Não existe personagem no rock dessa década como Jack White. O guitarrista e vocalista do White Stripes, duo seminal de Detroit que ele mantém com sua irmã-ou-amante-ou-ex-mulher, a baterista Meg White, carrega praticamente sozinho a aura de herói do rock, naquela acepção clássica que os anos 1970 ensinaram. Entre seus fãs ilustres estão gente como Lou Reed, Iggy Pop, Loretta Lynn e Bob Dylan.
Ele é responsável pelo maior riff arrasa-quarteirão dos últimos tempos, de Seven Nation Army, que já foi entoado até pela torcida da seleção italiana na última Copa do Mundo. Ele é obcecado pelas cores preto, vermelho e branco. Ele também liderou o Raconteurs, sua banda paralela e que lançou um dos melhores álbuns de 2006, Broken Boy Soldiers. E ainda achou tempo para se casar com a modelo Karen Elson em Manaus, durante turnê pelo Brasil, em 2005.
Icky Thump, o sexto disco de inéditas da dupla, entrou direto na primeira posição de mais vendidos no Reino Unido e em segundo lugar na parada da Billboard. O último álbum, Get Behind Me Satan, assustou aos fãs, deixando as guitarras – o grande trunfo dos Stripes – de lado para apostar nas raízes do folclore americano. Por isso a euforia com esse Icky Thump. É o clichê maior ao se falar da dupla, mas impressiona saber que todo aquele barulho é produzido por somente um casal de branquelos americanos na casa dos 30 anos. As guitarras estão altas novamente e isso é motivo para comemorar.
_o disco
O que o White Stripes tem de melhor? Riff marcantes, resgatando o peso do hard rock dos anos 1970 do Led Zeppelin e do Deep Purple? O vocal esganiçado de Jack, no melhor estilo Brian Johnson, do AC/DC? A bateria rústica e de pouca técnica, mas cheia de energia primal, de Meg? Tem tudo isso em Icky Thump, a música que abre e dá nome ao álbum. A letra é um manifesto contra a construção do Grande Muro entre Estados Unidos e México - planejado para barrar a imigração ilegal. Agora, Jack White também é defensor dos mexicanos?
You Don’t Know What Love Is [You Just Do As You’re Told] tem sabor de classic rock de FM e é a melhor do disco. Parece que você já ouviu a música antes, mas fique tranqüilo, o White Stripes sempre passou essa impressão. A seguinte, 300 MPH Torrential Outpoor Blues, por exemplo, poderia facilmente passar por uma música de Bob Dylan tocada pelo Led Zeppelin.
Conquest é a grande surpresa do disco. Cover de um hit da década de 50, de Patti Page, a canção virou uma brincadeira de apelos caribenhos, com um estranho e solitário solo de trompete no meio da canção. Surreal. Bone Broke é o blues-punk característico do White Stripes, e Prickly Thorn, But Sweetly Worn faz homenagem a sonoridade celta, com direito ao uso de cítaras e oboés. Na seqüência, Meg canta St. Andrew [This Battle Is In The Air], rápida e estranha vinheta.
Para quem quer saber o que fez a fama da dupla, ouça Little Cream Soda e “Rag And Bone”. A primeira é a prova de que Jack é o guitarrista mais criativo de sua geração, “oh well, oh well, oh well”. A segunda é uma espécie de jam session, num dialogo non-sense entre o casal. “I’m Slowly Turning Into You” é conduzida por um órgão que parece uma guitarra, ou seria o contrário? “A Martyr For My Love For You” é a épica, a história da garota de 16 anos que arrebata o coração do narrador, bem folclórica, a mais séria do disco.
Se a principal qualidade do White Stripes é tornar explosivas as tradições da música popular americana, as duas últimas canções de Icky Thump cumprem bem com suas funções. Catch Hell Blues é puro blues zeppeliano e a semelhança com a guitarra de Jimmy Page e a voz de Robert Plant chega a pensar que Jack atravessou a linha da simples homenagem para o quase-plágio. “Effect And Cause”, folk dylanesco, com um ar paródico, bem a cara da dupla, fecha o disco.
Icky Thump é, junto com Era Vulgaris, do Queens Of The Stone Age – a outra banda verdadeiramente rock da década –, o disco que deve agradar indies, roqueirinhos saudosistas e fãs de boas guitarras. Se você tiver menos de 20 anos, ainda melhor. Alegre-se, você está muito bem servido.