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E se não houvesse mais refrão?

Ludov lança disco novo e celebra a simplicidade. Paradoxo conversou com a vocalista Vanessa Krongold

por Daniel Faria
[21/08/2007]

 

 

_crítica
Ao vivo é que são elas
Em show na capital paulista, Ludov mostra que com CD mais ‘calmo’ também se pode animar uma platéia
Você provavelmente conhece o Ludov. Aquela banda que ganhou o Vídeo Music Brasil da MTV, em 2004, com o clipe-animação fofinho de Princesa, música preferida das garotinhas universitárias. Não sabe do que se trata? Então você ao menos deve conhecer a canção O Que Eu Procurava, da trilha sonora do filme High School Musical, da Disney Channel. Ainda não? Pois você pode estar perdendo a melhor banda de pop-rock – o termo faz todo sentido nesse caso – do País no momento. Suas canções são positivas e contagiantes.

 

O Ludov trilha praticamente sozinho o meio-termo entre o mainstream – planejado, repetitivo - e o underground – descompromissado e, às vezes, amador em excesso. Há tempos deixou o circuito independente e vem adquirindo um público cada vez mais interessado nas belas composições do grupo. Guardam ligações com o Pato Fu, por exemplo, mas suas canções não são tão cerebrais. Privilegiam a simplicidade nos arranjos, e as letras, simpáticas, são quase pequenas crônicas do cotidiano em uma cidade grande.

 

O grupo surgiu das cinzas do incensado Maybees, banda formada pelos mesmos integrantes do Ludov, com exceção do baterista Paulo “Chapolin”. Trocaram o nome, começaram a compor em português, gravaram o EP Dois a Rodar – que contém Princesa – e o primeiro álbum, O Exercício das Pequenas Coisas, lançado em 2005. Uma base sólida de fãs, alguns hits no repertório, lançaram em julho seu segundo álbum, Disco Paralelo, com status de banda consolidada.

 

Entre correria  desencontros telefônicos e cibernéticos, a Paradoxo enfim conseguiu conversar com a adorável vocalista Vanessa Krongold. Formada em Publicidade e Marketing [assim como o guitarrista e principal compositor do Ludov, Mauro Motoki], Vanessa é um poço de simpatia. Simpatia, aliás, que contrasta com seu tom de voz denso, em conflito com as composições quase sempre de bom astral da banda. Digo isso a ela. “Sim, apesar das letras terem uma mensagem extremamente positiva, as melodias e os próprios arranjos não permitem que a gente diga que as músicas são exatamente alegres”, justifica. “O interessante é que, apesar disso, o disco não deixa de ser contagiante, especialmente após a segunda ou terceira audição.”.

 

Quem ouve canções como Ciência e Rubi, a melhor do disco novo, sabe do que ela está falando. Em Rubi, inclusive, Vanessa fala da sensação de se sentir uma menina, deitada no gramado, com o sol batendo no rosto. O que será que a inspira a cantar?Como intérprete, às vezes eu sinto necessidade de saber no que o autor estava pensando quando escreveu aquelas frases. A partir daí, eu faço a minha leitura desse universo para que possa incluir o meu sentimento na música. Em contrapartida, às vezes é mais interessante deixar a música me atingir como ouvinte apenas, deixar que ela me sensibilize como for, sem racionalizar o que eu canto”, explica.

 

E com essa frase, Vanessa acaba de resumir o que é o Ludov: uma banda que usa muito mais os fatores sensoriais e o coração do que uma racionalidade que poderia embrutecer a concepção nada consensual que os rodeia. Em Fugi Desse País, do disco novo, ela canta que “essa cidade não conhecerá meu fim, o que procuro encontrarei dentro de mim”. A banda propõe aos seus ouvintes escapar, habitar um lugar à parte. Para a banda, é na simplicidade que se encontra a felicidade.

 

_transpirando inspiração

Apesar do desejo de evasão, o Ludov ainda está entre nós. E onde será que pretendem chegar com Disco Paralelo? Acreditam eles que é possível subir mais alguns degraus no reconhecimento popular? “Não fazemos esse tipo de plano. A gente está nesse barco há tempo suficiente pra saber que a ansiedade só leva à frustração”, filosofa a vocalista. “O que a gente quer é seguir nosso caminho, continuar fazendo o que a gente acha certo, o que pra gente é música de verdade”, despista.

