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Desejo incontrolável

A compulsão é uma forma descontrolada, inconsciente e repetitiva da vontade se manifestar

por Adilah Awada
[08/04/2008]

A história da auxiliar administrativa A.C., de 24 anos, pode ser vista por alguns como a de uma mulher, entre tantas, que adora fazer compras. Ela chegou a gastar, em menos de dois meses, dez talões de cheques da conta conjunta que tinha com o marido, mesmo sem trabalhar. Acabou com as economias do casal e mergulhou em dívidas. 

E quando a designer Débora Elyodora, de 36 anos, ganhou 33 quilos, passando a apontar o número 85 na balança, coisa que nunca havia acontecido em sua vida, muitos podem ter  achado que ela era apenas  alguém que gostava muito de comer. Seu ganho de peso foi resultado de um exagero descontrolado em sua alimentação diária.  

O que as pessoas que julgaram essas situações como comuns e até mesmo as envolvidas não sabiam é os casos não poderiam ser resolvidos apenas pela boa vontade delas. As duas possuem uma doença crônica chamada compulsão. A.C. é compulsiva por compras [oneomania] e a designer, por comida. Mesmo percebendo a quantidade de problemas gerados por suas ações, não era possível parar. "O compulsivo sente uma vontade incontrolável de fazer sempre a mesma coisa, que pode ou não gerar prazer", explica o psicólogo clinico especializado em antropologia Mauro Godoy. 

Esse tipo de vício atinge 2,5% da população mundial, segundo a Associação de Portadores de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-Compulsivo [Astoc], e possui muitas variações.  "Hoje em dia, entre os casos mais comuns, encontramos a compulsão alimentar, pela mentira, pelo sexo, também ao computador, pela televisão, entre outros", exemplifica Godoy.  

_as causas 
O psicólogo explica que a compulsão pode surgir de fatores genéticos ou então ser adquirida ao longo da vida.  Ansiedade, carência, frustração, medo de relacionamento, timidez, tristeza e solidão são alguns motivos que podem conduzir ao transtorno.  

E foi justamente a ansiedade aliada a outros problemas emocionais que levou a estudante C.M., de 20 anos, ao descontrole. Ela passou a descontar seus sentimentos na comida e isso acabou virando um hábito. "Eu via nos alimentos uma forma de aliviar a tristeza ou de encontrar companhia nos momentos de solidão."

Já no caso do estudante Deivid Andrade, de 16 anos, o excesso de compras o aliviava das pressões que um adolescente pode passar,  transformando-se em um escapismo diante da realidade. "Eu vivia com medo das pessoas, medo de me relacionar e a timidez tomava conta de mim. Eu pensava no que os outros poderiam dizer ou pensar ao meu respeito." 

_fiquem alerta!
Nem sempre as pessoas que estão de fora do problema conseguem dar o apoio merecido a quem está nessa situação que, muitas vezes, nem é identificada como doença. Desde a adolescência, A.C. comprava  sem parar mesmo sem precisar das coisas e sem dinheiro para pagar por elas. Depois de se casar, o hábito não diminuiu. "Meu marido e meus familiares não entendiam, achavam que eu fazia de propósito." 


Débora voltou ao peso normal após o tratamento

No caso de Débora, a família demorou para perceber que ela tinha o distúrbio, pois ela era vista apenas como uma pessoa gorda, mas não doente. Após consultar um psicólogo, o real motivo veio à tona e os pais puderam apoiá-la. "Hoje eu tenho o total apoio e compreensão da minha família o que me ajuda muito."   

A família, principalmente os pais, deve ficar alerta aos hábitos dos filhos.  "Quando o descontrole faz alguém realmente sofrer, pode existir uma doença e o ideal é a ajuda médica", explica Godoy.  

O estudante universitário M.R., de 18 anos, apresentou o primeiro sinal de compulsão quando gastou, sem perceber, todo o dinheiro arrecadado para um evento do colégio onde estudava em compras pessoais. "Uma semana antes da festa eu contei para os meus pais o que eu tinha feito e eles tiveram de pagar por mim."

Se naquele momento os pais de M.R. tivessem notado, a compulsão poderia ter sido controlada. Desde então, o estudante, que hoje faz tratamento psicológico, passou a estourar o limite bancário em compras desnecessárias. "Já estourei o limite do banco e do cartão; já gastei o dinheiro da minha faculdade...", declara o jovem, que anda sem dinheiro para controlar a compulsão.  

_tratamento
O que ocorre, segundo o psicólogo, é que as pessoas só buscam ajuda quando a doença já está muito avançada e se torna obsessiva, ou seja,  evolui para um transtorno obsessivo-compulsivo [TOC], em que não há mais cura, e sim controle. "O vício vai crescendo, chegando a praticamente dominar a pessoa e a vida dela. Pode-se prever este estado, antes que ele aconteça, mas, normalmente, é nesse caminho que se começa a procurar a ajuda."  

Deivid foi uma exceção à regra. Ao notar que sentia um impulso para comprar coisas de que não precisava, passou a pesquisar sobre o tema. "Percebi, no início, o meu problema e por isso me curei com facilidade. A maioria das pessoas vão buscar ajuda psicológica quando a doença já se tornou um vício", conta.   

O pedido de ajuda de C.M. só foi feito quando a jovem chegou ao limite. Ela percebeu que não conseguia mais controlar o impulso de comer e isso se tornou um hábito freqüente. Somente nessa situação procurou apoio psiquiátrico. Hoje a estudante têm consciência do esforço que terá de fazer. "A compulsão é algo com o qual temos que conviver e tentar controlar o tempo todo."

Procurar apoio logo que notar que algo está errado em algum de seus hábitos e que isso está lhe trazendo transtornos é o indicado pelos compulsivos. "Conscientize-se de que você está doente e não tenha vergonha de pedir ajuda", enfatiza Débora. O profissional da área irá identificar a origem da compulsão, por meio da terapia, e indicar o tipo de tratamento e o que paciente deve fazer para controlá-la e voltar a ter uma vida normal.   

O tratamento envolve, além da terapia, medicações e até grupos de apoio. A professora T.B., de 55 anos, compulsiva por compras, percebeu que estava com problemas quando se viu sem dinheiro e com dívidas no banco. Hoje, com mais autocontrole, aconselha as pessoas que passam pela mesma situação a procurar ajuda médica e grupos de apoio: "Procurem um psiquiatra e um local dos DA." 

_grupos de apoio
No Brasil, existem grupos de apoio para os diversos tipos de compulsão:

Devedores Anônimos - www.devedoresanonimos-rj.org
Comedores Compulsivos Anônimos - http://www.comedorescompulsivos.com.br
Alcoólicos Anônimos - www.alcoolicosanonimos.org.br
Trabalhadores Compulsivos Anônimos -
www.trabalhadorescompulsivosanonimos.com



Renato  -  Itapetininga  -  09/04/2008 ~ 22:37
Muito bom o artigo...será que esse mal está associado a vida moderna onde as pessoas no acesso de serem o que esperam que sejam, perdem o controle das próprias vidas?

Christiane  -  SP  -  11/04/2008 ~ 11:57
Gostei mto da matéria e principalmente da forma como foi abordada. Conheço a Débora e sei o qto passou para chegar onde está. A força, a garra, a determinação, a disciplina e os "nãos" a todas as porcarias, fizeram dela esta pessoa linda e "magra" q é hj!

adriana  -  linhares ES  -  23/04/2008 ~ 19:56
nossa parabens a materia ficou excelente,maravilhosa.....adorei ter participado.....tomara q sirva para ajudar outras pessoas....

 
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