_participe!
 

cinema  |  comportamento  |  geral  |  literatura  | moda  |   música  |  tv viagem  || blog do editor  |  colunas  |  expediente

 
Quer conhecer o Tropicalismo?

9 canções + 1 filme + 1 livro + 1 expo para entender o mais importante movimento musical brasileiro

por Daniel Faria
[07/08/2007]

Caetano Veloso – “Tropicália”

Onde encontrar: Caetano Veloso [1968]

A canção-símbolo do movimento inicialmente nem iria receber esse nome. Quem sugeriu o título foi o cineasta Luís Carlos Barreto, que ao ouvir a música lembrou da obra homônima que o artista plástico Hélio Oiticica expusera no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, alguns meses antes. Mas é inegável que Caetano pretendia sintetizar toda a estética do que viria a ser o Tropicalismo na canção. Um amontoado de colagens poéticas, com o intuito de confundir a história do Brasil com a história da música brasileira. “Eu organizo o movimento/eu oriento o carnaval”. E pede vivas para a bossa nova, para a mulata, para a Bahia, para Carmem Miranda-da-da. A pretensão do então jovem compositor já era grande.

 

 

Gal Costa – “Baby”

Onde encontrar: Gal Costa [1968]

A mais bela e singela canção do Tropicalismo e provavelmente da música popular brasileira. Geraldo Vandré [“caminhando e cantando e seguindo a canção...”] chamou a música de “merda” quando a ouviu pela primeira vez. Confundiu-se com o próprio cérebro, talvez. Baby é a prova de que Gal Costa é a voz feminina da MPB. Sua interpretação sutil e macia à frente da orquestração que vai crescendo aos poucos, cantando os versos tão representativos do que foi – e poderia – ser os anos 60 no Brasil, citando Roberto Carlos, Carolina [aquela do Chico Buarque], camisas escritas “Baby, I Love You”, e que ainda acha espaço para Caetano sussurrar o refrão de Diana [“oh, please stay, by my side”], sucesso de Paul Anka no final, é sublime. Pérola.

 

 

Gilberto Gil – Domingo No Parque

Onde encontrar: Gilberto Gil [1968]

Se o Tropicalismo deve muito aos Beatles, a culpa é de Gilberto Gil. Pode parecer difícil acreditar que o atual ministro da Cultura poderia ser tão antenado, mas na década de 60 sua produção era completamente ligada ao que de melhor se fazia no outro lado dos trópicos. Veja Domingo no Parque. Musicalmente ela representa mais para o movimento do que qualquer outra canção. Produção grandiosa, vocais poderosos, roda de capoeira, a história do sorvete, da rosa, do José brincalhão, do amigo João e de Juliana que termina em tragédia, e com Os Mutantes acompanhando.  E que ainda teve a pachorra de deixar Roda Viva, de Chico Buarque, para trás no terceiro Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record.

 

_assista

Domingo no Parque, com Gilberto Gil & Os Mutantes no III Festival da Música Brasileira, na TV Rio

 

 

Os Mutantes – Panis Et Circenses

Onde encontrar: Os Mutantes [1968]

Rotação alterada ao fim da música, ruídos de talheres simulando um jantar agitado, frases perdidas e desconexas como “me passa a salada, por favor”. A letra, de Caetano, é simples e bela [“as pessoas na sala de jantar/estão preocupadas em nascer e morrer”], e os arranjos de Duprat lembram algo do Magical Mistery Tour, dos Beatles, como os metais de Penny Lane ou a exuberância instrumental de I Am The Walrus. E executando a canção, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Rita Lee, Os Mutantes, com toda a juventude e descontração necessária para “subverter os valores” da MPB, que acredite, não estava preparada para o que estava por vir. Se é possível chamar algo de mantra psicodélico na história da música brasileira, então essa é a definição para Panis et Circenses.

 

 

Caetano Veloso & Os Mutantes – Saudosismo

Onde encontrar: Caetano & Os Mutantes Ao Vivo – Compacto [1968] 

Saudosismo foi gravada por Gal Costa em seu primeiro disco [não considerando a parceria com Caetano em Domingo, de 1967], mas essa versão ao vivo executada durante a seqüência de shows dos tropicalistas na Boate Sucata é histórica. A voz de Caetano procura a sutileza característica da bossa nova no ínicio da canção, até a explosão furiosa no final, com Os Mutantes como banda de apoio. O baiano proclama: Chega de Saudade [nome do primeiro disco de João Gilberto]. A partir daí, a música popular brasileira nunca mais seria a mesma. Nem os tropicalistas, que foram acusados pela censura de ofender valores morais durante os shows na Boate, resultando no exílio de Gil e Caetano. Era o começo do fim.  

 

 

Ronnie Von – Silvia, 20 Horas Domingo

Onde encontrar – Ronnie Von [1968]

No final da década de 60, Ronnie Von não era considerado parte da Tropicália e muito menos poderia ser enquadrado como jovem-guardista. Mas hoje é possível perceber que a produção do Pequeno Príncipe entre 1968 e 1972 é quase tão ousada quanto qualquer álbum do movimento . Silvia, 20 Horas, Domingo, do disco de 1968, soa ao mesmo tempo simplória como uma banda de rock de garagem e pretensiosa como qualquer produção de Duprat, arranjador do álbum. Para estreitar ainda mais ligações com os tropicalistas, lembre-se que ele já gravou com Os Mutantes e com os Beat Boys, os argentinos que ajudaram Caetano a criar Alegria, Alegria, o primeiro grande sucesso do movimento.

