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O homem era lindo...
...mas eu nem queria mesmo aquele traste sem futuro por Guzimeire
Saí vexada-vexada da casa de dona Albanízia, arrochei o passo pra pegar o coletivo das seis, mas só me lasquei. O djabo do busão saiu lotado, com gente caindo pelas janelas. Não, meu filho, eu não sou mulher de andar imprensada em ônibus, não... aquele monte de homem sem futuro se esfregando nas mulé, aproveitando pra tirar uma casquinha. Vou nada. Nem que Jesus baixe na Terra e diga “Guzimeire, entre nesse ônibus lotado agora”, eu não entro. Você sobe naquilo, paga a passagem e deixa a dignidade do lado. Tu acha? Sou mulher dessas coisas, não. Aproveitei que agora tava com tempo e fui passear nas lojas de confecções que tem no terminal. Cada coisa linda, menina, se não tivesse que pagar a prestação da TV de prata, pasma, plasta... ia era comprar uma ruma de coisa, ficar fashion, matar Silmara de inveja. Porque, vou te dizer, eu posso até ser gorda, mas prefiro ser assim do que ser que nem Silmara, que tem as pernas fina-fina e uma barriga deeeesse tamanho. Sabe quele bucho que parece que vai pular de dentro das calça e derreter? Apois o dela é igualzinho. E a puara ainda usa umas blusas bem curtinha, da cotton, da laicra, sabe? Aquelas que esticam um monte e marcam os bicos do peito. Acho uma imoralidade aquilo. É de dar gastura, to te dizendo. Tem espelho em casa não, é? Sim... eu tava lá, olhando as roupas numa loja muito boa e daí, quando olho, sai do provador um homem tão lindo que, quando vi, a pressão baixou na mesma hora. Nesse instante, falei pra mulé da loja: acuda, moça, acuda, que tô passando mal.. ai... ai... foi ficando tudo escuro, escuro e girando, escuro e girando... depois só lembro de ter acordado um minuto depois com a moça segurando minha cabeça e o rapaz – ave maria, chega que tô desmaiando de novo! – me abanando. “Você tá bem, moça?” – era a voz do homem lindo me perguntando. Tô, respondi, e pedi que ele fosse ali na Lanchonete Fabiano buscar uma coxinha com suco de groselha pra mim. Eu tava fraca, né? Precisava comer. Disse pra ele: “você me dá seu endereço e seu telefone que depois eu pago, viu?”. Ele foi pegar as comidas, mas disse que não precisava pagar de volta, não. Em compensação não me deu nem o endereço nem o telefone. Tu acha? Mas não desisto fácil não, viu. Quando o bonitão tava chegando com a coxinha e o suco, comecei a chorar. A sirigaita da loja veio logo acudir, mas mandei ela cuidar do trabalho dela, que me deixasse em paz. Ele entrou na loja e foi logo perguntando o que eu tinha. Eu disse que tava doentinha, que precisava que alguém me levasse pra casa e blábláblá. Ele perguntou onde eu morava e disse que me levava. “Claudiney com ípsilone, prazer”, ele disse. Respondi “Guzimeire com i, prazer também, viu?”.Comi a coxinha, tomei o suco, e fui embora com o moço. Antes, aproveitei pra estirar o dedo pra sirigaita da loja porque notei logo no começo da história que ela tava se oferecendo demais pro homem que eu vi primeiro. Pense na jabiraca. Pedi pra Claudiney me ajudar a andar, porque ainda tava tonta. Ele falou que não reparasse mas a moto tinha um bagageiro grande e ia ficar meio apertado pra dois, mas que ele não ia se incomodar se eu não me incomodasse. A-HAM! Agora me incomode! Melhor ir apertada na moto com um homem lindo desses do que imprensada numa lata véia com uma penca de macaco fedorento. Subi na hora na motoca. Ele se ajeitou como pôde e saiu em disparada. Eu tava era com medo de desmaiar de novo, de tanta emoção, mas não me fiz de rogada: agarrei o cabra pela cintura e encostei a cabeça nas costas dele. O casaco de couro era cheiroso que só. Ele era saradinho, fortinho, visse – porque quem gosta de homem gordo é pereba – e já tava imaginando como ia ser namorar, me casar e ter uns quatro filhos com Claudiney. Afe, chega deu umas pontadas no estômago. Já tava até pensando no nome dos menino, quando de repente – pliiim – a gente já tava entrando na minha rua! Afe! Parece que quando você tá com o homem dos seus sonhos, o tempo passa depressa, né? Assim que desci da moto, disse pra Claudiney: “chegue, vamo entrando, comer uma bolachinha com café”. Ele disse que não queria, muito obrigado e foi me dar um beijinho de despedida. Na mesma hora Silmara colocou a cabeça na janela! Pense no estrago grande que eu quis fazer. Agarrei o homem ali mesmo e tasquei-lhe um beijo de língua e tudo. Assim que a bisca fechou a janela, larguei o homem. Ele tava meio transtornado, disse que precisava trabalhar mas que ia me ligar mais tarde pra gente fazer alguma coisa. Ele botou o capacete e saiu. Mas antes de eu chegar dentro de casa, só ouço o baque. Acredita que Silmara se jogou na frente da moto de Claudiney? Tava lá, gemendo, estirada no chão, dizendo que tinha sido atropelada e precisava de socorro... me descambei correndo pra acabar com a raça daquela belzebu, mas Claudiney colocou ela na garupa e foi levar a quenga pro hospital. Quando tavam saindo, a ordinária olhou pra trás e estirou o dedo pra mim. Pense no ódio grande! Fiquei até de noite esperando Claudiney ligar. Depois caiu a ficha: desde quando eu tinha dado meu telefone pra ele? Fui lá bater na porta da Silmara – já ia aproveitar e arrancar os dentes dela por causa da TV de placha, plaga, prasma... – mas quem disse que a rampeira tinha chegado em casa? Devia tá lá, na descaração com Claudiney. Agora tô achando ótimo ter me livrado daquele traste. Nem tinha gostado dele mesmo, acho que ele percebeu isso. O bom é que Kleberlúcio, que é brabo que nem siri na lata, vai saber de toda a verdade amanhã de manhã. Aí quero ver a Silmara se acidentar de verdade.
Mila Moura - 26/10/2007 ~ 11:17
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