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Nada de novo no Oscar 2008

Em ano de bons filmes, estrangeiros são destaque na premiação em Los Angeles

por Rafael Braz
Editor

[27/02/2008]

Antes de começarmos, vamos combinar que ninguém se interessa pelo Oscar, ok? Bem, talvez eu não devesse generalizar. Há pessoas que até podem se interessar pela premiação – conheço quem faça dela um “guia de filmes para se ver durante o ano”, mas a cerimônia é sempre a mesma coisa. Quem já assistiu uma, já assistiu todas. Confesso até que troco de canal ou aperto o “mute” quando começam as apresentações dos concorrentes a Melhor Canção.

 

Jon Stewart - o canastrão da CNN
foi o mestre de cerimônia da noite
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Desde o final da tarde do último domingo, 24, jornalistas, fotógrafos e apresentadores de TV se acotovelavam na frente do Kodak Theatre em Los Angeles, para conseguir uma entrevista ou uma boa foto dos convidados para a cerimônia. Por outro lado, muitos quase famosos lutavam para sair bem em uma foto com sua presilha de milhões de dólares e seu vestido de grife e, assim, ganhar alguma exposição positiva. Um não vive sem o outro.

 

A apresentação mais uma vez ficou por conta do comediante Jon Stewart, que novamente mostrou ser o cara certo para o trabalho com um timing perfeito para comédia e piadas sobre a atual administração dos EUA que devem ter incomodado boa parte da Hollywood Republicana. Por favor, Academia, nada de Whoopi Goldberg, Steve Martin ou Billy Crystal, mantenham Jon Stewart no próximo ano, pois mesmo com os dubladores arruinando boa parte das piadas para quem não entende inglês, ele ainda está anos luz a frente de apresentadores anteriores. Além disso, ele foi responsável pela agradável surpresa de trazer de volta Marketá Iglová para agradecer pelo Oscar de Melhor Canção. Motivo: quando ela começou a falar, cortaram o microfone e subiram a música. Corta para o comercial.

 

Cinematograficamente falando, foi um Oscar dos bons. Há tempos não se via uma seleção de filmes tão bons quanto a dessa edição [o que talvez explique a baixa audiência]. Todos os indicados às principais categorias - ou pelo menos boa parte deles - realmente mereciam a indicação.

Joel e Ethan Coen com suas estatuetas para 
Melhor Direção e Melhor Filme
 


O grande premiado da noite foi Onde os fracos não têm vez, de Joel e Ethan Coen, que levou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator Coadjuvante [Javier Bardem] e Melhor Roteiro Adaptado. Como também são responsáveis pela adaptação do livro homônimo de Cormac McCarthy para as telas, os irmãos diretores subiram ao palco praticamente três vezes seguidas para receber seus prêmios, e olha que eles ainda concorriam como Melhor Montagem com um pseudônimo. Foram vitórias esperadas, mas confesso que me decepcionei com eles, que pareciam dois ex-hippies que finalmente se renderam ao “sistema”.

 

Esperada também era a premiação de  Daniel Day-Lewis como Melhor Ator por Sangue Negro. A atuação do inglês no filme é intensa e de uma humanidade incrível. É sempre bom ver o reconhecimento por uma atuação desse nível. Por mais que George Clooney e Johnny Depp sejam caras simpáticos e gente boa, esse ano não tinha para ninguém.

 

O prêmio de Melhor Atriz foi justamente concedido a Marion Cottilard, que interpreta Edith Piaf e é única coisa que realmente desperta o interesse no fraco Piaf – um hino de amor. A transformação da bela atriz na esquisita cantora é impressionante. Claro que a maquiagem ajudou, mas o filme nada seria sem a presença de Marion.

 

O bonitinho Juno – indicado em quatro categorias – ficou com a premiação que lhe era merecida: Melhor Roteiro Original. A roteirista Diablo Cody é uma ex-stripper e, embora eu acredite que o prêmio tenha sido bastante motivado pela excentricidade da roteirista, não se pode negar que ela conquistou a todos com a história da gravidez da jovem Juno.

 

Se por um lado foi uma pena ver filmes como O Escafandro e a Borboleta deixarem a festa sem nenhuma estatueta, foi refrescante ver filmes como Transformers e O Norbit [se é que podemos chamar o último de “filme”] também sairem de mãos abanando, pois as categorias técnicas a que concorriam ficaram com o bom Ultimato Bourne [Montagem, Som e Edição de efeitos sonoros], o razoável A Bússula de Ouro [Efeitos Visuais] e Piaf – Um hino de amor [Maquiagem].

