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E se não houvesse mais refrão?
Ludov lança disco novo e celebra a simplicidade. Paradoxo conversou com a vocalista Vanessa Krongold por Daniel Faria
O Ludov trilha praticamente sozinho o meio-termo entre o mainstream – planejado, repetitivo - e o underground – descompromissado e, às vezes, amador em excesso. Há tempos deixou o circuito independente e vem adquirindo um público cada vez mais interessado nas belas composições do grupo. Guardam ligações com o Pato Fu, por exemplo, mas suas canções não são tão cerebrais. Privilegiam a simplicidade nos arranjos, e as letras, simpáticas, são quase pequenas crônicas do cotidiano em uma cidade grande. O grupo surgiu das cinzas do incensado Maybees, banda formada pelos mesmos integrantes do Ludov, com exceção do baterista Paulo “Chapolin”. Trocaram o nome, começaram a compor em português, gravaram o EP Dois a Rodar – que contém Princesa – e o primeiro álbum, O Exercício das Pequenas Coisas, lançado em 2005. Uma base sólida de fãs, alguns hits no repertório, lançaram em julho seu segundo álbum, Disco Paralelo, com status de banda consolidada. Entre correria desencontros telefônicos e cibernéticos, a Paradoxo enfim conseguiu conversar com a adorável vocalista Vanessa Krongold. Formada em Publicidade e Marketing [assim como o guitarrista e principal compositor do Ludov, Mauro Motoki], Vanessa é um poço de simpatia. Simpatia, aliás, que contrasta com seu tom de voz denso, em conflito com as composições quase sempre de bom astral da Quem ouve canções como Ciência e Rubi, a melhor do disco novo, sabe do que ela está falando. Em Rubi, inclusive, Vanessa fala da sensação de se sentir uma menina, deitada no gramado, com o sol batendo no rosto. O que será que a inspira a cantar? “Como intérprete, às vezes eu sinto necessidade de saber no que o autor estava pensando quando escreveu aquelas frases. A partir daí, eu faço a minha leitura desse universo para que possa incluir o meu sentimento na música. Em contrapartida, às vezes é mais interessante deixar a música me atingir como ouvinte apenas, deixar que ela me sensibilize como for, sem racionalizar o que eu canto”, explica. E com essa frase, Vanessa acaba de resumir o que é o Ludov: uma banda que usa muito mais os fatores sensoriais e o coração do que uma racionalidade que poderia embrutecer a concepção nada consensual que os rodeia. _transpirando inspiração Apesar do desejo de evasão, o Ludov ainda está entre nós. E onde será que pretendem chegar com Disco Paralelo? Acreditam eles que é possível subir mais alguns degraus no reconhecimento popular? “Não fazemos esse tipo de plano. A gente está nesse barco há tempo suficiente pra saber que a ansiedade só leva à frustração”, filosofa a vocalista. “O que a gente quer é seguir nosso caminho, continuar fazendo o que a gente acha certo, o que pra gente é música de verdade”, despista. A verdade é que Disco Paralelo é sim uma tentativa de angariar um público maior. Canções acessíveis, melodias agradáveis, produção competente. Deveria-se isso ao dedo do badalado produtor Chico Neves [O Rappa, Lenine, Los Hermanos]? “O Chico interferiu na medida exata pra acrescentar sem que nada se perdesse. Aquelas mesmas músicas que mandamos pra ele ouvir estão lá, o mesmo feeling, a mesma pegada, a mesma naturalidade de um ensaio”, garante. “E como foi bom ter ele por perto! Além de ter 100% de controle de cada som que é emitido dentro daquele estúdio, é uma das pessoas mais cativantes que já conheci. Ganhamos uma família de amigos e um álbum com uma qualidade muito além do que podíamos prever.”
Pergunta óbvia: por que Disco Paralelo? “Pareceu ser o nome ideal para um disco que foi feito com tanta liberdade, que nasceu pela simples necessidade de existir. Sabe quando uma banda ou artista quer fazer outro projeto, gravar disco solo, fazer tudo que não pode fazer na sua banda principal porque existe uma série de limitações? Pra gente isso não existe, não temos amarras ou opressões. Tudo que está ali é reflexo de cada um de nós”, compara. Sobre sua carreira, Vanessa Krongold faz uma breve avaliação da vocalista do Maybees, há dez anos, e agora, lançando segundo disco. “Acredito que a maior diferença é que hoje eu sou muito mais aberta a receber influências diferentes, o que me oferece mais versatilidade para cantar. Isso se resume em uma palavra: liberdade”. Influências essas que transparecem no disco. Noite Clara e a faixa título deixam um perfume de Los Hermanos no ar. ...talvez pelas guitarras. Haveria no Ludov esse interesse em associar o rock à música brasileira?
Para finalizar a conversa, perguntamos como foi a repercussão da versão da música What I’ve Been Looking For [O Que Eu Procurava] para o filme High School Musical, da Disney? “Essa versão só nos trouxe alegrias. Está claro que é um projeto não convencional para o Ludov, mesmo porque foi a primeira música que gravamos que não é nossa, é uma versão. Mas com umas mudancinhas no arranjo, acho que conseguimos deixá-la com a nossa cara, o que é muito estimulante.” Teria isso ajudado a banda a ganhar novos fãs? “O público que atingimos com ‘O que eu procurava’ é gostoso demais! É uma delícia ver a criançada nos shows - à tarde, claro - cantando com a gente”. E os indies mais xiitas, não chiaram? “As críticas foram muito poucas, algumas pessoas acham que a gente fez isso em troca de muito dinheiro. Se foi isso, esqueceram de pagar a gente”, retruca, em tom de brincadeira. Parece estar claro para Vanessa e o Ludov quais são suas qualidades e limitações. São descompromissados, livres, pouco afeitos a interferências externas. Atemporais, poderemos olhar para trás daqui alguns anos e constatar que não havia banda mais simpática.
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