Bauru [SP] - A alcunha “artista maldito” sempre pareceu cair bem para o compositor-escritor-poeta-do-Kaos Jorge Mautner. Filho de judeu austríaco e mãe iugoslava - que vieram para o Rio de Janeiro no final da década de 30, refugiados do Holocausto -, transitou durante toda a carreira pelos diversos movimentos culturais do País, mas nunca foi efetivamente reconhecido. Justiça seja feita: hoje, mais de 30 anos após lançar seu primeiro LP, Pra Iluminar a Cidade [1972], Mautner é ídolo de uma nova geração que, enfim, prestigia o trabalho de um heroí da cultura popular brasileira.
Para se ter uma idéia, os membros da Orquestra Imperial elegeram Mautner como seu guru e mestre espiritual. Caetano Veloso revitalizou sua própria carreira ao gravar com o carioca o disco Eu Não Peço Desculpas [2002], vencedor do Grammy Latino. Até hoje, Maracatu Atômico, de sua autoria, é a música mais aguardada nos shows da Nação Zumbi. Admiração dos mais jovens, respeito profundo dos mais velhos, esperava-se um público de idade heterogenea no Serviço Social do Comércio [SESC] de Bauru, interior de São Paulo, na última quarta-feira [19].
As 400 pessoas presentes encheram o salão para ver o velhinho Mautner, acompanhado do músico Nelson Jacobina. Universitários, professores, ex-universitários, músicos e a classe média defensora das artes que está sempre presente nesses eventos do SESC, mas não sabe diferenciar Oswaldo Montenegro de Arrigo Barnabé, formavam o público.
_pagão com profeta de israel
O clima intimista serviu para apresentar aos incautos um artista que Caetano definiu como uma “improvável mistura de pagão com profeta de Israel”. Mais do que um ex-hippie tresloucado, Mautner se mostrou uma pessoa extremamente irreverente, aquele humor tipicamente judeu, contando histórias de Cartola, do poeta russo Maiakowski, e fazendo joça com um senhor chato que ficou o show inteiro pedindo Vampiro, sua música mais conhecida.
O repertório foi baseado no disco que gravou com Caetano [Eu Não Peço Desculpas] e em seu álbum mais recente, Revirão, lançado no começo desse ano. E haja desfile de ótimas e divertidas canções. “Manjar Dos Reis”, “Feitiço” [canção-provocação a “Feitiço da Vila”, de Noel Rosa], a balada-mariachi-caipira “Todo Errado”, “Assim Já é Demais”, todas executadas a causar comoção e risos na medida exata. Em “O Executivo-Executor”, Jacobina assume os vocais, numa sátira com os empresários e o desemprego.
Nelson Jacobina, aliás, é um músico extraordinário. Acompanhando Mautner desde o começo da década de 70 e co-autor de praticamente todos seus grandes clássicos, o músico é um violonista incrivel e um dos melhores guitarristas do país. Usa e abusa dos pedais, conduzindo a base rítmica com simplicidade em “Os Pais” [parceria com Gilberto Gil e de letra banal, um dos pontos fracos do show] ou experimentando tons atonais em “Orquídea Negra”, sucesso na voz de Zé Ramalho. Muito subestimado, infelizmente.
Para encerrar, “Locomotiva”, famosa na voz de Wanderléia, e “Maracatu Atômico”, regravada a exaustão por vários artistas, como que para demonstrar que o ecletismo do conceito tropicalista vive em Mautner. Seria ótimo se essa abrangência resultasse num público adequado para toda sua inspiração. Pelo menos os 400 privilegiados presentes no SESC não puderam reclamar da noite agradável.