É o conceito perfeito: digerir todo tipo de cultura, erudita ou não, e devolvê-la como um produto original, provocativo. Há quem trate o Tropicalismo como continuidade do Movimento Antropofágico, dos modernistas ligados a Semana de 22 [Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral], mas há de se perceber que os baianos buscaram um outro horizonte. Não tinham um planejamento bem definido. Agiam como liquidificadores: condensavam tantas influências quanto eram capazes, numa mistura que deveria soar ainda assim agradável ao cidadão comum.
Tome o exemplo de uma música como Alegria, Alegria. Consegue ao mesmo tempo ser marchinha carnavalesca e melodicamente pop como os Beatles, vai desfilando detalhes pela letra, como se descrevesse uma caminhada por uma avenida de cidade grande. É a percepção de exercer tudo ao mesmo tempo, não perder uma única referência. É marco zero do pós-modernismo no País. O kitsch agora era válido, o banal poderia conviver lado a lado com o erudito. Abaixo a divisão entre baixa e alta cultura!
O que é um perigo. Por que o conceito é tentador demais para ser ignorado. Coloca o Brasil no lugar de cosmopolita, central e processador de informações da cultura do mundo. Hoje em dia, só se credita talento no País para quem ainda vê a música como os tropicalistas definiram nos anos 1960. É assim que aconteceu o sucesso [de crítica ao menos] de Marisa Monte, do mangue beat, dos Los Hermanos, e agora da Orquestra Imperial. A idéia continua a mesma: apresentar uma versão moderna do produto tipicamente nacional, venha de onde vier esse produto.
Por exemplo, Caetano é capaz de gravar canções de Peninha, cantar trechos de funk carioca no meio de suas canções e regravar clássicos de Chico Buarque, tudo em um mesmo disco [a saber, no ao vivo Prenda Minha]. Acontece de ser arrogante – e por isso mesmo sedutor – pois se coloca como porta-voz do tudo, de todas as culturas. Ele pode gravar um disco de standards americanos [A Foreign Sound, de 2004] e se meter a fazer indie rock dois anos depois [Cê, do ano passado]. E pode gravar o disco que quiser, porque ele é tropicalista e o Tropicalismo permite tudo.
Se parece bom para os tropicalistas, isso engessa qualquer outro tipo de possibilidade de se criar música não-tão-universal no Brasil. Não adianta ser apenas rock, não adianta ser apenas samba, não adianta ser apenas funk. Tem que ser tudo ao mesmo tempo. Por isso que os grandes nomes da MPB continuam sendo os mesmos de 40 anos atrás. É uma sombra assustadora para os novatos.