
Pode apostar: nove entre dez adeptos do novo universo da música independente veneram a banda Vanguart como a última grande revelação do País. São os grandes representantes do chamado Movimento Fora do Eixo, termo usado para classificar os grupos que vem de estados não tão tradicionais na história do rock brasileiro. Bandas como Los Porongas [Acre], Montage [Ceará], Madame Saatã [Belém] e o próprio Vanguart [Mato Grosso] querem provar que não apenas na tríplice Rio-São Paulo-Belo Horizonte se produz música no Brasil.
Formado por Hélio Flanders [vocais, violões e gaitas] – poeta indiscutível para alguns, picareta pretensioso para outros –, David Dafre [guitarras], Reginaldo Lincoln [baixo], Douglas Godoi [bateria] e Luiz Lazarotto [teclados], o Vanguart acaba de lançar seu disco de estréia homônimo, pela gravadora/revista independente Outracoisa. No ano passado, os cuiabanos circularam o País com apresentações bem sucedidas em festivais e participaram de projetos como o Tour Banda Antes, da MTV.
O álbum peca pela falta de foco. São três idiomas diferentes [inglês, português e espanhol] distribuídos em 14 canções que talvez merecessem um cuidado maior. Os fãs mais fiéis, porém, devem se deliciar com canções já conhecidas dos shows, como Cachaça, Semáforo e Hey Yo Silver, principais destaques do disco.
As influências ainda estão muito explícitas – Bob Dylan, Clube da Esquina, Radiohead [os maneirismos vocais de Hélio insistem
em emular Thom Yorke] – e as letras se fingem de poesia lírica para disfarçar o
nonsense de bobagens como
Miss Universe ou
Los Chicos de Ayer.
A crítica nacional se dividiu entre os empolgados com a verve poética das letras e os descrentes, que acusam a banda de descabidamente pretensiosa. A verdade é que
Vanguart, o disco, tem boas melodias, apesar de manjadas, e letras fracas. Falta personalidade, mas há talento. Talvez o verdadeiro teste seja a participação da banda no Tim Festival, em outubro, ao lado dos
indies gringos, como o Killers e o Arctic Monkeys.

_bate-papo
Confira abaixo a entrevista concedida pelo vocalista Hélio Flanders ao repórter Cleyton Brito, no Recife [PE].
Revista Paradoxo - Apesar de serem feitas por uma banda nova, as músicas do Vanguart não são tão contemporâneas. Tem uma certa aura retrô. Quais são suas intenções e inspirações?
Vanguart - As inspirações são muito além de bandas ou pessoas, acho que o que mais inspira na hora de compor é o meio que vivemos e o que a gente sente. Quanto a intenção, não existe intenção alguma, deixamos ela fluir por seu curso natural. Nunca tentamos soar algo em alguma canção. Se acontece, é naturalmente.
RP - Que tipo de som a banda escuta, além das referências mais óbvias, como MC5, Bob Dylan, etc?
V - A gente escuta coisas bem variadas, mas ultimamente tenho escutado um disco do Sakamoto & Morelembaum, o último do Racionais MC's, algo do Caetano e umas coisas da Joni Mitchell que estou ouvindo novamente. Adorei os discos do Los Porongas e do Charme Chulo, que pra mim, são algumas das melhores bandas brasileiras da atualidade.
RP - O que os seus pais desejariam que vocês estivessem fazendo?
V - O que nós bem entendêssemos, e assim estamos fazendo.
RP - A internet foi importante para divulgar o trabalho do Vanguart?
V - Sim e acredito que todas as bandas independentes atuais estão usando a Internet a seu favor. Hoje temos essa ótima ferramente de divulgação e não pagamos quase nada por isso, portanto aconselho todos a disponibilizarem MP3, vídeos e tudo o mais. Sem a Internet, certamente não teríamos chegado a lugar algum.
RP - O que você tem a dizer sobre esse primeiro disco da banda?
V - O disco atrasou na fábrica, mas finalmente saiu. São 14 faixas. Só Semáforo e Cachaça já foram gravadas, o resto é material inédito. Antes do disco, lançamos oficialmente 2 singles, um todo em português e outro todo inglês, com quatro canções extras e inéditas, que não estão no disco.
RP - Em 2006, a banda lançou o single Semáforo, o primeiro da Vanguart com letras na língua pátria. Cachaça, outra canção em português, ganhou um videoclipe, que foi indicado a Melhor Clipe Independente, na premiação do VMB da MTV. E, agora, além de lançar um novo álbum, o Vanguart já é nome confirmado para estrelar o Tim Festival. O que mais vocês querem?
V - Acho que queremos continuar fazendo música, é o mais importante. O reconhecimento é um passo natural de toda essa história. A gente faz música com muita paixão e todo o lance com honestidade também, tanto para nós quanto para o público e espero que isso possa ser sentido verdadeiramente. Quanto as conquistas, ficamos muito orgulhosos com tudo que já rolou mas se ficarmos pensando no que vamos ou queremos conquistar, a gente não faz música.
RP - O que une vocês como banda?
V - Inicialmente a amizade, que acho que é o mais importante em nossas vidas e o que faz com que a música soe natural para nós. Além disso, criamos um vínculo musical onde acho muito difícil conseguirmos tocar com outras pessoas com a mesma naturalidade. Estamos viajando juntos há dois anos e a cada dia que passa nos conhecemos melhor musicalmente e nos ajudamos no que aparece. Reginaldo [baixista] e eu voltamos a compor juntos e isso nos ilumina de uma maneira que você não imagina. Pra terminar, acho que o que mais nos une, é que o Vanguart não seria nada sem algum de nós.