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O Tropicalismo 'é lindo!'

A última e principal revolução musical no País completa 40 anos em 2007 e a Paradoxo apresenta um roteiro para conhecer esse intrigante movimento

por Daniel Faria
[07/08/2007]

No verão londrino das flores de 1967, os Beatles lançavam Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, talvez o disco mais incensado de todos os tempos. Um ano depois, no Brasil, um coletivo de artistas carismáticos e de cabelos desgrenhados vindos da Bahia, mais três garotos burgueses paulistas, um maestro vanguardista e uma cantora consagrada, ambos cariocas, foram os principais responsáveis pelo disco Tropihcália ou Panis et Circenses.

 

Guardadas as devidas proporções, o estrago foi o mesmo. Se o primeiro se tornou um marco no rock mundial, o segundo é a obra mais revolucionária da história da música brasileira. Em comum, o choque entre a cultura dita popular e a cultura de elite.

 

Revolucionário, sim, já que os conflitos entre os estilos musicais vigentes na época passavam para divergências de caráter político e até pessoais. Imagine a situação: de um lado a elite carioca, herdeira da Bossa Nova [Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina], do outro os compositores das chamadas “canções de protesto”, de cunho nacionalista [Geraldo Vandré e o próprio Chico], adorado pelos universitários. No outro extremo, a Jovem Guarda, de Roberto, Erasmo e companhia, acusados de americanizados e comerciais. O Tropicalismo conseguiu misturar tudo isso e ainda assim desagradar a [quase] todos.

 

O grande catalisador dessa idéia foi, pelo menos na concepção sonora, Gilberto Gil. Entusiasmado com o que acontecia no exterior com os Beatles, Gil ajudou a contaminar a cabeça de Caetano Veloso e ambos saíram da Bahia, acompanhados de Tom Zé, Maria Bethânia, Gal Costa e o poeta José Carlos Capinam. Em São Paulo , encontraram reforços nos Mutantes e em Torquato Neto, o responsável por erguer a bandeira tropicalista no manifesto à imprensa, “Tropicalismo para Iniciantes”, no qual defendia “assumir publicamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar a cafonice ou o mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.

 

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Análise: o que foi este movimento

Mas é Caetano Veloso o grande líder do que se convencionou chamar de Tropicalismo. Líder da geração para alguns, caricatura de intelectual para outros, o compositor virou assunto popular  quando sua marchinha beatlemaníaca Alegria, Alegria, quarto lugar no III Festival de MPB da TV Record, estourou no País, em 1967, marco zero do movimento. Liderada pelo baiano, a “cruzada tropicalista” soube causar polêmicas.

 

Problemas com a censura, que acusavam os baianos de subversivos, pelos cabelos compridos e roupas femininas. Problemas com companheiros de MPB, que acusavam o movimento de anti-nacionalista (segundo Dedé, mulher de Veloso à época, Edu Lobo a ignorou após encontrá-lo em São Paulo). Problemas com os estudantes esquerdistas, que vaiaram o coletivo tropicalista no III Festival Internacional da Canção, em 1968. E que enfim acabou com o ideário quando os militares prenderam a dupla principal e forçaram o exílio em Londres, dando um decreto final para uma história que poderia render muito. 

 

_tropicalizando o mundo

O efeito tropicalista atingiu até mesmo os setores ditos mais conservadores da MPB. Gal Costa superou Elis Regina e se tornou a mais popular cantora feminina da década de 70. Chico Buarque, ídolo de quem defendia a música tradicional brasileira, gravou com Rogério Duprat o seu melhor disco, Construção, de 1971. Até o “tremendão” Erasmo Carlos lançou um disco em 1972 com participação dos Mutantes.

 

A influência também foi sentida no rock brasileiro dos anos 1980, com a crítica classificando os Titãs como neo-tropicalistas e lançando discos com releases de Caetano. Hoje é possível perceber que, se há uma proposta de reinvenção da música popular brasileira, ela passa pela ótica do que foi feito no fim dos anos 1960. Vide artistas como os Los Hermanos e a Orquestra Imperial, propondo uma busca aos valores estéticos tipicamente nacionais, notadamente o samba.

 

No resto do mundo, artistas tão díspares como Beck e David Byrne, ex-Talking Heads, se declaram influenciados pelo movimento. O segundo, inclusive, é responsável por tirar Tom Zé do ostracismo ao lançar o baiano no mercado internacional. O disco The Best of Tom Zé, editado por Byrne em 1990 foi aclamado pela crítica, ficando entre os dez melhores da década em todo o mundo, na avaliação da revista americana Rolling Stone. Beck, no entanto, é fã declarado de Caetano Veloso e Jorge Ben, e chegou a gravar uma canção chamada Tropicalia para seu disco Mutations.

 

Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana chegou a enviar uma carta, em 1993, para Arnaldo Baptista, dos Mutantes. “Cuidado com o sistema. Eles te engolem e te cospem fora como sementes de cereja”, escreveu, e pediu também a volta do grupo. Pena que ele não tenha sobrevivido para presenciar a exposição Tropicália, no Barbican Centre, em Londres, que marcou a volta dos Mutantes, agora com Zélia Duncan nos vocais.

 

Publicações conceituadas como o jornal The New York Times ou a revista britânica The Wire dedicaram artigos extensos analisando a Tropicália. Foi um momento ímpar de criação estética, talento provocativo e o mais importante, vontade de experimentar. Tudo bem, isso pode parecer papo de intelectualóide para você que acha que, na verdade, o rock de três acordes, roupinhas e cabelos, isso sim é ousado. Mas entender o que é transgressão dentro de valores tão bem pré-estabelecidos e perigosos, como é a MPB. Bem, isso requere alguns neurônios a mais.

 

Imagem: reprodução



Bruno  -  São Paulo  -  20/08/2007 ~ 21:49
E o manguebeat nao foi revolução musical?

Bruno Monlevade  -  Recife/ Paris  -  21/08/2007 ~ 11:06
concordo plenamente com o Bruno

Marcio  -  São Paulo  -  12/09/2007 ~ 21:03
O que o manguebeat revolucionou na música brasileira? Que artistas relevantes foram influenciados pelo manguebeat? Não falem besteira, por favor.

 
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