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A pedrada

Como uma cachaça com espetinho destruiu meu sonho de consumo

por Guzimeire
[10/10/2007]

Hoje acordei com Silmara dando uns berros na janela, me chamando de vagabunda, ordinária, fia duma ronca-e-fuça e deus sabe mais lá o quê. Mãe foi correndo se pendurar na janela, pra assuntar com Dona Gorete o que danado era aquilo. Pai, coitado, doente desde 2002, tava prostrado na cama e nem se mexeu, ficou só perguntando se tava chovendo.

Eu não quis nem saber, fiquei dormindo, mas a bisca não parava de me esculhambar. Até que eu me danei, abri a janela e perguntei: "mulher, que é que tu tem? baixou a pomba-gira? Vá procurar sua laia". Porque assim: Silmara tem o maior despeito comigo só porque eu ganho mais que ela e não precisei casar com nenhum Kleberlúcio xexelento, horroroso, ordinário, boca podre, safado e ignorante, pra poder ter minha TV de prata... placas... plástica... pasta...

Pensa que adiantou? A peste continuava lá, me chamando de cada nome que eu, que sou uma moça de respeito e temente a Deus, não tenho coragem de repetir. Mas resolvi apelar porque não sou de levar desaforo pra casa. Gritei: "escuta aqui, minha filha, eu comprei a TV de prata... plasca... plas... com meu cartão de crédito, viu? Eu ganho bem, melhor que tu, posso pagar... o diabo é quem vive às custas desse seu marido horroroso, dos dente podre, lascado, traficante de chiclete..."

Nessa hora, minha filha, parece que baixou o cramunhão na mulher. Começou a sacudir pedra aqui em casa, e xingava mãe e xingava pai e xingava até Ramiro, meu irmão. A mulher tava doida! Já era mais de cinco da manhã e ela tava com cara de quem tinha bebido todas. Devia ter passado a noite no churrasquinho de Sid-Ney, como fazia toda quarta-feira, mesmo depois que se casou com Kleberlúcio. Fica lá, com um espetinho enfiado na boca, se esfregando nos machos, metida numa calça da lycra branca, rebolando em cima dum tamanco deeesse tamanho,, mostrando a calçola atolada no rêgo e com meio quilo de farofa caída no decote . Eu sou fina, meu filha, sou direita, não faço essas coisas com macho nenhum não. Eu vou lá sair de casa pra ficar rebolando no pagode? Perdoe! Tenho coisa melhor pra fazer, minha filha.

Aí, com o coisa-ruim incarnado, a bisca começou a berrar pra todo mundo ouvir que eu tava fazendo coisa imoral com Kleberlúcio. Repara! Silmara pensa que eu sou barata que nem ela. Jura que vou dar em cima de um homem horroroso daquele só pra ganhar uma TV de prata... plasca, como ela fez. Entre pegar um tribufu e morrer solteira, minha filha, eu prefiro ir pra cova sozinha, coberta de teia de aranha. Eu lá sou mulher pra Kleberlúcio? Deus me defenda! Eu to mais pra mulher do Gianequinho, né? Tu acha que eu vou dar trela prum traste sem futuro, que fica andando por aí sem camisa, molhado de suor, com aquelas mão grande sujando o corpo das moças de graxa, sem um pingo de vergonha na cara, dois metros de altura, peitão peludo, umas pernas que parecem mais de um touro, insaciável... Eu, hein. Não tem quem me faça gostar daquilo lá.

Como Silmara não calava a boca, resolvi acabar logo com aquele labafério. Abri a janela de novo e berrei pra todo mundo ouvir: “Pois Neidoca contou que Kleberlúcio tá metido com droga e fez um bucho numa tal de Erinelza, lá da quadra de Zé Biloca."

Aí só vi uma mancha preta chegando cada vez mais perto, mais perto, mais perto, não deu tempo nem de desviar. Apois a quenga não acertou uma pedra  na minha testa? Pense na dor que senti, minha filha. Dei dois passos, caí durinha no chão. Não sei nem quanto tempo eu fiquei apagada, não lembro de nada. Só sei que acordei porque Mãe tava me cutucando com a vassoura, pedindo pra eu me levantar porque queria varrer os cacos do meio da casa. Aí, meu filho, quando eu dei por si, vi que a desinfeliz da Silmara tinha acertado uma pedra na minha TV de placa, plasta, plata! Aí me danei, mas tinha que vir trabalhar, né?

Eita, já chegou o ponto? Preciso correr porque já tô atrasada. Dona Salete fica meia hora falando quando eu chego atrasada. Outro dia eu conto o que eu fiz com Silmara quando cheguei em casa.



Marcelo - Café Expresso  -  Campinas  -  11/10/2007 ~ 12:16
Ô gente, diz aí quem é a Guzimeire. Bom demais.

A Redação  -  Paradoxo  -  11/10/2007 ~ 21:09
Ué, Marcelo. A Guzimeire é a nossa diarista. Assim, ela não vem todo dia, mas sempre que dá, a doida aparece pra dar uma geral aqui na Redação.

Marcelo - Café Expresso  -  Campinas  -  12/10/2007 ~ 21:26
Ok. Adorei a Guzimeire e o nome da coluna.

guzimeire  -  brasil  -  15/10/2007 ~ 18:14
diarista uma ova, viu. repara se sou mulher pra fazer "diárias", isso é coisa pra vagabunda, ordinária. eu presto assessoria em assuntos domésticos, viu? e nem sou diarista, porque esse seu marcus aí vive dizendo que nao tem dinheiro pra pagar pra eu vir todo dia. vou te contar, viu...

Marcus Cardoso  -  Redação  -  15/10/2007 ~ 23:55
Calma, Guzi. Não precisava expôr assim nossa intimidade. é que o pessoal tá acostumado com o termo diarista, desculpe :)

sergio  -  natal  -  17/10/2007 ~ 12:50
espia só o paraíba dando show! muuuuuuuuuuuuuuuuuito massa, quase me mijo de rir! sem falar q espetim é mermo q ta vendo tu. hahauahauahuahauahahaahauaha

 
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