R.E.M, e Courtney Love. Sobre a composição do disco, Thom Yorke diz: “compus as músicas no fundo do ônibus da turnê, bêbado, me sentindo mal. Eu achava que deveria ser um artista torturado”.
O sucesso de The Bends foi suficiente para a gravadora conceder total liberdade para o terceiro disco, intitulado inicialmente de Ones And Zeros. Para produzir, Nigel Godrich, que já havia trabalhado com a banda na música Lucky, incluída na coletânea Help!, cuja renda era destinada às vítimas da guerra na Bósnia. Dizem que a música relata a recusa de Thom Yorke em participar de uma reunião com o primeiro ministro inglês Tony Blair. No início de 1996, o produtor monta um estúdio móvel, batizado de Canned Aplause, próximo a cidade natal da banda, Oxford, e até o meio do ano já tinham quatro músicas prontas, No Surprises, Subterranean Homesick Alien, Electioneering e The Tourist. Essas novas músicas são testadas ao vivo numa pequena turnê de 13 shows pelos Estados Unidos como banda de abertura para Alanis Morissette, em agosto de 1996. Em setembro, a banda aluga uma mansão que havia sido propriedade da atriz Jane Seymour, na pequena cidade de Bath, para concentrar os esforços na conclusão do novo álbum. Com a obra em mente, tudo o que a banda não precisava eram distrações típicas de cidade grande, por isso a escolha de gravar em uma mansão e em uma cidade pequena. “Nós tocávamos no salão de baile e os equipamentos de gravação foram montados na biblioteca, que tinha uma vista para os jardins. Foram várias noites mágicas com as janelas abertas enquanto tocávamos”, lembra o baixista Colin Greenwood. O multi-instrumentista e nerd musical Jonny Greenwood relata: “a principal diferença na atmosfera desse álbum em relação aos outros foi a experiência de estúdio. Éramos pessoas da mesma idade gravando um disco em um lugar completamente isolado. Estávamos todos no mesmo estágio de nossas vidas e trabalhando juntos por algo. Isso era ótimo.”
Para uma banda que era comparada com o Nirvana no primeiro disco e com o U2 no segundo, era uma evolução e tanta em busca do som ideal. As referências usadas para produzir OK Computer não são exatamente as mais comuns para um disco de rock. A bateria de Airbag, por exemplo, é inspirada, segundo o próprio baterista Phil Selway, no disco Entroducing, do DJ Shadow. Let Down buscou o estilo Wall Sound do produtor Phil Spector, e o som da guitarra de No Surprises foi a tentativa de O’Brian em soar como os Beach Boys. Thom diz que o violão de Exit Music [For A Film] é puro Johnny Cash e que pensava em Nick Drake todo o tempo. Já os Beatles ajudaram o Radiohead a criar seu épico de seis minutos, Paranoid Android. A banda criou a canção pensando em Happiness Is A Warm Gun, pela divisão de estruturas, formando uma única canção. Além disso, a banda tocava I Am The Walrus na mansão para inspirar o ambiente. Dá para imaginar? _enfim, pronto “Não nos deram prazos e tínhamos completa liberdade sobre o que queríamos. Nós acabamos atrasando porque estávamos um pouco assustados de ver o resultado final”, explica Ed O’Brian. “A pressão maior foi finalizar o disco”. Jonny completa: “o pessoal da gravadora fez uma previsão de quantas cópias eles planejariam vender com o OK Computer, antes de ouvir o disco. Então ouviram e diminuíram a previsão pela metade.” Em maio, como é costume na Inglaterra, um single é lançado para anteceder o álbum, e a faixa escolhida, Paranoid Android, com seus seis minutos e meio de experimentações com eletrônica e distorções, é bem recebida pelo público inglês. O single atinge o terceiro lugar nas paradas do Reino Unido, a mais alta da banda até então. Finalmente, em 16 de Junho de 1997 OK Computer é lançado e vai direto ao terceiro lugar na lista de discos mais comprados pelos britânicos. O álbum ganha atenção especial da gravadora, com uma atuante campanha de divulgação por toda a Inglaterra. As vendas vão aumentando gradativamente, principalmente nos Estados Unidos, muito graças aos videoclipes originais de No Surprises e Karma Police. A banda é indicada ao Grammy de “melhor álbum do ano”. O Radiohead se tornara a maior banda do mundo. “Estávamos muito orgulhosos do que fazíamos quando gravávamos o OK Computer”, diz O’Brian. “Há uma lição para se aprender nisso tudo: fica implícito que as gravadoras e as rádios subestimam o que o público geral é capaz de ouvir. Isso não tem nada a ver com a mentalidade das pessoas. Nós somos pessoas e fizemos isso, outras pessoas também o podem."
_vida após o disco Havia ainda a pressão para o próximo disco. Como ‘superar’ um trabalho tão bem sucedido quanto OK Computer? “O reveillon de 1998 foi um dos pontos mais baixos da minha vida. Sentia que estava enlouquecendo”, lembra Yorke. Kid A, lançado no final de 2000, marcava um novo momento para a banda, após o quase fim do Radiohead em um período conturbado de bloqueios criativos e duelo de egos. O disco era ainda mais difícil e estranho que o anterior. Pouquíssimas guitarras, minimalista, recheado de texturas eletrônicas e influências free jazz, ainda assim o disco alcançou o topo na parada de mais vendidos nos Estados Unidos e na Inglaterra. Até no Brasil o disco conseguiu entrar no Top 10. Em junho de 2001 sai Amnesiac, compilação de sobras de estúdio das sessões de gravações de Kid A. O Radiohead deixara o rock para trás. O último disco oficial da banda é de 2003, o elogiado Hail To The Thief. A banda está atualmente sem gravadora e trabalha em estúdio no sétimo disco de inéditas com o produtor Nigel Godrich em várias cidades pela Inglaterra. Fotos:Corbis
João Carvalho - da Redação - 29/06/2007 ~ 01:00
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