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A nova obra-prima de Nick Cave
Amor e misticismo bíblico são os pilares do novo álbum Dig, Lazzarus, Dig por Jorge Rocha
O dramaturgo Mário Bortolotto recentemente escreveu em seu blog que está vivendo a última juventude. Do alto de seus 45 anos, ele se recusa a colocar o pé no freio, trabalhando e curtindo com a intensidade que acredita que lhe é devida, recusando-se a se acomodar. Nick Cave, 5 anos mais velho que Bortolotto, parece entender muito bem disso. É essa impressão, incisiva como uma picaretada no peito, que parece se fixar após a primeira audição completa de Dig, Lazarus, Dig, 14º álbum de Cave com os Bad Seeds, lançado no
Parece que ele agora se permite obedecer fielmente a certas premissas: a prática da auto-ironia, a busca por um formato ainda mais acurado para explanar suas obsessões e a reafirmação e recombinação musical de seu caráter de crooner dissidente. Em tempo: a idéia de brincar com a própria imagem, minimizando ou depurando a sisudez que o acompanhou desde sempre, mas sem perder aquela aproximação calculada com a morbidez está presente nos vídeos promocionais de DLD, como – a saber: Lest I shiver, Place your hands upon the table, Place Your fingers upon the planchette e Blindfold me sir. Nestes vídeos, podemos ver Cave com um turbante – compondo uma figura ainda bizarra em seu padrão disco suit –, encarnando um farsante paranormal em situações esdrúxulas. Os Bad Seeds também não ficam atrás neste quesito: Warren Ellis, barbudo e de terno, lembra bastante o personagem Arcádio, da série Hellblazer – sim, aquela que narra as aventuras do mago inglês e anti-herói nato John Constantine. São estas imagens que ajudam a marcar e realçar as obsessões caveanas: amor e misticismo bíblico - esta última, presente desde o nome do álbum, que transporta Lázaro para a Nova York dos anos 70. É perceptível também um realce na maestria com que Nick Cave trata as palavras em um eterno jogo de xadrez cognitivo. Podemos arriscar dizer que, com Grinderman, “banda paralela” que montou após o duplo Lyre of Orpheus/The Abbatoir Blues, ele parecia anunciar o que estava preparando, em termos musicais e de atitude, para este Dig, Lazzarus,Dig – ainda mais quando passou a envergar um bigodón no estilo Paulo Leminski, outro membro do clã dos exus.
Outro exemplo deste fino trato está na letra de Night of the Lotus Eaters – canção de baixo hipnótico em loop e efeitos sonoros –, em que há as frases “sapped & stupid I lie upon the stones and I swoons” e “grab your sap and your heater”. O próprio Cave explica que “sapped” e “sap” são termos não muito comuns na língua inglesa corrente, mas que remetem às gírias dos romances noir dos anos 40, de autores como Raymond Chandler e Mickey Spillaine. Os termos simplificam, respectivamente, a ação de levar um golpe de bastão na cabeça e o nome do bastão em si. Trata-se de um álbum transgressor na discografia de Nick Cave? Não. É uma de suas obras-primas? Sim. A até então inevitável pesagem na balança entre cada novo trabalho de Cave e feitos magistrais como Henry´s Dream [1992] e The Boatman´s Call [1997] deve ser evitada nesse caso – finalmente. O único ponto contra em Dig, Lazarus, Dig é que ainda não há turnê programada para o Brasil, país onde Cave morou um tempo. É improvável que a situação seja revertida, mas caso isso aconteça, talvez Wander Wildner devesse alguma versão de qualquer música desse álbum – a exemplo do que fez com Candy, de Iggy Pop. Isso tudo só para provar a teoria de que malacos do mundo inteiro, não obstante onde estejam, se encontram em sintonia fina.
fotos: divulgação
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