 

Javier e mamãe Bardem no tapete
vermelho
Ademais, a única coisa que realmente chamou a atenção foi a abertura do mercado hollywoodiano para estrangeiros. Além do fato de que TODOS os atores premiados eram europeus [Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Javier Bardem e Tilda Swinton], os italianos Dante Ferreti e Francesca Lo Schiavo levaram Melhor Direção de Arte por Sweeney Todd, e a dupla irlandesa/polonesa Glen Hansard e Marketá Irglová venceram como Melhor Canção Original pelo filme Once, desbancando [ainda bem] todas as canções do filme Encantada. É bem verdade que o único a discursar em sua língua natal foi o espanhol Bardem [que o fez de forma bastante emocionada], mas ainda assim foi apenas uma parte do discurso.

 

Não que Hollywood seja completamente dominada por americanos, até porque não é, mas é interessante que o centro do cinema mundial já não fale apenas inglês e esteja se acostumando com a presença de outros idiomas... Tudo bem, ainda não é assim, o inglês ainda é e talvez sempre seja a língua oficial por lá, mas pelo menos ele já é falado com os mais variados sotaques. A-há!! Toma Hollywood!

 

 

Confira todos os vencedores da noite:

 

_melhor filme

Onde os Fracos não têm Vez

_melhor ator
Daniel Day-Lewis [Sangue Negro]

_melhor atriz
Marion Cotillard [Piaf - Um Hino ao Amor]

_melhor direção
Ethan Coen, Joel Coen [Onde os Fracos Não Têm Vez]

_melhor ator coadjuvante
Javier Bardem [Onde os Fracos não têm Vez]

_melhor atriz coadjuvante
Tilda Swinton [Conduta de Risco]

_melhor roteiro original

Juno [Diablo Cody]

_melhor roteiro adaptado
Onde os Fracos não têm Vez [Joel Coen, Ethan Coen]

_melhor fotografia
Sangue Negro [Robert Elswit]

_melhor montagem

O Ultimato Bourne [Christopher Rouse]

_melhor direção de arte
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet [Dante Ferretti]

_melhor figurino
Elizabeth: A Era de Ouro [Alexandra Byrne]

_
melhor maquiagem
Piaf - Um Hino ao Amor [Didier Lavergne, Loulia Sheppard]

_
melhor trilha original
Desejo e Reparação [Dario Marianelli]

_
melhor canção original
Once [Falling Slowly]

_melhor edição de som

O Ultimato Bourne [Scott Millan, David Parker, Kirk Francis]

_
efeitos visuais
A Bússola de Ouro [Michael L. Fink, Susan MacLeod, Bill Westenhofer, Ben Morris]

_melhor animação
Persepolis [Vincent Paronnaud, Marjane Satrap]

_melhor filme estrangeiro
The Counterfeits [Áustria]

_melhor documentário

Taxi to the Dark Side

_melhor documentário de curta-metragem
Freeheld [2007]

_melhor filme de animação - curta-metragem
Peter & the Wolf

_melhor curta-metragem

Le Mozart des pickpockets

 

fotos: corbis



Alessandra  -  Brasília  -  27/02/2008 ~ 10:11
Eu achei que o Oscar desse ano foi muito mais justo do que o do ano passado. Acho que eles premiaram o Martim Scorcese muito mais por pressão do que por merecimento. Claro que estou falando do filme que concorria, porque o Scrocese tem filmes ótimos. Isso não é dúvida. Esse ano, Daniel Day-Lewis e Javier já eram certeza. Eles estão ótimos em seus respectivos filmes. Faltou um brasileirão lá, né cara?

hanny  -  vila velha  -  27/02/2008 ~ 17:40
colocações super bacanas! é difícil escrever algo novo depois de dois dias, quando quase tudo já foi dito... eu disse quase, pois a sua análise final me faz crer que ainda existe vida inteligente em crítica de cinema.. ou sobre assuntos que o cinema gera.

Delson Bourguignon  -  Macapá  -  28/02/2008 ~ 10:26
Muito bem comentado.A monotonia e mesmice da apresentação serve de um bom sonífero

 
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