 

 

_assista

Ouça o discurso inflamado, sob vaias dos estudantes, de Caetano durante o III Festival Internacional da Canção, na TV Record
Caetano Veloso & Os Mutantes – É Proibido Proibir

Onde encontrar: É Proibido Proibir – Compacto [1968]

É Proibido Proibir é outro momento marcante da história da MPB. Classificada no III Festival Internacional da Canção, Caetano se acompanhou d’Os Mutantes e de um hippie endoidecido americano, todos vestidos de roupas de plástico, para apresentar a canção, de melodia simples e refrão inspirado no slogan utilizado nas manifestações  dos estudantes franceses de maio de 1968. A platéia, recheada de universitários de tendencia esquerdistas e defensores da “verdadeira música brasileira”, vaiou violentamente durante toda a canção. O compacto traz a gravação de estúdio e o famoso discurso inflamado de Caetano contra os estudantes. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês não estão entendendo nada! Nada!”

 

 

 

Tom Zé – Parque Industrial

Onde encontrar: Tom Zé [1968] 

Parque Industrial tem letra de Tom Zé, e percebe-se como o baiano já era surtado há um bom tempo. Outra tentativa poética de resumir a pretensão tropicalista, mas com o olhar voltado para a imprensa, de maneira bem-humorada [a produção atual do cantor me faz duvidar se foi ou não proposital]: “A revista moralista/Traz uma lista dos pecados da vedete/E tem jornal popular que/Nunca se espreme/Porque pode derramar”. A canção abre com algo que parece ser o Hino Nacional, então entra um coro feminino que faz suporte para a fraca voz de Tom Zé. Ainda melhor é a versão incluida no disco manifesto do movimento, Tropicália ou Panis et Circenses, com Gil, Caetano e Gal melhorando a canção.

 

 

 

Novos Baianos: Ferro Na Boneca

Onde encontrar: É Ferro Na Boneca [1971]

A Tropicália, como movimento, já havia terminado em 1971, quando os Novos Baianos lançaram seu primeiro disco, É Ferro na Boneca. Gil e Caetano voltavam do exílio forçado em Londres e gravavam discos de instrumentação básica que pouco lembravam os primeiros álbuns. Os Novos Baianos - Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Luiz Galvão, Baby Consuelo, que se conheceram num acampamento hippie na Bahia – prometiam reaproveitar a idéia dos “Velhos Baianos”, e construíram uma mistura anárquica de rock, samba, frevo, choro, blues, frevo, tropicalismo e muitos etc.  A faixa-título, de apenas dois minutos já dá o tom: “é ferro na boneca, é no gogó neném”. Paz e amor, bicho!


 

+CINEMA
Terra em Transe

Direção: Glauber Rocha. [106 min ~ 1967] 

Caetano disse que a Tropicália foi mais influenciada pelo cineasta Glauber Rocha do que pelos Beatles. “Porque, diretamente, profundamente influenciado, toda aquela coisa de tropicália se formulou dentro de mim, no dia em que eu vi Terra em Transe”. O filme, de 1967, é tão importante para o cinema nacional quanto o tropicalismo foi para a música brasileira. Terra em Transe é um filme alegórico que, ao criar um fictício país latino-americano, Eldorado, governado pelo ditador Diaz, faz um alerta a ditadura militar no Brasil, que já começava a tomar formas concretas. Ganhou prêmios em festivais importantes por todo o mundo, mas enfrentou problemas com a censura em território nacional por ser considerado subversivo. Obrigatório.

 

_assista Trecho do filme de Glauber Rocha

 


+LITERATURA
Tropicália: A História de Uma Revolução Musical

Claro e conciso para os iniciantes, informativo e divertido para os já conhecedores, o livro de Carlos Calado é um delicioso documento histórico da Tropicália. Vários depoimentos, reconstituição do momento pré-fama dos protagonistas, pesquisa cuidadosa, fotos inéditas, tudo numa linguagem simples e atraente. A Editora 34, aliás, tem ótimos livros sobre música brasileira como Quarenta Anos de Rock, de Furio Lonza, A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Melo e o ótimo Tem Mais Samba, do jornalista Tárik de Souza, dentre muitos outros. Vale a pena conferir no site da editora: http://www.editora34.com.br/.

 

por Carlos Calado
Editora 34

333 pág.

 

 

+EXPOSIÇÃO

Depois de fazer o circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York, a exposição Tropicália chega ao Museu de Arte Moderna [MAM] do Rio de Janeiro. A mostra é excelente oportunidade para conhecer a instalação-marco do movimento, Tropicália, de Hélio Oiticica - “a obra mais antropofágica da arte brasileira”, nas palavras do próprio – 40 anos após sua exposição na lendária mostra Nova Objetividade Brasileira, no mesmo MAM.

 

São mais de 250 objetos, entre obras, cartazes, poesia e roupas, a fim de demonstrar que o Tropicalismo rompeu com vários paradigmas, e não somente a música. O curador da exposição, o crítico argentino Carlos Basualdo, considera o movimento cultural como "talvez, o mais relevante surgido na América do Sul nas últimas cinco décadas".  Tropicália fica em exposição até o final de setembro.

 

Tropicália – Uma Revolução na Cultura Brasileira

.................................................................................

Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro [av. Infante Dom Henrique, 85, Rio de Janeiro, tel. (21) 2240-4944]. De terça a domingo, das 12h às 18h. De 8/08 a 30/09.
O catalógo da exposição, com ensaios e textos da época, é editado pela Cosac Naify [376 págs., R$ 120].


                                                                                                                     Imagens: reprodução



 
© Copyright Revista Paradoxo 2003~2008. Todos os direitos reservados