 

A verdade é que Disco Paralelo é sim uma tentativa de angariar um público maior. Canções acessíveis, melodias agradáveis, produção competente. Deveria-se isso ao dedo do badalado produtor Chico Neves [O Rappa, Lenine, Los Hermanos]? “O Chico interferiu na medida exata pra acrescentar sem que nada se perdesse. Aquelas mesmas músicas que mandamos pra ele ouvir estão lá, o mesmo feeling, a mesma pegada, a mesma naturalidade de um ensaio”, garante. “E como foi bom ter ele por perto! Além de ter 100% de controle de cada som que é emitido dentro daquele estúdio, é uma das pessoas mais cativantes que já conheci. Ganhamos uma família de amigos e um álbum com uma qualidade muito além do que podíamos prever.”

 

Pergunta óbvia: por que Disco Paralelo? “Pareceu ser o nome ideal para um disco que foi feito com tanta liberdade, que nasceu pela simples necessidade de existir. Sabe quando uma banda ou artista quer fazer outro projeto, gravar disco solo, fazer tudo que não pode fazer na sua banda principal porque existe uma série de limitações? Pra gente isso não existe, não temos amarras ou opressões. Tudo que está ali é reflexo de cada um de nós”, compara.

 

Sobre sua carreira, Vanessa Krongold faz uma breve avaliação da vocalista do Maybees, há dez anos, e agora, lançando segundo disco. “Acredito que a maior diferença é que hoje eu sou muito mais aberta a receber influências diferentes, o que me oferece mais versatilidade para cantar. Isso se resume em uma palavra: liberdade”. Influências essas que transparecem no disco. Noite Clara e a faixa título deixam um perfume de Los Hermanos no ar. ...talvez pelas guitarras. Haveria no Ludov esse interesse em associar o rock à música brasileira?

 

_assista                                                       
Ludov toca Disco Paralelo

Ela desconversa. “Sinceramente, nós não temos nada planejado. Não queremos lançar nenhum estilo, tampouco seguir outros. O que você ouve de Ludov é o que a gente consome: arte, viagens, convivência com quem quer que seja. Isso tudo se mistura e é transpirado pela banda”. Perguntada sobre o que os outros membros da banda estavam ouvindo na época de produção do disco, Vanessa cita os dois melhores discos nacionais do ano passado, , de Caetano, e Infinito Particular, da Marisa Monte. “Melhor disco? Tem razão. Eu é que não entrei no clima do Caetano nesse disco”, brinca.

 

Para finalizar a conversa, perguntamos como foi a repercussão da versão da música What I’ve Been Looking For [O Que Eu Procurava] para o filme High School Musical, da Disney? “Essa versão só nos trouxe alegrias. Está claro que é um projeto não convencional para o Ludov, mesmo porque foi a primeira música que gravamos que não é nossa, é uma versão. Mas com umas mudancinhas no arranjo, acho que conseguimos deixá-la com a nossa cara, o que é muito estimulante.” Teria isso ajudado a banda a ganhar novos fãs? “O público que atingimos com ‘O que eu procurava’ é gostoso demais! É uma delícia ver a criançada nos shows - à tarde, claro - cantando com a gente”.

 

E os indies mais xiitas, não chiaram? “As críticas foram muito poucas, algumas pessoas acham que a gente fez isso em troca de muito dinheiro. Se foi isso, esqueceram de pagar a gente”, retruca, em tom de brincadeira.

 

Parece estar claro para Vanessa e o Ludov quais são suas qualidades e limitações. São descompromissados, livres, pouco afeitos a interferências externas. Atemporais, poderemos olhar para trás daqui alguns anos e constatar que não havia banda mais simpática.

 

_crítica
Disco Paralelo é ode ao descompromisso

A primeira impressão é que falta em Disco Paralelo alguma grande canção, como Princesa ou Kryptonita, do disco anterior. Nenhuma das novas músicas estabelece uma relação imediata com o ouvinte. Aos poucos, porém, é possível criar vínculos com pequenas pérolas como Sobrenatural ou A Espera. É um disco mais homogêneo, não há nenhuma canção realmente dispensável [com exceção, talvez, de Urbana, que é previsível demais]. Noite Clara e Disco Paralelo são as boas surpresas, baladas contidas, perfeitas para o inverno.

 

Com a saída do baixista Eduardo Filomeno, não existem mais posições fixas no Ludov. Todos se revezam nos instrumentos, mas são os bons riffs e a condução rítmica dos guitarristas Mauro Motoki e Habacuque Lima o diferencial do Ludov para outros grupos de pop rock, sem soar banal.

 

As letras ainda falam de assuntos cotidianos, mas em canções como Conversas em Lata o clima fica denso. No geral, porém, Disco Paralelo traz música para se ouvir em tardes ensolaradas, em um parque com a namorada[o] do lado. Simples assim.

  Fotos: Divulgação



 
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