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Desde que o Samba é Samba é assim

Super-grupo de artistas cariocas, Orquestra Imperial busca um resgate estético da tradicional MPB em seu disco de estréia, Carnaval Só Ano Que Vem

por Daniel Faria
[01/08/2007]

Parece brincadeira, e na verdade é. O que começou como festa, acabou virando a grande promessa de revitalização da música brasileira. São 19 integrantes, entre eles alguns dos mais talentosos artistas da atual geração do País. Veja só: o badalado produtor Kassin, o guitarrista Pedro Sá, Moreno Veloso, produtor de , do pai Caetano, Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, a estilista Nina Becker, a atriz global Thalma de Freitas, entre muitos outros, são os membros da Orquestra Imperial. Seu primeiro disco, Carnaval Só Ano Que Vem, também será lançado na Europa e no Japão. Ainda não é um “movimento”, mas o coletivo está causando burburinho há tempos não visto aos interessados na música popular contemporânea feita por aqui.

 

Para se ter uma idéia, nomes de peso já participaram das concorridas apresentações do super-grupo, como Caetano, Marisa Monte, Erasmo Carlos, Lobão, Andréas Kisser [guitarrista do Sepultura], Zeca Pagodinho e Seu Jorge, antigo crooner do conjunto e que abandonou o barco no meio do caminho. O ecletismo dos convidados ilustres demonstra bem o que é a Orquestra Imperial: boleros, marchinhas de carnaval, canções infantis e até clássicos do rock progressivo em versão samba. Tudo com o intento de fazer dançar, como uma autêntica orquestra de gafieira.

 

E a fórmula funciona. Seus shows são sempre procuradíssimos. A Orquestra surgiu quando Kassin e o baterista Domenico Lancelotti decidiram colocar em prática o velho sonho de montar uma Big Band de baile, como antigamente. Um dos produtores do disco, Berna Ceppas, era sócio de um restaurante da Gávea e conseguiu uma noite semanal para o grupo.

 

Após poucas apresentações, a banda se tornara fenômeno no Rio. Logo, agregando membros mais ou menos experientes com os bens sucedidos shows, a banda chegou a tocar em Portugal, França e em Londres, numa exposição sobre o Tropicalismo, que aconteceu no Centro Cultural Barbican Centre, em maio deste ano.

 

Apadrinhado pela velha geração, com apoio de grande parte da imprensa e de um número crescente de fãs, desde a classe média descolada, universitários neo-hippies a tradicionais pesquisadores de samba, o primeiro disco da Orquestra Imperial veio recheado de expectativas. Ainda mais com a promessa de um álbum com apenas canções próprias, sem as versões que eram a graça das festivas apresentações. Carnaval Só Ano Que Vem deve agradar a todos.

 

_samba descompromissado

É preciso, porém, com o disco pronto, saber controlar o entusiasmo. E entender qual é realmente a proposta desse coletivo de artistas. Primeiro, o grupo não procura traçar novos caminhos para a música popular brasileira, como fizeram os tropicalistas - comparação usual com a Orquestra Imperial. Muito pelo contrário: se aqueles pretendiam polemizar, estes só querem se divertir.

 

Segundo, a pretensa modernização do samba, como andam propagando por aí, não existe. Sim, alguns efeitos eletrônicos surgem aqui, algumas guitarras atrevidas dão a cara ali, mas no geral, Carnaval Só Ano Que Vem é puro saudosismo do samba travestido de homenagem moderninha.

 

As canções variam entre Bossa easy listening [a melancólica O Mar e o Ar, cantada por Amarante, e Rue Des Mês Souvenirs, em francês perfeito de Nina Becker são as melhores do disco] sambões [Era Bom, puro Zeca Pagodinho e Salamaleque], típicas orquestrações de baile [Yarusha Djaruba e a ótima Ela Rebola] e uma homenagem pseudo-tropicalista para Alegria, Alegria, do mestre Caetano em Supermercado do Amor, com letra do “vampiro” Jorge Mautner.

 

As letras do disco são tão despretensiosas que às vezes beira o banal. Alguns trocadilhos vulgares, algumas referências sexuais e versos de qualidade duvidosa como “ela rebola daqui/ ela rebola de lá/ mas pra mim, bola ela não dá” [Ela Rebola], ou “a ereção não tem hora para chegar/ com ou sem emoção em festa ou particular” [Ereção]. Tem pouco de espírito desbravador e muito de diversão, descompromisso e liberdade estética no disco. Afinal, disso é feito o samba. São jovens cariocas querendo se divertir. Caso divirta o público, tanto melhor.

 

      
                Foto: Divulgação



 
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