John Frusciante não se cansa de trabalhar. Parece que o guitarrista do Red Hot Chilli Peppers quer tirar o atraso do hiato em sua carreira entre os anos 1992 e 1999 - quando basicamente “investiu” sua vida em usar drogas - e compensá-los fazendo o maior número de discos possível. De 2004 pra cá, foram lançados seis discos do seu projeto solo. Sem contar os álbuns do RHCP, que nesse período lançou quatro CDs. E, parodiando aqueles comerciais de televisão: NÃO É SÓ ISSO!

Frusciante ainda arranjou tempo para montar um projeto intitulado Ataxia, com o legendário Joe Lally [Fugazi] no baixo, e Josh Klinghoffer [Bicycle Thief] na bateria. Em 2004 eles lançaram o Automatic Writing, com cinco músicas gravadas em duas semanas. Ainda gravaram mais cinco faixas, que só foram mixadas por Frusciante em 2006 e lançadas agora no álbum Automatic Writing II [também conhecido como AWII]. Os dois álbuns são do selo Record Collection e distribuídos pela Warner e ainda não lançados no Brasil.
Ataxia é uma doença neurológica que afeta os movimentos e o equilíbrio da pessoa. Em grego, a palavra também significa desordem ,e é o que em um primeiro momento parece ser o Ataxia. As músicas normalmente são guiadas pelas linhas de baixo, quase sempre constantes, enquanto que as guitarras e a bateria dão dinamismo e alteram as “intenções” em cada momento, dependendo da linha de vocal. Como tudo que Frusciante faz, há algo de esquisito e genial. A banda abusa do psicodelia e, das dez faixas já lançadas, quatro passam de dez minutos de duração.
O AWII segue a mesma linha experimental do primeiro álbum, mas há uma lógica minimamente mais definida nas músicas, que parecem seguir uma linha de pensamento, com “começo-meio-fim”. Porém, nada de muito explícito.
A música que abre o disco, “Ethiopian Song”, leva uma guitarra funkeada bem característica do Frusciante. É cantada pelo guitarrista e segue praticamente igual do começo ao fim, durante pouco mais de quatro minutos. Não fica enjoativo de ouvir, mas tem que estar no clima certo. Palmas durante a música toda dão o tom hipnótico da faixa.
A segunda música é The Empty´s Response, uma balada lentíssima cantada pelo baterista Josh Klinghoffer, cuja voz pode ser confundida com um vocal feminino. Essa balada também leva uma identidade bem “frusciantesca”, parecendo-se com as músicas melancólicas e com guitarras limpas da carreira solo do guitarrista.
Attention, a terceira do AWII, é sem dúvida a mais psicodélica e experimental do disco. Uma bateria inicia a música dando a entender ser uma “jam session” completamente despretensiosa. Cantada por Frusciante, que faz apenas “efeitos sonoros” na guitarra. Tem quase doze minutos de duração e funciona como um estimulante alucinógeno.
A penúltima música, OLA, é a mais empolgante. Mais rápida que as demais, ainda apresenta alguns experimentalismos, principalmente nos efeitos na voz de Frusciante. Mais uma das marcas registradas de Frusciante está nessa música: as diversas guitarras. Ele gosta de fazer arranjos usando diversas linhas de guitarras tocadas ao mesmo tempo e que, aparentemente, parecem ser completamente independentes umas das outras. Porém, desse caos cria-se uma textura muito interessante de timbres.
A música que fecha o álbum, The Soldier, tem mais de dez minutos e segue a mesma linha experimental de Attention, mas é mais contida, concreta. Frusciante termina o álbum cantando uma música com uma voz gritante, beirando o gutural. Bom.
Para terminar, é interessante perceber como os integrantes da banda conseguem seguir caminhos diferentes no decorrer da música, com mudanças nas dinâmicas e nos andamentos, sem alterar a espinha dorsal de cada faixa, quase sempre sustentada por uma mesma linha de baixo.
Em resumo, Ataxia é o que deve ser: um projeto paralelo. É um registro de músicas que mais parecem um estudo. É experimental, mas mantém uma lógica. É psicodélico, apesar de não usufruir de muitos efeitos sonoros. Enfim, é Frusciante.