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A catarse de PJ Harvey em Nova York

Intimidade da musa britânica com a cidade faz toda a diferença no palco

por Hélio Sales
de Nova York - EUA

[17/10/2007]

Nova York [EUA] - "Parece que faz muito tempo desde a última vez que toquei aqui. Eras." Polly Jean Harvey tem uma relação especial com Nova York. No ano passado, a cidade foi escolhida por ela para uma das primeiras performances ao vivo de When Under Ether, do seu recém-lançado álbum White Chalk. Ainda em estado embrionário, a música não tinha nome e acabou vazando na rede batizada como The Ceiling.

Mas a relação de PJ Harvey com Nova York vem de muito antes. A cantora compôs boa parte de Stories From the City, Stories From the Sea quando morava por aqui. Não à toa,  referências ao Brooklyn, Manhattan e ao Empire State Building permeiam todo o disco. Também não por acaso, PJ Harvey escolheu a cidade para um dos dois shows da mini-turnê de lançamento de White Chalk nos Estados Unidos.

PJ radicalizou em todos os sentidos com White Chalk. Não que discos como Is This Desire ou To Bring You My Love não tivessem rompido com o que ela havia feito antes. Se no disco ela tocou e compôs todas as músicas ao piano, ao vivo ela surge sozinha, tocando todos os instrumentos e com o mesmo figurino exótico da  capa do novo álbum.

No entanto, a força da antiga PJ ainda está entre nós: nos berros desesperados que vão do grave ao agudo num só fôlego, na força distorcida de sua guitarra e na sua presença de palco inabalável mesmo depois de uma saia justa em pleno Beacon Theatre completamente lotado, na noite de 10 de outubro:

“Isto é ridículo!”, gritou alguém dos fundos do teatro. “Você acabou de dizer que isto é ridículo?”, pergunta PJ e alguns fãs nas primeiras filas berram que não. “Bom, eu já estava quase concordando com você...”

_monólogo musical
A credibilidade de PJ Harvey com o público novaiorquino é tamanha que os ingressos se esgotaram em poucas horas, há dois meses, antes mesmo do lançamento do novo CD. Para se ter idéia, no dia do espetáculo ainda era possível comprar ingressos para os shows de Tori Amos e Queens of The Stone Age, que aconteceriam na semana seguinte, no mesmo teatro. Sem banda de abertura e com míseros 5 minutos de atraso, bastou que a musa subisse ao palco para a casa vir abaixo.

Impossível não pensar num fantasma. O vestido e os cabelos desgrenhados faziam imaginar o jeito com o qual se enterrava mulheres dois séculos atrás. O que se viu na sequência foi um repertório que mesclava hits como Down By the Water, Rid of Me e músicas de pouca repercussão, como Nina. Alternando canções antigas e novas e tocando, ora guitarra, ora piano, passando por pratos, harpa e até maracas, o monólogo musical de PJ hipnotizou a platéia por uma 1h30.

Sem banda de apoio, sobrou jogo de cintura durante as trocas de instrumentos, enquanto a cantora fazia piadas e comentários engraçadinhos. “Querem saber o que está escrito no meu vestido? São as letras das músicas. Sabem como é, a gente vai ficando velha...”, dizia ela, se divertindo tanto quanto o público.

Engraçada, tímida e levemente desengonçada nos diálogos, PJ parecia trocar de pele durante as músicas: ora como demônio, em Snake, ora como alma penada medieval, a exemplo de Grow Grow Grow. Uma aula de postura rock’n roll.

Seu registro vocal é assombroso. Momentos contidos de White Chalk ganham textura épica ao vivo. As canções recentes só não foram mais emocionantes do que as clássicas Rid of Me, My Beautiful Leah e Man Size. É como se o show inteiro fosse de pontos altos. Visivelmente emocionada,ela ainda voltou para um bis apoteótico. E parece que faz muito tempo que PJ Harvey tocou aqui. "Eras".

fotos: scaredsquee

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